quarta-feira, 30 de novembro de 2011

AS ARMAS DO DR. CÉSAR


AS ARMAS DO DR. CÉSAR

Dr. César catava as letras no teclado do notebook. Digitou a palavra "acabou", escorou-se no espelho da cama e ficou pensativo. Procurava palavras fortes, recolhia termos que fossem direto ao coração. Desejava, enfim, formar sentenças que o afastasse de certa moça, porque havia descomunal tendência de sucumbir àquele chamado, àquela irresistível voz proporcionadora de prazeres. De prazeres, porquanto tudo convergia para fazer a autoestima de qualquer cristão se alvoroçar e daí começar a abrir veredas para a vaidade e o erotismo, preliminares

sábado, 26 de novembro de 2011

O HOMEM DE BRANCO


O HOMEM DE BRANCO

            O homem de branco atravessou a rua e se dirigiu ao barraco onde estavam Dona Dulce, a velha proprietária do barraco, a bonita filha dela, a Líndia, a franzina Kika, amiga das duas, e o escritor Tição, vizinho do boteco. Velha é o modo carinhoso de falar, D. Dulce deve ter uns sessenta anos; Líndia não é somente o nome da filha, ela é linda mesmo; franzina é a forma amena de dizer que a Kika é magrinha; escritor é exagero, o Tição é, quando muito, sofrível rascunhador. O que o Tição sabe fazer bem é levantar copo, como fazia naquele momento, e cair na gandaia.
             Quando viu o homem caminhando em direção ao botequim, a Líndia comentou:

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ESCREVER: CASTIGO OU CONSOLO?





Já falei numa de minhas anotações malucas sobre a impunidade do ato de escrever. A referência não é minha. Li-a não me recordo em qual veículo. A ação de escrever, entendam bem. É dela, da ação, a dispensa do castigo. A punição virá, não tenham dúvida. Um pouquinho mais tarde, mas virá, sim. Não ter seu escrito soletrado, essa, certamente, é a penalidade maior para o escrevinhador. Escrevinhador, disse eu. Escritores são outros quinhentos. Esses, gente, jamais serão punidos.
Bom, devo pedir socorro a vocês. Vocês, no caso, os meus quinze leitores brasileiros. Daqui a pouquinho, explico-lhes a alusão aos brasileiros.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A QUEDA


Estou, Dra. Intuição, num hospital andirobense, acomodada em moderno PMG, Dra. Rosilma se preparando para me consultar. De olhos fixos num monitor de outro PMG, sorriso babado, jeitão de prazer, a ajudante da médica gesticula, chamando-a. Estão no mais puro deleite, levanto-me sorrateiramente e me ponho por trás das duas. Deslumbravam-se, Dra. Intuição, com um magote de homens despidos, bombados. Bombados com “b e outras bilabiais, compreendeu, Dra. Intuição?
Custou-me acreditar que duas moças tão lindas usassem daquele expediente, ainda mais na hora do expediente, a fim de atiçar-se sexualmente. Elas riem,

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O TRISTE FIM DE UM LIVRO


O TRISTE FIM DE UM LIVRO

      Não vejam lamento neste texto. Lamento não é minha praia. Interpretem-no como o preço da ousadia, praia que, trajado de bom humor, tenho por hábito me refrescar. O livro em questão é o A Senhora 2 e o Senhor 2, primeiro rebento de minhas maluquices, posto na rua em maio de 2010. Incentivado por uma amiga, danei-me a escrever a história cujo estilo literário gostaria de ver presente nos escritos que leio. Comecei a brincar...
     Bem, a brincadeira terminou num livrão de 541 páginas. Envaidecido, não quis esperar a boa vontade das editoras: banquei os custos, fiz um lançamento supimpa, num barzinho de meu bairro, e mandei-o ganhar o mundo. Vendi cerca de 90 exemplares no lançamento e em torno de 130 no pinga a pinga. Restam-me uns 80.
    Agora, meus caros, pensem numa dupla humilhada, a tal da Senhora e o Senhor 2.

domingo, 13 de novembro de 2011

BIÃO E A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS




Meus cumprimentos, nobres amigos.
Escutem só. Há poucos dias, no texto do “ELA”, disse-lhes que meu primo Bião havia me visitado e que o peste costumava me presentear com as prosinhas dele. O feioso Bião se autodenomina de Intuitor porque, segundo ele, é capaz de saber de tudo, em todas as dimensões, em todos os tempos. Onividente é a palavra de que mais gosta. “O escritor comum é onisciente, onissapiente e outros ‘entes’, mas carente, Tião, da amizade com a intuição. Amizade de conversar, não de apenas ouvi-la. Porque bato papo com ela, tenho acesso a tudo e a todos, Tião.” Confesso, meus nobres, que não entendo bulufas do que o Bião fala, mas balanço a cabeça a concordar com ele.
Bião já pegou no pé de políticos, da galera do futebol, da turma de jornalistas. Agora o bexiguento deu pra encarnar nos escritores. A moçada das letras que se cuide. Há muitos textos inacabados, segundo ele. “Incompletos, vistos não terem sido publicados, mas disponíveis para gente de minha estirpe”, diz ele. Sabem com quem o cara acabou de mexer? Ninguém menos do que o Machado de Assis. Já imaginou o Bião completando um texto do Bruxo do Cosme Velho?
Bom, vou postar uma lorota do Bião. A lorota é sobre a “A Carteira”, maravilhoso conto do Machado, que, segundo o maluco do Bião, o Mestre publicou-o mutilado. “A Carteira” fala do Honório, advogado que encontra uma carteira de cédula cheia de dinheiro. Honório descobre que a carteira é de um amigo, o Gustavo. Gustavo vem a ser...
Farei o seguinte. Postarei a “A Carteira” na íntegra. Abaixo dela eu posto o arremate do Bião, combinado? Ler o Machado é um deleite. Quem já conhece a Carteira terá o prazer duplo. Quem não a conhece verá o que é uma prosa de verdade.
Valeu!

Machado de Assis
A CARTEIRA
...De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
- É verdade, concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias

sábado, 5 de novembro de 2011

LITERÁRIO CONVITE

Olá, gente,
O Pocilga está com uma semana de vida. Renovo-lhe o convite de abertura: publique seu texto. Mande-o pelo imeio scarneirosilva@uol.com.br. Precisamos interagir, pessoal. Se nunca escreveu, tente. Não pense que sua prosa é tolice. Tolice é a apreciação de quem julga tolo um escrito, pois qualquer texto tem seus méritos. Ora se vou me importar caso alguém aí esteja achando tolo o que acabei de escrever. Não ter senso de humor é problema dele. Será que ele pensa que nossas prosas vão concorrer ao Nobel de Literatura? Qual é, meu! A gente quer mais é se divertir, rir de nós mesmos, brindar a vida. É ou não é? Ficção é antes de tudo divertimento. Assim acho, minhas nobres.
Falar em tolice e divertimento, meus botões estão sugerindo

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ELA

Sete horas da manhã, dia de finados. Isso é lá hora de alguém chegar a sua casa com o intuito de conversar miolo de quartinha? Pois o Bião chegou, gente. Não é à toa que o bicho é nota dez em ridículo, além de medalha de ouro em feiume e zero em bom senso. Bião é meu primo. Aos poucos eu estarei lhes dando as características do peste. No momento, basta informar que o esquisito é escritor, ou melhor, intuitor, e que a mais recente excentricidade do azoreta é andar com um gravador escondido a fim de gravar conversas alheias. Ah, de vez em quando o desorientado me traz umas prosas. Muito boas, confesso.
Escuto a voz do azoado, levanto-me, asseio-me e encontro o infeliz na cozinha tomando café, ao lado um jornal. Coalhada, bolo de batata, ovo cozido. Vejam só o cardápio. O cumprimento é este:
— Isso é hora, Tião?
— Tento repreendê-lo, mas o incivilizado estira o jornal e lê:
“Vice-governador rompe com a governadora e diz que vai fazer oposição ao governo”. “Corrupção ameaça chegar ao Rio Grande do Norte”. Simplesmente sensacional, Tião. Agora ouça essa conversa que colhi há pouquinho tempo na porta do cemitério do Alecrim. Perdi o começo do papo, mas mesmo assim é interessante, meu caro.
Aí o maluco acende um cigarro,