domingo, 22 de novembro de 2020

Bate-papo com pretenso casal de leitores

 



De volta, pessoal,

Leiam a apresentação de “Por uma Taça de Vinho”. São três páginas, gente. Vão encarar?

Um abraço,

Tião

 

Bate-papo com pretenso casal de leitores

 

Martinha mostrou o livro a gente, Sr. Tião. A capa é linda. Não vejo o momento de me deleitar com o jantar à luz de velas e de me comover com o tilintar das taças de vinho. Sou incurável romântica, Sr. Tião. Tem jantar, não tem? Por que o senhor não bota o romance nas livrarias para vender em consignação?

Não me levem a mal, Sra. Y e Sr. X, mas julgo melhor entrarmos. Vamos ficar aqui no jardim. Não convém facilitar a tarefa da bandidagem.

Engraçado, Sr. Tião, quando falou maravilhas de seu romance, a Martinha disse que o senhor não era muito chegado a vinho, não, mas o título e a capa do livro desmentem ela. Mas numa coisa a Martinha está certa: o senhor é realmente brincalhão. Por isso não causa surpresa alguma em ficar nos chamando de Sra. Y e de Sr. X.

Fiquei matutando. Parece-me prematuro ver jantar romântico na expressão “Por uma taça de vinho”. Igualmente prematuro concluir que sou chegado a vinho tão somente em razão da capa e do título do romance. Juntei tudo e cheguei à conclusão de que a senhora não era lá essas coisas em percepção linguística. O que me chateou, mesmo, porém, foi ela ter me chamado de burro. Detesto determinados por quês. Sobretudo os de entonações atrevidas. O “Por que o senhor não bota o romance nas livrarias para vender em consignação” chegou-me abarrotado de atrevimento. Mas ficou no cuspe a resposta: “Por que não quero, ora bolas”. Engoli a deselegância, mas cuspi-lhe direta indireta:

Martinha é leitora sagaz. Atributo indispensável para o leitor aferir que não comprou gato por lebre. Tão sagaz que as aparências literárias não a enganam. Martinha está certa, Sra. Y. Sou realmente brincalhão. Agora, tratá-los por Sr. X e Sra. Y não está sendo simples brincadeira. A brincadeira é séria.

Nossa. Brincadeira séria? Pode nos falar o motivo?

Melhor não, Sr. X. Certamente ficarão constrangidos, posto eu precisar contextualizá-lo.

Ficaremos não. Pode falar.

Tem certeza, Sra. Y? Pressinto que vão desconjurar meu livro.

Desconjurar? De onde tirou a absurda palavra, meu amigo?

Quis responder que da Martinha. Martinha, entretanto, deu-me apenas sinais, conquanto tenha usado um termo mais forte: amaldiçoar:

Oi, Tião. Falei de seu romance a um casal amigo. Eles quiseram saber onde comprá-lo e tal. Disse-lhes que apenas o autor estava vendendo o pirado e forneci o seu endereço. São meios avoados, Tião. Pegue leve com eles. Além disso, são castos e... Ah, deixe pra lá. Depois a gente se fala. Acho até, Tião, que vão amaldiçoar o livro. Especialmente na parte em que você mete o reio em certos governantes e chama o nosso maluco de maluco.

Martinha encerrou a ligação e caiu na risada. Agora, ali, na minha frente, a romântica moça me fazia rir. E o conjunto da obra fazia-me dar razão à Martinha. Achei por bem presenteá-los com o livro e assim encerrar a conversa.

Vou apanhar o livro. Presente, tá?

Às vezes, a gente  pensa em fazer um giro e faz um jirau. Fi-lo, como diria o outro:

Obrigada, Sr. Tião. Falar em presente, o presente só ficará completo se nos explicar por que iríamos desconjurar o livro e disser por que está me chamando de Sra. Y.

Não queria esticar a conversa, mas foi o jeito. Tirei a máscara. Mas não a contra o coronavírus. O casal permaneceu com a do peste caindo no pescoço. Com a voz mais amena do mundo, comecei a açoitar verbos:

Então, Sra. Y. Martinha me avisou que viriam aqui. Tomava um cafezinho e olhava as câmaras quando vi um carro estacionando no outro lado da rua. Motorista e passageiro desceram e ficaram olhando para o meu portão. O casal do livro, pensei, indo recebê-los.

Vocês atravessavam a rua e eu soltava um “caramba, meu”. Subiam a calçada e quase esbarravam em duas moças, por distração delas, já que caminhavam se beijando. Num claro gesto de empatia, as moças abriram um sorriso e deixaram vocês passarem. Os dois fecharam a cara e, antes mesmo de me apresentar, vomitaram um “A gente vê cada uma, viu”.

Naqueles segundos, Sra. Y, antessenti que o romance não lhes seria do agrado. A certeza chegou com cinco, seis minutos de conversa.

Nossa, Sr. Tião. Seu romance é assim julgador?

Não é o caso de julgar ou de  criticar. É o de se adequarem ao ideal do romance. Não lhes seria do agrado, pois o livro vai de encontro ao que, em segundos, vocês demonstraram ser. Não custa lembrar, Sr. X, que o senhor é o somatório de suas prioridades. E que o arguto observador soma rápido.

Bom. Imaginem dois carretéis de linha sendo desenrolados simultaneamente. Andando pra trás, alguém vai desenrolando um carretel chamado educação. No lado oposto, alguém desenrola o carretel chamado sexo. Entre os carretéis, garbosa dama supervisiona o trabalho. Competentíssima árbitra de entrelinhas, falemos dessa forma. O nome dessa árbitra é consciência, Sr. X. E “Por uma Taça de Vinho” é a imagem da história, Sra. Y.

Agora vejam a soma. Vocês estacionam o carro e atropelam a imponente árbitra, já que deixam o carro na frente da garagem do vizinho. De mais a mais, usam no pescoço o instrumento protetor e de proteção contra uma pandemia.

Nessas alturas, a consciência, coitada, deve estar inconsciente numa UTI.

Caminhemos, Sr. X. Vocês chegam ao portão censurando a sexualidade de duas mulheres.

Nessas alturas, o boboca do preconceito deve estar nas alturas de uma roda-gigante, ou da gigante roda, espremendo-se de tanto rir.

Vamos em frente, Sra. Y. Estamos nos vendo pela primeira vez, há cerca de quinze minutos conversando, e embora eu tenha dito “Sou o Tião”, vocês nem sequer informaram que eram o casal Tição.

Nessas alturas, e dado o contexto de poucos minutos, a educação deve estar pondo em ordem as letras “e, s, p, i, t, o, u, d”.

Nossa, Sr. Tião, está pegando pesado com a gente, não?

Não, Sr. X. Quem está pegando pesado é a obviedade. O livro é obviedade do começo ao fim. Naturalmente que a imbecil da estupidez fica dando rabanada pra ela.

Voltemos aos carretéis. Veja o da educação, Sra. Y. A senhora sabe quantos milhões de analfabetos existem no mundo? E no Brasil, a senhora sabe, Sra. Y? Segundo o IBGE, no ano passado, 2019, eram onze milhões de brasileiros e brasileiras (como dizia o outro outro), acima de quinze anos, que não sabiam ler e escrever ao menos um ridículo bilhetinho de amor. Como danado esse povo vai viajar na cidadania, pegar carona na consciência e se pendurar no pensamento crítico?  Esse povo tem culpa de ter vindo ao mundo no Brasil? Os governantes que deem seus pulinhos e arrumem um jeito de ir consertando a coisa, né, não?

A babaca da estupidez, Sra. Y, fica fula da vida em razão de o carretel da educação desmascará-la.

Agora, Sr. X, veja o carretel do sexo. Antes, gostaria de fazer uma pergunta aos dois. Como é a vivência de vocês na horizontal? Na cama, pra ser mais reto.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

POR UMA TAÇA DE VINHO

 

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POR UMA TAÇA DE VINHO

 

Voltei, gente.

Voltei com novidades: uma taça de vinho pra vocês. “POR UMA TAÇA DE VINHO” é o meu novo rebento. Vai estar indisponível nas piores livrarias do mundo. Nas melhores também. E igualmente nas do meio. Só por meio de mim é que podem se servir dela. Taça de cristal, digo logo. O endereço do boteco é tcarneirosilva@gmail.com. Mas está fechado, gente. A chave está com a revisora, a Angélica. Não venham agora. Avisá-los-ei (gostaram?) no momento oportuno.

Por enquanto, tomem três goladas do delicioso. Mas nada impede que o julguem enjooso.

 

PRIMEIRA GOLADA. Começa assim:

 

Acontece na terceira caipirinha, no Boteco 891, em 2010:

Silvana põe o copo na mesa, suspende o blá-blá-blá e fixa-se em mim. O olhar é só insolência.

Vem coisa aí, pensei, acionando a prudência verbal. Prevenção que me acompanha desde a adolescência. Conselho de minha avó materna:

Escute, meu lourinho danado. Não corte a palavra de ninguém e demore uns segundinhos para se pronunciar. Além de manifestar respeito, está dizendo ao interlocutor que aquilo que vai falar não será de afogadilho. Sobretudo se o falante for mulher. Mulher odeia ser interrompida e adora o homem que a escuta olhando nos olhos.

Sabe, TS, somos apenas bons amigos, então eu...

Silvana deve ter notado o rascunho de sarcasmo no meu rosto, tanto que deu uma titubeada na voz. Percebi bem a reprovação no olhar dela. Mais uma vez, por isso o rascunho, os conselhos da vó batiam com a realidade:

Quando, do nada, uma mulher lhe disser que “somos apenas bons amigos”, entenda a frase como declaração amorosa. É que mulher é pragmática. Ela fala isso se estiver percebendo que você não a quer. Seja porque não a quer mesmo, seja porque amá-la não pode. Então ela usa o pragmatismo como proteção sentimental, uma espécie de autoengano. Falei “do nada”, meu lourinho, porque se uma mulher falar os “bons amigos” num contexto de romântico assédio, tudo leva a crer que ela o veja como apenas bons amigos mesmo. Digo tudo leva a crer, porquanto, mulher, além de pragmática, é...

 

SEGUNDA GOLADA. Lá pras tantas:

 

Dez pra tudo o que falou, meu homem. Você é mil em sexo. E não apenas falando.  Eu também sou mil, não sou? Na teoria, por enquanto. Agora, nunca encontrei a resposta para a pergunta que vivo me fazendo. Desde os anos de exilada. O que faz o sexo ser superpoderoso? Como se explica a extrema perfeição do ato sexual? “Devido ao extremado prazer que proporciona”. Isso é o que leio por aí. Chamo “isso”, meu homem, porque isso não é resposta. Porra! Prazer é consequência. E o que eu quero é a causa. Por que o peste é tão eficiente? Já se fez essas perguntas, meu homem?

Engraçado, há dois minutinhos você pronunciou uma palavra que entra no contexto da resposta, Sylvia.

Como é? Entra no contexto?

Tenho a resposta, Sylvia.

Ah, meu pai. Meu nome é Sylvia Ouvidos das Ouças. Vou até me sentar no seu colo. Fale, fale.

O poder do sexo, Sylvia, vem do fato de a cópula ser a única atividade humana realizada sob delegação de competência para o interesse e para o egoísmo. O sexo pede que os humanos deleguem todos os poderes a esses dois atributos. Delegam entre si. Simultaneamente, por óbvio. É uma prova de confiança entre os copuladores, Sylvia.

Minha nossa. Delegação de competência. Prova, confiança. O que é isso, meu homem?

Entenda, linda. Interesse e egoísmo. Atributos pessoais, costumam andar juntos, certo? O interesse pode ser delegado. Para um advogado, por exemplo. O egoísmo, não. Ninguém pode ser egoísta no lugar de ninguém. O que fez o sábio sexo? Delegou os dois atributos, já que, delegado o egoísmo, o ego ficar zerado dele. E ele, o egoísmo, delegado que foi, ficar inoperante na mente alheia. O egoísmo fica perdidão. Fica no mato sem cachorro, está compreendendo?

Mais ou menos. Continue.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

DE JOGO E ANIVERSÁRIO





Mensagens de aniversário e parabéns para amigo, família e colegas 🎂
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DE JOGO E ANIVERSÁRIO

De rombo - 30! De número – 4! De rombo – 70!
        É a boa!
Batesse, vovô? Ganhasse o quê?
Quem chama as pedras é a avó Tânia. Quem faz as perguntas é a neta, Beatriz. Influenciada, por certo, pela algazarra dos parabéns pra você devido a chamada da última pedra.
Trinta e dois meses de mundo, e a menina mais bela do planeta já sabe o que é ganhar. Compartilha a exaltação da vitória, pois já entende que viver é jogar. Percebe que tudo na vida é jogo ou tem noção de jogo. No mais das vezes divertido. Mas, não raro, dolorido. Beatriz, aliás, assim como nós, é uma campeã. Não começamos a caminhada nocauteando os  concorrentes ao fazer da barriga da mãe um ringue? Pois! Erguemos os punhos quando, no primeiro solzão, recebemos do Criador a dádiva do dom divino do dia a dia.
Ganhei o quê? Vivo ganhando, Beatriz. Sou milionário. Meu patrimônio é afeto. Tenho três famílias: a nuclear, a consanguínea, a anexada. Partes dessas famílias você está vendo pelas janelas da modernidade. Bote o dedo no bolo e lhes ofereça uma lambida virtual. Isso. Acabou de jogar uma pedra de afeição, Beatriz.
Beijos virtuais, abraços remotos, palmas eletrônicas. E é assim sabe por quê? Em razão do jogo sujo de um de assassino da pior espécie: um coroa de nome Corona. O engenheiro do Apocalipse inventou funesto jogo de nome pega-pega-pandemia e saiu pelo mundo a jogar dor e morte. O tirano fica se escondendo em  todos os lugares pensando em nos dar o bote, Beatriz. O covarde começou nos impingindo apreensão, em seguida angústia e por fim medo. Há sempre ansiedade, insônia, censuras e disfarces entre os involuntários jogadores. O escatológico ataca a mente antes de entrar no físico. Não é fácil. Perguntas nos perseguem. É difícil agasalhar ponderação e perturbação na mente? Mas quem disse que é fácil viver sob virulências?
Por causa da covardia do execrável é que nos escondemos em casa a fim de fugir dele. Quem pode ficar, né, Beatriz? Entendeu a razão de estar vendo esse povo feio por essas janelinhas?
Pode enfiar o dedinho no bolo, Beatriz. Não sou o JB, mas quem manda aqui sou eu. Em resumo, minha nobre, o coisa-ruim fica jogando fichas de distração na nossa prevenção. Agora, Beatriz, tenho que admitir. Muito a contragosto, é certo, mas tenho que admitir. O virulento é bom de estratégia, viu? Jogou como ninguém o ICC. ICC, Beatriz, são as iniciais das três palavras de cujos significados os humanos vivem. Tudo no mundo, absolutamente tudo, tudo absolutamente, aqui, ali e alhures, passa pela combinação do conceito delas três. Que carinha é essa? Acha que estou exagerando, é? Quando estiver mais taluda eu explico. Minha frustração é que o verdugo encaminhou os conceitos na direção da morte. Mas gostei dessa carinha de cética, Beatriz. Carinha de jogadora, historiadora, escritora.
Falar em escritora e verdugo, lembrei-me do amigo Ernest, renomado escritor norte-americano. Dizia-me ele, coçando o cabelo:
Entenda, Carneiro, nunca me pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por nós. Porque, quando morre um homem, Carneiro, morremos todos, pois somos parte da humanidade. Então...
Estou aborrecendo você, Beatriz?
Tá, vovô.
Misericórdia, Beatriz. Bote o dedo no bolo de novo.
Bom, deixe-me falar só mais uma coisinha, já que uma coisa puxa outra. Isso aqui pra nós, Beatriz, mas dizem, dizem, né, que o coroa do Corona, o engenheiro do mal, está em Brasília. Vive jogando lero-lero com o presidente. Dizem que o malvado é unha e carne com o presidente, Beatriz. Ficam trocando cafunés. Acredita, Beatriz? Dizem, né, que os dois são gerentes da esquelética e desdentada dama da foice. Dizem que a função do papa-figo de véio é amolar a foice e a do presidente é a ele indicar quem deve ser degolado. Dizem, né, Beatriz. Mas, isso aqui pra nós de novo, estou propenso a acreditar na coisa. Veja a lógica.
O presidente é fã de discórdias, é ruim de jogo bom. É intolerante, insensível, indiferente... É arengueiro, enfezado, entediado... Na Saúde, em plena pandemia, fala e age diferente do que o povo e especialistas dizem que é o certo. O homem não esboça nem sequer um pingo de liderança, de empatia. Diz que tudo não passa de uma gripezinha. Aí, anteontem, uma repórter achou de falar pra ele que o Brasil acabava de ultrapassar a China em número de mortes. Sabe o que presidente respondeu, Beatriz? Você não vai acreditar. Segure-se na sela, minha amiga:
E daí? Sou coveiro, por acaso? E ainda pensou: "Vida que cessa".
Tás vendo, Beatriz? Sei não, viu? Pior, Beatriz, ele jogou pra Saúde um rapaz que tem uma cara de alma penada que chega a dar dó. Parece um crupiê de...
Ei, criatura, já vai? Quer mais furar o bolo, não?
Kelo não. Não kelo, não kelo, vovô. Tu fala demais, vovô.
É o quê? Tá certo, tá certo. Mas daqui a anos você vai chamar o bingo, OK? Vai chamar assim, ó:

De rombo – 80!

30 de abril de 2020,
Tião Carneiro (TC)







domingo, 12 de abril de 2020

CORONAVÍRUS – POR QUEM OS SINOS DOBRAM (Descoberto o tocador de sinos)




CINZAS QUE CHORAM: As bênçãos do toque do sino
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CORONAVÍRUS – POR QUEM OS SINOS DOBRAM
(Descoberto o tocador de sinos)

“Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade”
Ernest Hemingway


Olá, pessoal.
Colo, abaixo, amabilíssima cartinha do amigo Ernesto. (oito minutos de leitura)

Oi, Eugênio,
Dispenso-me de lhe perguntar se está bem. Como todos daí, deve estar orando a fim de tanger o tal do coronavírus para as profundezas do inferno. Orando e torcendo pelos acertos das autoridades, como humano de boa-fé que você é. Todos e autoridades daí, vírgulas, já que uma das desumanas autoridades, o Sr. Jair, não está nem aí para o sofrimento dos conterrâneos. Releve a ruma de “aqui” e “aí” e a rima com o Jair, tá, Eugênio? Esta missiva, aliás, tem tudo a ver com o Sr. Jair. Sucede o seguinte, meu nobre.
Não aguento mais a ordem desses quatro aqui: escreva para o Eugênio, Ernesto, escreva para o Eugênio, Ernesto. Eles pensam, Tião, que o seu nome é Eugênio. Desconhecem que o trato por Eugênio em razão de sua intimidade com o adjetivo de som análogo. Bom, eles estão putos com esse Jair. Ser contra o distanciamento social é coisa de..., de..., de..., dizem, os olhos cuspindo fogo.
Sabe, Eugênio, estou de espinhaço sangrando e de ouças arrombadas só de ficar me mexendo com os dobrados dos sinos daí que ressoam aqui. Se o repique não bastasse, o Raul fica dizendo que não vai ficar aqui com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. O Bandeira, então, dá dó, Eugênio: a mesa não estava posta, Senhor. Vou-me embora pra Parságada. Lá não existe baderna. O cara não troca o disco, Eugênio. E o Drummond? Põe-se a recitar de mãos na cachola: tem uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tem uma pedra. Tem uma pedra. Tem. Uma pedra. Uma pedra. Uma pedra. E conclui aos gritos: REMOVAM-NA. Ah, Eugênio, sei que está confuso. Vou explicar tudo.
Veja, meu nobre”:
Chegou um médico brasileiro aqui e nos contou o que está acontecendo com vocês. Não acreditamos, Eugênio. Fomos bater aí. Saíamos da nave e já fomos vendo escabroso casal aos beijos caminhando pra gente. O medo e a angústia queriam nos abraçar, Eugênio. Vão pra lá, coisas-ruins, esbravejei, pedindo calma ao Drummond. Eu, o Raul, o Drummond e o Bandeira queríamos passar a coisa a limpo, entendeu? Descobrir, sobretudo, quem

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A SECRETÁRIA DO CAÇÃO




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E aí, pessoal, tudo nos conformes?
Sabe quem deu as caras por aqui ontem? O Bião. Chegou com um saco de ressacas, duas tiras de mentiras e três bisacos de bizarrices. Mostrei-lhe os originais de meu livro... Ah, mudei o nome do livro, galera. Não será mais Escritórios da Mente e sim Por Uma Taça de Vinho. Bom, o Bião ficou uns minutinhos olhando os originais, fez cara de aborrecido e me deu uma folha de papel.
Último texto do Veríssimo. Mas acrescentei alguns detalhes, a exemplo do que fiz no Sebo, disse ele. Leia, Tião.
Mentira das grandes, gente. O Bião vive dizendo que é amigo de Luís Fernando Veríssimo, que toca saxofone com ele e coisa e tal, tudo para se amostrar, como se da rima talento fingimento resultasse autêntico. Ri da desfaçatez do disfarçado, até porque acabara de ler “Direta/Esquerda” no Estadão, a última prosa do Veríssimo. Mas vou ler o conto do tapeador Bião, vivida na pele de um tal Cação.

A SECRETÁRIA DO CAÇÃO

Meu nome de batismo é Edu, mas todo o mundo me conhece por Cação. Sou da família dos Ãos. Sou ene neto do Abraão. Todos os varões de nossa família têm um nome oficial e um histórico. O oficial do Bião, por exemplo, é Ebu. O do Tião é Evu. O meu, Cação, veio duma sacanagem do Tião, e significa homem imprestável.
Rapaz usado - tenho sessentinha -, sou romancista. Romancista milionário, acrescento. Mas não em virtude de direitos autorais. Sou milionário em razão da sorte, já que há anos ganhei uma bolada na Mega Sena. Mas ninguém sabe que fico mangando do tempo por causa disso. A fim de justificar a riqueza, fico espalhando que sou mais vendido no exterior do que Paulo Coelho.
Estou terminando de escrever o livro nº 5. Acontece que a história deu um nó cego. Por isso joguei nas redes sociais um “precisa-se de secretária”.
Bom, nove horas, eu estava na expectativa da moreninha. A campainha tocou. Pela câmara da calçada, vi logo que era linda. Fui recebê-la no portão. Não me segurei:
Como você é linda. Nossa. Minha vontade é ir ao lugar comum dos clichês, pôr quatro no cocuruto e sair gritando que você possui estonteante beleza, tem lambível pele aveludada, usa orgástica voz de mel e é dona de excitante rosto angelical. Você tem excesso de beleza e carência de antipatia, Educarda.
Eduarda, senhor. Obrigada, Sr. Edu.
Eduarda, desculpe. Não sei de onde tirei esse “c”. Vamos pro escritório. É ali, naquela cobertura. Deve estar estranhando

terça-feira, 22 de outubro de 2019

OUTRAS IDAS E VINDAS




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Olá, gente.
Três meses sem dar as caras, resolvi postar um excerto do que se tornará meu livro, o culpado desse hiato. Escritórios da Mente será o nome do presunçoso romance. Botecos, costumes, sexo. Tem tudo disso lá. Apenas historinhas, né, pessoal?
Dei ao excerto o título de Outras Idas e Vindas.
Vamos nessa? É curtinha? Conheçam o TS e a Sylvia.

OUTRAS IDAS E VINDAS

Não diria que seja aquela coisa de perder o sono. Não. Não é. Mas vez ou outra a vontade chega outra vez. Principalmente quando estou aqui, no Boteco 891. Foi aqui que tudo começou. Começou entre um copo e outro de cerveja, em que idas e vindas de copos se intrometiam entre vindas e idas de nosso olhar. Olhar e outros gestos existentes desde que o mundo é mundo.
Noutro dia, vejo-a numa pizzaria de shopping, caminho em sua direção, mas desisto de cumprimentá-la em razão da intimidade de um chopp escuro com os lábios dela. Vejo a cena e, vejam só a infantilidade, vejo-me enciumado, pode? Falo com ela noutra oportunidade, penso. Penso, mas vou prum canto da pizzaria e fico de mutuca na vergonhosa pegação. Ela usava calça de academia, mostrava as sem funções alcinhas azuis e mudara o corte do cabelo.
Está simplesmente, diria eu noutros tempos. Aí ela fazia aquele ar de sapeca, sorria, e perguntava o que eu queria dizer com simplesmente.
Será que está usando aquele perfume que me deixava louco?
Vez por outra a Sylvia ficava com a taça de chopp nos lábios, olhava distante, em idas e vindas de pensamento. Será que está pensando em mim, em nossas primeiras idas e vindas de olhar? Ou pensa em nas nossas vindas e idas da vida? Será que está indo ou vindo da academia? Nisso um diabinho sacana e alcoviteiro me assopra:
Tás vendo, idiota? Se não tivestes deletado o número dela era só ligar e pronto.
Idiota é você. Não preciso de memória de celular pra iligar pra ela não, cara.
Noutros momentos, a minha voz vazava quando pensava nela. Mas nunca naquela intensidade. A ruivaça quase vizinha de mesa me olhou - olhar guloso, achei -, mas me fiz de idiota e não dei bola para aqueles olhos verdes. Não dei bola, mas percebi que era friorenta, denunciava-lhe o casaco protetor, e tinha um sorriso sexy. Esperava o namorado, talvez.
A Sylvia me expulsou das redes sociais, deletei seu número, é verdade, providência inútil, porém, já que seria capaz de discar o número dela mesmo de olhos fechados. Aqui tilintou a ficha: quem vai pra academia

sexta-feira, 19 de julho de 2019

A VERDADE, O POÇO E OS DEUSES




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A VERDADE, O POÇO E OS DEUSES

Olá, pessoal,
Quem é vivo aparece, né não?
Li o texto abaixo no facebook da amiga Pollyanna, com comentário da Ednalva, e me deu vontade de aumentá-lo. Coisa de gente besta. Leiam o texto dela e passem os olhos no meu. Ou leiam apenas o dela, é claro.

Segundo uma lenda do século XIX, a Verdade e a Mentira se encontram um dia. A Mentira diz à Verdade: "Hoje é um dia maravilhoso!" A Verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A mentira diz à verdade: “A água esta muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que é realmente está muito gostosa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta.
O mundo, vendo a verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.


Acontece que a história não acaba assim, nobríssimas Pollyanna e Ednalva. Sucede que uma galera grega, liderada pelo Sócrates, fez mil e um encontros a fim de resgatar a Verdade. Esse povo era obcecado pela verdade, sabem vocês, não? Resgatar não é bem o termo, já que, na verdade, eles não sabiam que a nossa amiga se encontrava num poço. Portanto, queriam encontrá-la, não a resgatar. Pois bem, num desses panegíricos, chega a Aleteia, a filha mais nova do Zeus. Aleteia, sabe, né, Pollyanna, sabia de tudo. O problema dela era o irmão, o tal de Pseudólogo, vulgo Dolo. O bicho era nó cego. Aqui, acolá, queria passar a perna na irmã. No sentido figurado, entenda, Polly.  Bom, aplausos, beijinhos e a pergunta do Aristóteles:
E aí, Aleteia, dás notícias da Verdade?
É claro, Ari. A Verdade está no Brasil. Numa cidade por nome Natal, num poço chamado Dentão. Local praieiro, perto do Forte dos Reis Magos.
Aleteia deu a informação e detalhou a história que a Pollyanna postou, entendeu, Ednalva?
Logo no Brasil? Misericórdia! Não acredito. Puta que pariu, porra, cacete. Esses foram os palavrões mais palavrinhas, garotas. Eles supunham a Verdade ali pela Grécia, Roma. Naquele entorno, afinal. Sim, a Aleteia narrou o episódio do entrevero da Verdade com a Mentira, mas incorreu em brutal equívoco. Influenciada pelo irmão, o Dolo, é verdade. Aleteia disse que a Mentira tinha sete pernas. Mentira. Na verdade, a Mentira não tem pernas. Tem asas. Mentira voa, gente. Certo é que começa ali o dito de que sete é conta de mentiroso.
Pois muito bem. Os caras, os gregos, gostariam