quarta-feira, 30 de novembro de 2011

AS ARMAS DO DR. CÉSAR


AS ARMAS DO DR. CÉSAR

Dr. César catava as letras no teclado do notebook. Digitou a palavra "acabou", escorou-se no espelho da cama e ficou pensativo. Procurava palavras fortes, recolhia termos que fossem direto ao coração. Desejava, enfim, formar sentenças que o afastasse de certa moça, porque havia descomunal tendência de sucumbir àquele chamado, àquela irresistível voz proporcionadora de prazeres. De prazeres, porquanto tudo convergia para fazer a autoestima de qualquer cristão se alvoroçar e daí começar a abrir veredas para a vaidade e o erotismo, preliminares
do prazer supremo entre os humanos. A ideia do Dr. César era botar no bolso o que iria escrever e soletrá-los assim que os sussurros da moça lhe chegassem aos ouvidos. “Não é possível que com âncora tão poderosa eu caia na sedução dela. A leitura do que eu escrever será a minha arma”, pensava o Dr. César.
Impiedosa, perseverante, exibida. Escandalosa, por vezes; traidora, por outras. Traidora talvez não fosse a palavra certa, porque do Dr. César a diabólica criatura nunca escondeu o caráter funcional. Inclusive a bissexualidade, posto viver assediando homens e mulheres. A insaciável só espera a maioridade civil do incauto – ou da incauta – para assediá-los. Dr. César já dissera à persistente dama que não queria a sua oferta, por isso ela fizesse o favor de não mais o procurar. Certo que a ilustre deu um tempo na relação, mas ultimamente vivia lhe aporrinhando pelo celular.
Ainda bem que a conversa era telefônica, pois há dois meses sem escutá-la, certamente o Dr. César cairia nos braços da beldade se o papo se desse ao vivo, tamanho o convencimento da deusa. 
Dr. César não contava as vezes em que se remexera na cama pensando no prazeroso sotaque da mulher, ao mesmo tempo em que sentia a perna da bela esposa sobre o quadril. Queria dormir, queria outras coisas, mas a costumeira promessa feita pela ausente dama o deixava excitado a ponto de acordar a insônia e de adormecer a libido caseira. A fascinante, mesmo distante, mordia-o nos mais íntimos sítios, excitando-o, mas também o desarmando, visto a consequência das propostas. Quando a esposa o abraçava, ele antevia a cara feia da sensual voz, como a querer cadastrá-lo no SPC da infidelidade conjugal. Se a mulher o beijava, querendo lhe cobrar carinho, a danadinha lhe sorria ironicamente, numa clara alusão de que ele não podia ir adiante nas carícias, visto o atraso dela ser maior. Certo é que o que a dama lhe propunha não lhe saía da cabeça.
Dr. César pôs-se a pensar na insistente mulher e ficou olhando pro teto a espera das palavrinhas que viriam em seguida ao "acabou". Enfim, dos termos que o livrasse das garras dela. Mas, verdade seja dita, acordara naquela manhã imaginando procurá-la, pois precisava do que ela lhe oferecia. A fim de se distrair, pegou o jornal. Caramba, exclamou, ao ler a primeira notícia.
Pensara em ligar para a moça, sim, porém acabara de mudar de ideia ao ler o jornal. Duas pessoas haviam se suicidado por causa da frieza dela. Irracional, fria, insensível é o que ela é, pensou o Dr. César. Não considera ninguém. Que desgraçada! 
Dr. César havia começado o texto com a palavra "acabou", mas quando ia escrever a palavra seguinte bateram na porta:
— Telefone pro senhor, Dr. César. Posso entrar? Nossa! O senhor tá armado! Adoro esse revolvão de cano longo.
“Pode entrar, Isabel. Tô armado, sim. Quero dar um tiro em certa mocinha. Mas tiro de palavras, entendeu? Quem é, Isabel?”, quis saber o Dr. César, colocando o 38 embaixo do colchão. 38 de que jamais se apartara.
“Sei não, Dr. César”, respondeu Isabel, telefone às costas, falando baixinho, como a temer ser ouvida no outro lado da linha. “Mas parece a voz daquela mulher, a sua diva.”
­— Alô! É o César. Oh, como vai você? Tudo bem?
— ...
Não. Quero não. Decidi-me duma vez. Desculpe, mas...
— ...
É verdade, mas não quero não. Vou atrás de...
— ...
Por favor. Não pretendo ser grosseiro, por isso não insista, tá bem? Passar bem!
— Nossa, Dr. César. O senhor foi duro. Que fora, hein? Gosto de homem assim, firme, duro na queda. Era a sua diva mesmo, Dr. César?
— Quase diva, Isabel. É a moça do consignado. A minha diva, Isabel, é uma dívida. Consignado, Isabel, é uma desgraça. Por vezes é o  jeito, é certo, mas podendo evitá-lo é melhor. Sabe, Isabel, consignado é como uma mulher que vive assediando um homem. O cara sabe que é fria, é bronca, mas termina cedendo, entendeu?
- Entendi, não, Dr. César. O que diabo é consignado, Dr. César?
Aí, dengosa toda, a Isabel concluiu:
- E o senhor acha que sou fria e bronqueira, é?
- Quê?! Você, Isabel? Você...
Conversaremos já, Isabel. Feche a porta. Deixe-me terminar esse escrito. Quero escrever umas palavrinhas que é para eu ler quando alguém ligar me oferecendo consignado. Principalmente essa moça de voz irresistível. Essas palavras serão a minha arma. Entendeu, Isabel? Vou andar com elas no bolso. Veja:

ACABOU. DÍVIDA NUNCA MAIS, DÍVIDA É UMA PRAGA.

"Mas o doutor tem uma dívida comigo", disse a capeta da Isabel, toda assanhadinha, rindo.

Abraços desendividados e até mais ver,
Tião Carneiro