sábado, 31 de dezembro de 2011

O SOM DE CERTAS RISADAS


O SOM DE CERTAS RISADAS

          Esse negócio de rir é engraçado. Desculpem o trocadilho, saiu sem eu querer, gente. Agora, nada engraçado, pelo menos pra mim, é a diferença entre rir e sorrir. Segundo o dicionário, sorrir é rir sem ruído. E rir é contrair os músculos faciais, entendeu? Ainda bem que a gargalhada não deixa dúvida de que o indivíduo está sorrindo e rindo ao mesmo tempo, concordam comigo?
Mas, como estava dizendo, esse negócio de rir é engraçado. Você começa a rir, e quem está por perto se dana a rir também, né não? Sou capaz de apostar um tostão furado como está rindo neste momento. Pois então, ontem eu assisti a uma sessão de riso pra lá de engraçada. Droga, que trocadilho mais sem graça. Se bem, e pensando bem, existe o riso sem graça, não? Tá aí o riso amarelo que não me deixa mentir.
A sessão de riso ocorreu no boteco da Marluce. Marluce... Bom, já falei do barraco da Marluce neste espaço, mas é bom dar uma refrescada na conversa. O biongo da Marluce

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

É NADA!


MICROCONTOS DA POSTAGEM


Puseram os bichos para brigar, e a cobra comeu a aranha. (Erótica, Recanto da Letras – 10-11-2011)

Brigaram tanto que ela morreu ensanguentada, mas abraçada. Verdade, foi? Mentira, meu! Daí a um tempinho tornaram a se agarrar. (Tião)

É NADA!

É com essa expressão que o meu amigo, o Gordo, cumprimenta a galera quando tá meio bicado. Bastam-lhe duas lapadas da água que passarinho não bebe e lá vem o bafejo do “é nada!” Um dia eu perguntei ao Gordo o que ele queria dizer com aquilo. Ele me olhou enviesado, já meio “zanoio”, emborcou uma larga, passou as mãos nos beiços e arrotou: “É nada!”
Ri da sentença. Duas palavrinhas e lá estava eu a rir descontroladamente. O poder das palavras é fogo, meus nobres. Ele libera a emoção e destrava a imaginação. A bem da verdade, a palavra em si é neutra. A palavra só adquire poder no papel de porta voz do estado mental. Ódio e amor sem os correspondentes estados mentais são meros vocábulos. “Nada”, porém, parece-me sentimentalmente fria, morna, quando muito. Não existe estado mental que a faça sobressair. É interessante a conexão entre palavra, estado mental e poder.
Como pressentimos o indivíduo que acabou de ouvir a palavra ódio? Depende do momento mental do ouvinte. Você, por exemplo, se leu em voz alta a frase de abertura deste parágrafo, talvez até esteja rindo de minhas besteiras, daí o semblante de paz, em que pese o “ódio” do primeiro período. Porém... Bom, imagino de prazer o estado mental de quem está lendo um livro, da mesma forma que de fúria de quem injustamente ouviu um desaforado “idiota”. Não lhe desejo o último exemplo, mas... Como seria sua fisionomia? Olhar aterrorizante, voz alterada, corpo tenso, não é verdade? E como estaria seu rosto ao ser chamado de amor? Olhar meigo, voz melosa, corpo relaxado, não é isso? Perceba o poder mental nas duas situações. Na do “idiota”, até de esmurrar você seria capaz. Na do “amor”, amar seria sua obsessão, concorda?
A regra geral é essa, meus nobres. Por que geral? Veja o seguinte. A menos que o indivíduo seja mentalmente desequilibrado, é razoável admitir que vivemos num estado mental neutro, digamos assim. Quer dizer, não estamos permanentemente raivosos, tampouco, deslumbrados. No raivoso será praticamente nula a reação ao ouvir palavra amor. Igualmente no deslumbrado a reação ao ser tachado de idiota. O normal, pois, é este encadeamento: ouve-se a palavra, aciona-se o gatilho do estado mental, aflora-se o poder.
Agora o que lhe acontece ao ouvir o substantivo “sexo”? Aliás, nem precisa ouvi-lo, basta imaginá-lo. A visão é sua, certo? Tenha-lhe bom proveito. Quando escrito, o desavergonhado do “sexo” ainda tem uma agravante. O “x”, pessoal. O “x” de sexo é erótico pra caramba, não? Agora, diga-me. O que enxerga você ao escutar o dissílabo nada? Nadica de nada, não é mesmo?
Sabe de uma coisa, meu nobre. Esse negócio de escrever é cheio de armadilhas. Daí, por detestá-las, jamais serei escritor. Percebeu a fuga do tema desta crônica. A intenção era falar do Gordo e do “nada” da frase dele. Aí, do nada, apareceu essa história do poder das palavras. Não sei se lhe dou o crédito pela liberação da capenga veia literária, ou o débito pela maldita prolixidade. Fica o registro, embora nada conclusivo.
“Nada” já nasceu de bisaco vazio, sem um pingo de sorte, coitado.  Vou até interromper este vácuo de prosa a fim de lhe explicar essa história do bornal seco do desditoso Nada. Foi assim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

BAR-TE-PAPO NATALINO

Vejamos os microcontos da postagem de hoje.


1. Pediu caranguejo. Marido trouxe.  Ao abrir a embalagem, berrou. “É siri! Não quero”.  Marido: “Amor, siri é caranguejo melhorado, coma!” (Rubo Medina, Canto do Escritor).

2. Por que não me abraçam, não riem pra mim, não me chamam pra mesa? Só porque tô descalço nem trouxe presente? Ninguém merece! (Tião).

BAR-TE-PAPO NATALINO

Renato chegou ao Parlamento Bar e começou a praticar seu esporte preferido. Pensaram em levantamento de copo e arremesso de piúba? Maldosos, vocês, não! O esporte predileto do Renato é observar. Conjugado a alguns levantamentos, naturalmente. Naturalmente que geladamente. Certos levantamentos, quando quentes, segundo o Renato, nunca descem redondos.
O Parlamento é excelente ponto de observação. Gatos e gatas abundam por lá. Cachorros e cachorras também. Bem-te-vis, galos-de-campina e pardais brindam os cliente com verdadeiras sinfonias. Alojam-se nas castanholas do canteiro e pegue cantoria.
Aboletado numa mesinha do canteiro, Renato pede uma gela à Vanessa e curte esse cenário. Nisso aparece um gatinho branco, dourada cordinha adorna-lhe o pescoço. O bichano passa por ele, olha-o de relance, para. Fica cerca de trinta segundos olhando fixamente para o Renato. Já viveu essa experiência, leitor? Chega a embevecer e a incomodar, não é? Parece que o animal quer nos dizer algo. É impressionante! Bom, Renato dá-lhe um sorriso de cumplicidade e levanta o polegar. O Gato eriça os pelos, abana o rabo e vai embora.
Renato desvia a atenção

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

SEBO - DO LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO E DO BIÃO



Há poucos dias, disse-lhes que iria lhes apresentar um ou dois  microcontos como aperitivo da postagem principal. Então vamos lá:
1.  OLHOU-SE NO ESPELHO...
Lembrou-se da noite anterior, lembrou-se que ele se foi  e disse pra imagem refletida: o amor acabou... Então, pensou... Às favas com ele!   Eu me sou e eu me basto. Pensou mais um pouquinho e resmungou... Só falta eu me convencer disto. E começou a escovar os dentes. (A autora do belo microconto e Zélia Maria Freire, em o Recanto das Letras).
2. Santa mãe! Até que enfim! Que solzão é um, meu Deus! Será que as cotoveladas vão valer a pena? Espero não me arrepender. Droga! Já? (Tião)

O Bião reapareceu, gente. O Bião, vocês sabem, é o doidão que aqui acolá traz umas maluquices para este espaço. Já publiquei dois textos do peste. O  ELA e o BIÃO E A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS. O danado gosta de pegar no pé de escritores. Depois do Machado, hoje ele achou de mexer com o Sr. Luís Fernando Veríssimo. Trouxe-me o SEBO, gostosa crônica do filho de seu Érico Veríssimo.

A prosa refere-se a um escrevinhador que sai estrangulando quem adquiriu um livro dele. Tudo porque o zeloso escriba não quer que ninguém se depare com um cacófato escancarado no texto. O escritor localiza o comprador do último exemplar do livro e o estrangula. O comprador, naturalmente. Fernando não dá o nome do morto, mas o Bião diz que o adquirente estrangulado é ele, o Bião. Estrangulado, vírgula, já que estrangulado o Bião não foi. “Tô vivinho aqui pra contar a história, Tião”, disse-me o morto vivo. O Bião se diz amigo do Luís Fernando, costumavam tocar saxofone junto, por isso o amigo omitiu-lhe o nome e alterou o desfecho do imbróglio. Não acredito nessa amizade, pois o Bião mente mais do que cachorro de prear.

Bom, vamos à suculenta prosa do Sr. Luís e em seguida às mentiras do Bião.


SEBO

O homem disse o próprio nome e ficou me olhando atentamente. Como alguém que tivesse atirado uma moeda num poço e esperasse o "plim" no fundo.
Repeti o nome algumas vezes e finalmente me lembrei. Plim. Mas claro.
- Comprei um livro seu não faz muito.
Ele sorriu, mas apenas com a boca. Perguntou se podia entrar. Pedi para ele esperar até que eu desengatasse as sete trancas da porta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

MICROCONTOS

Recebi algumas mensagens de louvor aos microcontos publicados na abertura da postagem Factoides da Fogosa Fifi. Pena que a satisfação tenha chegado por imeio, visto os signatários não terem conseguido enviá-las pelo blogue, e assim compartilhá-las com vocês.  A dificuldade em  postar comentários, gente, tem sido recorrente em imeios enviados pra mim. Já pesquisei as ferramentas do blogue, repesquisei, fiz de tudo e não encontrei nada que impedisse o leitor de postar o comentário. Por que algumas pessoas conseguem e outras não é um grande mistério.
Duas leitoras pedem que eu publique alguns microcontos de minha autoria. Tenho poucos, conto-os nos dedos, minhas nobres.
O microconto requer leveza, concisão, precisão, originalidade, impacto, inteligência. Exige, pois, tudo de que não sou capaz.
O microconto precisa cativar o espírito do leitor a fim de que ele, o leitor, seja cúmplice do escrevinhador e deste aceite a extrema subjetividade do reduzido número de palavras. Habilidades distantes de mim.
O microconto requer uma prosa beijoqueira, sedutora, carinhosa. Como imaginar tais atributos num caipira das letras?
Agora, não resta dúvida de que "bolar" um  microconto é agradável exercício de percepção. Espero de você, leitor, tão doce atividade. Mande-me seu microconto (pelo blogue ou por imeio) que terei a satisfação de publicá-lo.
Tomei uma decisão: doravante iniciarei as postagens com microcontos, beleza? Mas nem sempre meus, tá certo, minhas nobres? Começaremos com quatro. O mais famoso, o do Monterroso, um que peguei na internet, outro de uma leitora, identificada, a pedido, apenas por MR, e por último o de minha autoria. Vamos a eles? Ah, certos autores dão títulos aos microcontos, outros não. Pertenço ao segundo grupo.

- Quando acordou o dinossauro ainda estava lá (Monterroso).

- Gosta de português? 
Portuguesa (Preferência masculina, Rubo Medina, Canto do Escritor).

- Sedutoramente, sorvia o duro picolé. Descontrolado, derretia-se, sim, o embevecido observador (MR).

- Oh! Nossa! Caramba! E nós nem nos... (Tião Carneiro).

Até mais ver,

Tião

sábado, 3 de dezembro de 2011

JORNAL DO PORCO E O GALO DO PEDRINHO



Olá, gente,
Fez um mês ontem que estamos batendo papo. Então pensei em redigir este informativo sobre as atividades do Pocilga, ao mesmo tempo em que postarei uma prosinha presente no Intuitor Bião, meu próximo livreco. Vamos nessa?

1. Fizemos 14 postagens. A primeira foi Meus Avalistas, a última, As Armas do Dr. César. As três mais lidas foram, pela ordem, O Triste Fim de um Livro, Literário Convite e O Homem de Branco. Na rabeira estão E a Fifi, hein! e Bião e a Carteira de Machado de Assis (pobre Machado).

2. Ninguém me mandou texto algum para publicação. Até os comentários têm sido escassos. O convite está de pé. Estou aguardando.

3. Estou numa sinuca de bico acerca da qualidade das prosas. Algumas pessoas entendem que as danadinhas estão demasiadamente informais, desprovidas de conteúdo, carentes de entrelinhas. Outros leitores as veem rebuscadas, densas, cheias de entrelinhas indecifráveis. E agora? Sabem o que acho? Que os dois grupos estão doentes do mal do século: preguiça de pensar. Porque não pensa, o primeiro nada apreende; porque pensa que está pensando, quando, na verdade, está tão somente divagando, o segundo me classifica de indecifrável. Só que os dois segmentos estão certíssimos: compete a cada leitor o entendimento do que leu (isso é que é política do escorregão, não é?).

4. Em 21 de novembro, na postagem Escrever: Castigo ou Consolo, redigi este parágrafo. “Querem uma prova da infantilidade? Estou me dando conta, e espero o devido perdão, de franciscana carência estilística nesta prosinha. Falta-lhe um negocinho pra lá de comum, uma liga morfológica, um ão nosso de cada dia. Todos os textos o usam, mas a obtusa mente deste acriançado o aboliu. Já tinha percebido o aborto sintático, minha nobre?” Aí, meu nobre, peço-lhe que diga o que é tão comum nos escritos, mas que ausente naquela postagem. Ninguém embarcou na brincadeira. Sabe o que é? Bom, darei a resposta no fim deste post. Se quiser dar uma olhadinha no Castigo ou Consolo ainda dá tempo.

5. Vejamos o texto de o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. Bião pega uma antiga piada, veste-a literariamente e vale-se da análise dela para mostrar ao leitor a diferença entre escritor e intuitor. A piada chama-se O Pato e o Menino. Bião dá-lhe o nome de O Galo, o Menino e o Homem. Divirtam-se:

O Galo, o Menino e o Homem

 

A casa de D. Aurora estava desguarnecida de tudo. Então ela pegou um galo e pediu ao filho, o Pedrinho, que fosse ao centro tentar vendê-lo. Venderia o galo e compraria feijão, farinha e outros mantimentos para fazer o almoço. “Mas venha logo, meu filho. Não vá ficar batendo pernas por aí não, viu?”.
Pedrinho balançou a cabeça, botou o frango debaixo do braço e saiu.
Arteiro todo, Pedrinho fazia aqueles galinhos com tanta perfeição que não tinha quem dissesse que o bicho era de brincadeira. Pedrinho anda por uns vinte minutos, oferece o penoso a cinco pessoas e nada de vender. Aí, ao passar no iotão duma casa de taipa, escuta uns gemidos estranhos. Ele para, assuntando, e vê uma janela aberta. Então o espevitado apoia as mãos no parapeito, dar um pulinho e fica de boca aberta com a presepada: um casal fazendo amor em cima duma cama.
“Mas óia só!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

AS ARMAS DO DR. CÉSAR


AS ARMAS DO DR. CÉSAR

Dr. César catava as letras no teclado do notebook. Digitou a palavra "acabou", escorou-se no espelho da cama e ficou pensativo. Procurava palavras fortes, recolhia termos que fossem direto ao coração. Desejava, enfim, formar sentenças que o afastasse de certa moça, porque havia descomunal tendência de sucumbir àquele chamado, àquela irresistível voz proporcionadora de prazeres. De prazeres, porquanto tudo convergia para fazer a autoestima de qualquer cristão se alvoroçar e daí começar a abrir veredas para a vaidade e o erotismo, preliminares

sábado, 26 de novembro de 2011

O HOMEM DE BRANCO


O HOMEM DE BRANCO

            O homem de branco atravessou a rua e se dirigiu ao barraco onde estavam Dona Dulce, a velha proprietária do barraco, a bonita filha dela, a Líndia, a franzina Kika, amiga das duas, e o escritor Tição, vizinho do boteco. Velha é o modo carinhoso de falar, D. Dulce deve ter uns sessenta anos; Líndia não é somente o nome da filha, ela é linda mesmo; franzina é a forma amena de dizer que a Kika é magrinha; escritor é exagero, o Tição é, quando muito, sofrível rascunhador. O que o Tição sabe fazer bem é levantar copo, como fazia naquele momento, e cair na gandaia.
             Quando viu o homem caminhando em direção ao botequim, a Líndia comentou:

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ESCREVER: CASTIGO OU CONSOLO?





Já falei numa de minhas anotações malucas sobre a impunidade do ato de escrever. A referência não é minha. Li-a não me recordo em qual veículo. A ação de escrever, entendam bem. É dela, da ação, a dispensa do castigo. A punição virá, não tenham dúvida. Um pouquinho mais tarde, mas virá, sim. Não ter seu escrito soletrado, essa, certamente, é a penalidade maior para o escrevinhador. Escrevinhador, disse eu. Escritores são outros quinhentos. Esses, gente, jamais serão punidos.
Bom, devo pedir socorro a vocês. Vocês, no caso, os meus quinze leitores brasileiros. Daqui a pouquinho, explico-lhes a alusão aos brasileiros.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A QUEDA


Estou, Dra. Intuição, num hospital andirobense, acomodada em moderno PMG, Dra. Rosilma se preparando para me consultar. De olhos fixos num monitor de outro PMG, sorriso babado, jeitão de prazer, a ajudante da médica gesticula, chamando-a. Estão no mais puro deleite, levanto-me sorrateiramente e me ponho por trás das duas. Deslumbravam-se, Dra. Intuição, com um magote de homens despidos, bombados. Bombados com “b e outras bilabiais, compreendeu, Dra. Intuição?
Custou-me acreditar que duas moças tão lindas usassem daquele expediente, ainda mais na hora do expediente, a fim de atiçar-se sexualmente. Elas riem,

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O TRISTE FIM DE UM LIVRO


O TRISTE FIM DE UM LIVRO

      Não vejam lamento neste texto. Lamento não é minha praia. Interpretem-no como o preço da ousadia, praia que, trajado de bom humor, tenho por hábito me refrescar. O livro em questão é o A Senhora 2 e o Senhor 2, primeiro rebento de minhas maluquices, posto na rua em maio de 2010. Incentivado por uma amiga, danei-me a escrever a história cujo estilo literário gostaria de ver presente nos escritos que leio. Comecei a brincar...
     Bem, a brincadeira terminou num livrão de 541 páginas. Envaidecido, não quis esperar a boa vontade das editoras: banquei os custos, fiz um lançamento supimpa, num barzinho de meu bairro, e mandei-o ganhar o mundo. Vendi cerca de 90 exemplares no lançamento e em torno de 130 no pinga a pinga. Restam-me uns 80.
    Agora, meus caros, pensem numa dupla humilhada, a tal da Senhora e o Senhor 2.

domingo, 13 de novembro de 2011

BIÃO E A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS




Meus cumprimentos, nobres amigos.
Escutem só. Há poucos dias, no texto do “ELA”, disse-lhes que meu primo Bião havia me visitado e que o peste costumava me presentear com as prosinhas dele. O feioso Bião se autodenomina de Intuitor porque, segundo ele, é capaz de saber de tudo, em todas as dimensões, em todos os tempos. Onividente é a palavra de que mais gosta. “O escritor comum é onisciente, onissapiente e outros ‘entes’, mas carente, Tião, da amizade com a intuição. Amizade de conversar, não de apenas ouvi-la. Porque bato papo com ela, tenho acesso a tudo e a todos, Tião.” Confesso, meus nobres, que não entendo bulufas do que o Bião fala, mas balanço a cabeça a concordar com ele.
Bião já pegou no pé de políticos, da galera do futebol, da turma de jornalistas. Agora o bexiguento deu pra encarnar nos escritores. A moçada das letras que se cuide. Há muitos textos inacabados, segundo ele. “Incompletos, vistos não terem sido publicados, mas disponíveis para gente de minha estirpe”, diz ele. Sabem com quem o cara acabou de mexer? Ninguém menos do que o Machado de Assis. Já imaginou o Bião completando um texto do Bruxo do Cosme Velho?
Bom, vou postar uma lorota do Bião. A lorota é sobre a “A Carteira”, maravilhoso conto do Machado, que, segundo o maluco do Bião, o Mestre publicou-o mutilado. “A Carteira” fala do Honório, advogado que encontra uma carteira de cédula cheia de dinheiro. Honório descobre que a carteira é de um amigo, o Gustavo. Gustavo vem a ser...
Farei o seguinte. Postarei a “A Carteira” na íntegra. Abaixo dela eu posto o arremate do Bião, combinado? Ler o Machado é um deleite. Quem já conhece a Carteira terá o prazer duplo. Quem não a conhece verá o que é uma prosa de verdade.
Valeu!

Machado de Assis
A CARTEIRA
...De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
- É verdade, concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias

sábado, 5 de novembro de 2011

LITERÁRIO CONVITE

Olá, gente,
O Pocilga está com uma semana de vida. Renovo-lhe o convite de abertura: publique seu texto. Mande-o pelo imeio scarneirosilva@uol.com.br. Precisamos interagir, pessoal. Se nunca escreveu, tente. Não pense que sua prosa é tolice. Tolice é a apreciação de quem julga tolo um escrito, pois qualquer texto tem seus méritos. Ora se vou me importar caso alguém aí esteja achando tolo o que acabei de escrever. Não ter senso de humor é problema dele. Será que ele pensa que nossas prosas vão concorrer ao Nobel de Literatura? Qual é, meu! A gente quer mais é se divertir, rir de nós mesmos, brindar a vida. É ou não é? Ficção é antes de tudo divertimento. Assim acho, minhas nobres.
Falar em tolice e divertimento, meus botões estão sugerindo

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ELA

Sete horas da manhã, dia de finados. Isso é lá hora de alguém chegar a sua casa com o intuito de conversar miolo de quartinha? Pois o Bião chegou, gente. Não é à toa que o bicho é nota dez em ridículo, além de medalha de ouro em feiume e zero em bom senso. Bião é meu primo. Aos poucos eu estarei lhes dando as características do peste. No momento, basta informar que o esquisito é escritor, ou melhor, intuitor, e que a mais recente excentricidade do azoreta é andar com um gravador escondido a fim de gravar conversas alheias. Ah, de vez em quando o desorientado me traz umas prosas. Muito boas, confesso.
Escuto a voz do azoado, levanto-me, asseio-me e encontro o infeliz na cozinha tomando café, ao lado um jornal. Coalhada, bolo de batata, ovo cozido. Vejam só o cardápio. O cumprimento é este:
— Isso é hora, Tião?
— Tento repreendê-lo, mas o incivilizado estira o jornal e lê:
“Vice-governador rompe com a governadora e diz que vai fazer oposição ao governo”. “Corrupção ameaça chegar ao Rio Grande do Norte”. Simplesmente sensacional, Tião. Agora ouça essa conversa que colhi há pouquinho tempo na porta do cemitério do Alecrim. Perdi o começo do papo, mas mesmo assim é interessante, meu caro.
Aí o maluco acende um cigarro,

domingo, 30 de outubro de 2011

MEUS AVALISTAS

MEUS AVALISTAS

Vocês certamente não, meus nobres. Mas eu não tenho vergonha de confessar: sou muito relaxado com as minhas ideias. Tenho-as, mas aqui acolá as deixo escapar. E idealizar sem ativar é pura inércia motora, por preferir a expressão eufêmica no lugar do termo preguiça. Haveremos de convir, contudo, que a inquietação mental, a luta do dia a dia, por assim dizer, tem boa culpa nessa história. Além do mais, ficaríamos malucos se tivéssemos de por em prática todas as ideias que nos dizem olá, não é verdade? Refiro-me, naturalmente, às ideias boas, não àquelas capciosas, tipo as de jerico. Essas têm mesmo é que irem pro lixo. A propósito, sabem vocês de que forma nasceu a ideia de jerico? Não? Qualquer dia eu lhes conto.
Existem ideias que chegam, somem, retornam, desaparecem. Desaparecem, vírgula. Elas ficam ali de mutuca, escondidinhas na caixa mental, prontas para dar o bote. As sonsas,

sábado, 29 de outubro de 2011

LEMBRETE

Nobre leitor,
Não pretendo fazer propaganda de minhas prosas, mas você não sofrerá prejuízo caso leia este simples lembrete. São apenas 22 segundos de leitura. Bom, o lembrete é o seguinte. É... É... Talvez você desconheça, meu nobre, mas publiquei um romance no ano passado. O bicho chama-se “A senhora 2 e o Senhor 2”. Pois muito bem! Disponho de alguns exemplares. Então! Pensei... Pensei, sabe... Cocei o casco, passei a mão no queixo, olhei pra cima, está entendendo? Pensei assim, de repente, fim de ano, época de presentear, livro é ótimo presente, estou vendendo pelo custo de impressão, vinte mirréis não mata ninguém, entrego o mimo autografado, onde o amigo quiser, o presentão irá de Civic, acomodado em bela sacola, no banco da frente, o nobre ou a nobre tem meu imeio...Entendeu agora?
Por favor, não se sinta pressionado. Qualquer que seja a sua decisão, o nosso relacionamento continuará sendo definido pelas mágicas palavrinhas beleza e paciência. Se der certo, beleza; do contrário, paciência. Beleza!


Um abraço,
Tião