domingo, 30 de outubro de 2011

MEUS AVALISTAS

MEUS AVALISTAS

Vocês certamente não, meus nobres. Mas eu não tenho vergonha de confessar: sou muito relaxado com as minhas ideias. Tenho-as, mas aqui acolá as deixo escapar. E idealizar sem ativar é pura inércia motora, por preferir a expressão eufêmica no lugar do termo preguiça. Haveremos de convir, contudo, que a inquietação mental, a luta do dia a dia, por assim dizer, tem boa culpa nessa história. Além do mais, ficaríamos malucos se tivéssemos de por em prática todas as ideias que nos dizem olá, não é verdade? Refiro-me, naturalmente, às ideias boas, não àquelas capciosas, tipo as de jerico. Essas têm mesmo é que irem pro lixo. A propósito, sabem vocês de que forma nasceu a ideia de jerico? Não? Qualquer dia eu lhes conto.
Existem ideias que chegam, somem, retornam, desaparecem. Desaparecem, vírgula. Elas ficam ali de mutuca, escondidinhas na caixa mental, prontas para dar o bote. As sonsas,
as de jerico, então, são especialistas nisso. As boas também se comportam assim. Mas comportam-se porque da natureza delas, a exemplo da fábula do escorpião com o sapo. Só que ao contrário da ferroada do escorpião, é carinho o que essas ideias desejam nos fazer.
Há meses, eu tive a ideia de criar um blogue a fim de tornar mais fácil o acesso aos meus anêmicos escritos. O analfabetismo sobre o tema tornou a ação mais difícil, fazendo-me adiá-la, mas de quando em vez a ideia me beijava. Até que num papo com o colega Sávio, expert nesse assunto, eu pergunto se fica muito caro criar um blogue. “Criar, não, Sávio, fazer, já que não estou disposto a criar filho de seu ninguém, de mais a mais de uma pessoa rica como D. Internete”, fiz a ressalva.
Sávio riu e disse-me que procurasse o Sr. Google que ele fazia de graça.
— Sério, Sávio?
— Sério, Tião. Pode ir ao Google.
Fui pra casa, sentei-me na rede, liguei o computador e comecei a conversar com o Sr. Google, ou melhor, com a secretária dele:
— Quero saber o que tenho de fazer para vocês criarem um blogue pra mim.
— Primeiramente o senhor precisa abrir uma conta com a gente, seu Tião.
— Como assim abrir uma conta? O Sávio não me disse que era tudo de graça? E como é que a senhora sabe o meu nome?
É uma conta, seu Tião, mas o senhor não vai pagar nada não. O senhor não sabe disso não, é? Sei que é meio juju nesse tópico, mas ignorar tal coisa também é demais, seu Tião. Imagine quando eu falar em login e URL. Seria melhor falar com alguém para fazer o blogue pelo senhor. Francamente, seu Tião...
Meus nobres, queria que vocês vissem a entonação da voz da secretária. O francamente dela foi de lascar o cano. Puro deboche. Porrada no fígado. Prefiro um tabefe nas ventas a certas entonações verbais. Era como se a danada me conhecesse. Tomei-lhe a palavra:
— Escute aqui, dona. A senhora está sendo muito grosseira comigo. Quero falar com o Sr. Google. Tenho eu a obrigação de conhecer esse arrumadinho de conta que não se paga, tenho? E depois? Vai ficar no prego eternamente, é? Fique sabendo que sei o que é login, viu? Outra coisa, perguntei como me conhecia, e a senhora deu calado por resposta. Como a senhora me conhece, afinal? Olhe se a senhora não fosse uma mulher, eu ia, eu ia...
Aí, minhas nobres, a secretária deu uma risada tão grande que brequei o verbo mandar que estava sai não sai. Depois de uns cinco minutos de risadeira, a mulher falou:
Calma, Tião. Seu blogue está pronto. Estava a fazê-lo enquanto brincava com você. Só falta o título. Quer que bote o mesmo nome que você botou no blogue que bolou para seu último romance? Eu e o Sr. Google conhecemos você muito bem, Tião. Sou sua fã, Tião. Temos seu primeiro livro, o “A Senhora 2 e o Senhor 2”, e já lemos os originais do mais novo, o “Intuitor Bião, um Homem de Palavra”. Então, batizo o blogue com o nome “Pocilga de Ouro”? Era pra você ter nos procurado há mais tempo, Tião. Não criei esse blogue antes porque precisava de sua autorização, entendeu?
— Entendi! Caramba! Obrigado! Desculpe a minha afoiteza. Dê um abraço no Dr. Google, está bem? Mas como é mesmo o seu nome, minha jovem?
Fifi. Meu nome é Fifi. Sou xará de uma de suas personagens, Tião.
É isso, gente. Esses pobrezinhos são os padrinhos deste blogue. Já temos duas prosas aqui. A que fala do Feitosa e que fala da Fifi. Embora os textos sejam independentes, sugiro que leiam primeiro o do Feitosa.

Ah, estou aguardando as prosas de vocês. Vamos ler, gente! Vamos escrever, pessoal!

Outubro de 2011,
Tião