sexta-feira, 30 de março de 2018

RETRATOS DE AMANTES




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RETRATOS DE AMANTES



Levarei bordoadas em razão desta postagem.
“Misericórdia, quanta criatividade! Barzinho de novo, TC?”, dirá a Silvana. O Zé Alves não deixará por menos: “Assim não dá, meu. Só começa texto ambientado em barzinhos, cara”. Aí ele vai liberar um PQP do tamanho do mundo.
Bobagem. A dupla gosta de me ler bebendo. São biriteiros oficiais.
Sou fissurado em barzinhos, confesso numa boa. Fazer o quê? Normalmente saio deles com bela história no quengo. A atmosfera prazenteira de botecos é indescritível. Neles, algo cósmico cozinha a nossa mente e logo nos serve a solução para as mazelas da vida.
Repito o discurso com o qual deixo cambaleante a verdade dos incrédulos abstêmicos. Boteco é terapêutico, porquanto elimina angústias. É produtivo, já que cria soluções. É circense, porque injeta sorrisos. É democrático, visto acolher qualquer assunto. É extrovertido, posto destravar línguas. É abastado, pois torna o cliente endinheirado.
Santuário do prazer, boteco é, enfim, pura poesia.
Então, pingo do meio dia da quinta-feira santa, passava defronte de um barzinho na periferia de Natal, achei-o atraente, acomodei-me numa mesinha de canteiro e pedi uma cerveja. Minutos depois chegaram quatro senhores e sentaram-se a uma mesa a dois metros de mim. Pediram cachaça e caldo de camarão. Não eram nem moços nem velhos. Adolescentes da velhice, digamos assim. Não eram bonitos nem feios. Apenas apresentáveis, se é que me entendem. Mas traziam aquela distinção não desprezada pelos veteranos da alegria. Esse indescritível quê, frio, sagaz e irônico, que diz claramente: Já vivemos muito e ainda procuramos o que poderíamos amar e estimar.
Cumprimentamo-nos apenas de cabeça. Amizades de barzinhos sempre começam timidamente. Mas tapinhas nas costas e abraços são comuns nas despedidas. Esse é o protocolo da turma biriteira.
Foquei os olhos numa morena-jambo que caminhava na direção da mesa vizinha à dos pré-idosos. Vinha da parte interna do bar e bebericava uma bebida vermelha. Andava e dava carona a certas imaginações e a olhares deleitosos. E delituosos. Culpa do excesso de beleza. Falava ao celular, gesticulava e olhava na extensão da rua. Sentou-se e se pôs a mexer no aparelho.
Bom, os senhores falaram por alguns instantes de corrupção, tiraram fino na Seleção Brasileira de Futebol, passaram de raspão na violência e iniciaram um papo sobre gastronomia.
Não dou dois minutos para o assunto ser mulher, pensei. Acertei na mosca. Um deles desviou a conversa para as amantes. Falou rebuscadamente. Quer se mostrar para a moça carente de feiura, imaginei. Iniciou assim:
Todos os homens já tiveram a idade dos querubins. É a época em que

terça-feira, 13 de março de 2018

SENSAÇÕES E CONEXÕES





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SENSAÇÕES E CONEXÕES

Começou pela curiosidade. Em segundos, chegou a imaginação.
São esses comandos que concebem tudo na vida. Somos paus-mandados dessa dupla. O momento em que uma ou outra nos visita é que oscila, embora a curiosidade costume se adiantar. É bom ficar ligado nessa duplinha, já que é ela quem transporta a matéria prima do futuro.
Assim como não devemos confundir mapa com território, aparência com realidade, sensação prazerosa com prazer, convém distinguir matéria prima do futuro com o futuro em si. Percorrido, o mapa será território; comprovada, a aparência transforma-se em realidade; manipulada, a matéria prima vira produto, que vive matéria prima, que vira produto, que...
Mas a confusão maior do ser humano consiste em confundir sensação prazerosa com prazer. Existe apenas um prazer na vida. Único, divino, multiplicador, extremado. Assim é ele. Genericamente, chama-se fluxo imaginativo de vivências o processo pelo qual um estímulo externo ou interno desencadeia percepções de raro bem-estar. E o resultado desse processo chama-se sensação prazerosa. Sensação prazerosa e não prazer, repita-se, já que este é único, repita-se por oportuno. Contraditório, só o prazer é capaz de gaguejar, simultaneamente, sons de sofrimento e de júbilo.
Prazer tem sinônimo único: sexo. Sensação prazerosa tem teatro, esporte, música, alimentação, bebida...
Cada pessoa é única. O que as diferencia

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CERTO INTRUSO NO HISTÓRICO JULGAMENTO




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CERTO INTRUSO NO HISTÓRICO JULGAMENTO

“Deixem-me ir lá, deixem-me entrar. Peçam autorização ao presidente da sessão. Liguem. Quero falar com as suas excelências”.
Expressava-se dessa maneira a exótica figura no entorno do Tribunal Regional Federal, em Porto Alegre. Não usou essas palavras, diga-se. Saíram assim no Jornal do Porco (JDP) em razão da censura de meu chefe. Não havia nada afrontoso nos termos da exótica figura, mas a implicância do chefe cortou a naturalidade. Vivo às turras com o JDP. Não me demitiram ainda porque são reféns de minha perspicácia. Sou realmente um repórter especial. E era nessa condição que estava ali, já que acompanhava aquele caso havia bastante tempo.
O caso em questão começou em 2009, num lava a jato, em Brasília. Alguém se interessou por certa figura e pôs em ação as tratativas de entendimento. Coisa banal, pois desde que o mundo é mundo que ocorrem tais tratativas. Mas o mundo mudou com o nascimento da internet. Começaram a mimá-la a divulgação em massa, a pressão social, os grupos formadores de opinião, mas deformadores, em certos momentos, a linguagem imprecisa, a notícia em cima do fato. E, como ninguém é de ferro, a brincadeira e a fofoca.
Mudado o mundo, aquele alguém do lava a jato de Brasília se viu nas garras do Ministério Público. Garras que foram se alargando, se estendendo, se expandindo... Certo é que chegaram ao agora réu em julgamento no TRF. Julgamento histórico, com caravanas, marchas, manifestações e um aparato de segurança jamais visto no Brasil. Julgamento que vinha deixando a boca do país aberta, posto inimaginável figura tão carismática sofrer tamanha humilhação. Suavizada, registre-se, pela ausência do réu, já que desobrigado de comparecer por se tratar de um recurso judicial, condenado que fora em primeira instância.
Bom, dizia eu que o chefe mudou as palavras da exótica figura. Mas, aqui, distante da censura, posso ser fidedigno aos fatos. Fato é que a exótica criatura usou estas palavras:

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A CARTA DO VELHO






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A CARTA DO VELHO

Querido TC de meu coração,
Espero que ao receber essas mal traçadas linhas esteja a gozar de perfeita saúde junto dos que com você labutam. Um beijo no coração de todos e de todas. Por cá, eu e os agregados vamos indo como Deus quer e consente. Desculpe, TC, esse todos e todas. Tenho lido suas prosas, sei que não gosta dessa expressão. Mas saiu, meu rapaz. E, como vai acabar descobrindo, não posso apagá-la. Não só por estar escrevendo de caneta, mas também por uma questão lógica, cósmica mesmo.
Ah, cara, é hora de lhe pedir duas desculpas. A primeira é por você estar quebrando a cabeça para saber quem é o maluco que jogou, sem assinatura, tão cafona carta na sua caixa de correspondência. A segunda tem a ver com a linguagem. Sabe, TC, fico meio confuso na hora de redigir. Ora uso termos antigos, ora modernos, ora gírias. As tais das redes sociais mexeram em meus parafusos literários, TC. Destarte e contudo, continuo caminhando, sem olhar para trás, senhor de mim, entende?
Escuta só, TC de meu coração. Sou tão velho quanto se queira. Não o Siqueira seu amigo de boteco, mas o da sua imaginação. Pois bem, apesar de matusalêmico, não vivo alquebrado. Tô novinho em folha, bicho. Por que escrevi pra vosmecê?

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

DETERMINADOS




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DETERMINADOS

Segundo Drummond, foi o rapaz do posto de gasolina quem primeiro viu os três vultos.  Caminhavam a pé, sem pressa, no leito dos carros, indiferentes ao risco. Motoristas jogavam-lhes palavrões, sem que eles se importassem. Estavam vestidos de maneira inabitual: um de vermelho, outro de verde, outro de roxo. As roupas se assemelhavam a túnicas e usavam boinas amarelas, pontiagudas, aparentando coroas. Pareciam personagens de filmes históricos.
       Os estranhos estavam a quinze metros do posto. O rapaz teve vontade de se antecipar e perguntar o que desejavam. Mas deteve-se. Eram três homens, ele estava desarmado, não sabia que espécie de gente era aquela.
O mais alto deles ficava ainda mais esguio olhando para o céu, como quem indaga o tempo. Os outros miravam um ponto vago, esperando decerto que ele comunicasse o resultado da inspeção. Não houve palavras, entretanto. O homem comprido baixou a cabeça e fitou os companheiros. Entendiam-se pelo olhar. Não careciam de palavras, ou temiam empregá-las. Tratava-se, realmente, de indivíduos suspeitos.
Mas a suspeição foi logo embora. O rapaz do posto — já é tempo de chamá-lo Levi, pois assim fora batizado e registrado, embora os colegas o chamassem de coletor — imaginara no primeiro instante que fossem ladrões. Depois, pela excentricidade dos trajes, supusera-os simplesmente loucos. Decidiu-se e foi ao encontro deles:
Oi, posso ajudar em alguma coisa?
Deram calado como resposta.
Falam não, é? Tão com medo da chuva? O céu tá limpo.
        Outra resposta calada.
Ah, malucos mesmos.
Levi deu de ombros, fez uma selfie e postou no grupo do futebol: “Apareceram do nada. Acho que saíram do mar. Não falam, não escutam, não têm medo de carro”.
Estão imaginando, minhas lindas, no que deu a postagem do Levi? Isso mesmo. Deu no que deu.
     Bom, os estranhos deixaram

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

CARANGUEJOS NÃO PRECONCEITUOSOS




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CARANGUEJOS NÃO PRECONCEITUOSOS

É evidente, não?  Preconceito é coisa de humanos, daí que é pura lambança esse título. Por que, então... Ora por que? Porque eu queria que você fizesse um pré-conceito do texto: prosa brincalhona, legal. Vou lê-la. Negócio de escrevinhador besta, entendeu? Não? Pois diga! Quer o desenho? Veja os traços:
Estava no banheiro quando ouvi a risada do peste. Bião é assim. Vive rindo de tudo. E também de nada.
Cadê seu marido, Tânia?
Tá no banheiro. O que tem nessa sacola, Bião? Um presente pra mim, é?
Decápodes de pernas cabeludas, minha querida. É pra você, sim. Pra você botar no fogo que é pra gente comer com cachaça. Eu e seu marido.
Saí do banheiro e fiquei escondidinho, brechando. Imaginava os tais decápodes no piso da garagem e antevia o barraco. Bião tirava duas cordas de caranguejos da sacola.
Quê? Caranguejo? Tô fora. Deus me livre guarde de maltratar bichinhos tão alegres. Botem no fogo vocês. Por que logo eu, Bião?
Porque é serviço de mulher, ora bolas!
Deixa de ser babaca, Bião.
Iniciada a resenha, fui

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O CARNEIRO E CARNEIRO






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O CARNEIRO E CARNEIRO
Madrugada. O hospital, a exemplo de Natal, dorme. Parte de Natal e parte do hospital, quero dizer. Digo assim, porque parte do hospital está gemendo. E parte de Natal está sendo assaltada. E parte assaltando, por óbvio.
Vejo diante de mim um carneiro malhado. Penso que estou sonhando. Bom sonho, vou jogar do primeiro ao quinto. Veio mesmo na hora. Ando com tanta prestação atrasada, meu Deus.
O carneiro olha-me fixamente.
Está bem, amigão. Agora pode ir bordejar. Depois você volta, sim?
Sério, o carneiro não se mexe.
Vai, carneirinho, vai. Seja camarada. Preciso sonhar outras coisas. É a única hora em que sou dono de tudo, entende?
O animal chega-se mais perto de mim, roça-me o braço. Sentindo-lhe o cheiro, noto que é de verdade. Recuo.
Essa não! Que é que você veio fazer aqui, criatura? Dê o fora, vamos.
Repilo-o com jeito manso, mas o carneiro não se mexe, encarando-me sempre.
Aiaiai! Bonito. Desculpe, mas a senhor tem de sair com urgência, isto aqui é um estabelecimento público. (Achei pouco satisfatória a razão.) Bem, se é público devia ser para todos, mas o senhor compreende… (Empurro-o docemente para fora, e volto à cadeira.)
O quê? Voltou? Mas isso é hora de me visitar? Está sem sono? Que é que há? Gosto muito de criação, mas aqui no hospital, antes do dia clarear… (Acaricio-lhe o pescoço.) Que é isso! Você está molhado? Essa coisa pegajosa… O quê: sangue?! Por que não me disse logo, carneirinho de Deus? Por que ficou me olhando assim feito bobo? Tem razão: eu é que não entendi, devia ter morado logo. E como vai ser? Os doutores daqui são dez, mas carneiro é diferente. Não sei se eles topam. Sabe de uma coisa? Eu mesmo vou te operar!
Corro à sala de cirurgia, pego