domingo, 13 de novembro de 2011

BIÃO E A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS




Meus cumprimentos, nobres amigos.
Escutem só. Há poucos dias, no texto do “ELA”, disse-lhes que meu primo Bião havia me visitado e que o peste costumava me presentear com as prosinhas dele. O feioso Bião se autodenomina de Intuitor porque, segundo ele, é capaz de saber de tudo, em todas as dimensões, em todos os tempos. Onividente é a palavra de que mais gosta. “O escritor comum é onisciente, onissapiente e outros ‘entes’, mas carente, Tião, da amizade com a intuição. Amizade de conversar, não de apenas ouvi-la. Porque bato papo com ela, tenho acesso a tudo e a todos, Tião.” Confesso, meus nobres, que não entendo bulufas do que o Bião fala, mas balanço a cabeça a concordar com ele.
Bião já pegou no pé de políticos, da galera do futebol, da turma de jornalistas. Agora o bexiguento deu pra encarnar nos escritores. A moçada das letras que se cuide. Há muitos textos inacabados, segundo ele. “Incompletos, vistos não terem sido publicados, mas disponíveis para gente de minha estirpe”, diz ele. Sabem com quem o cara acabou de mexer? Ninguém menos do que o Machado de Assis. Já imaginou o Bião completando um texto do Bruxo do Cosme Velho?
Bom, vou postar uma lorota do Bião. A lorota é sobre a “A Carteira”, maravilhoso conto do Machado, que, segundo o maluco do Bião, o Mestre publicou-o mutilado. “A Carteira” fala do Honório, advogado que encontra uma carteira de cédula cheia de dinheiro. Honório descobre que a carteira é de um amigo, o Gustavo. Gustavo vem a ser...
Farei o seguinte. Postarei a “A Carteira” na íntegra. Abaixo dela eu posto o arremate do Bião, combinado? Ler o Machado é um deleite. Quem já conhece a Carteira terá o prazer duplo. Quem não a conhece verá o que é uma prosa de verdade.
Valeu!

Machado de Assis
A CARTEIRA
...De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
- É verdade, concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias
são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.
- Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.
- Agora vou, mentiu o Honório.
A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, em que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.
D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.
Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
- Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.
A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.
Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, - enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.
Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? Era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.
“Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do dinheiro,” pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?... Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dois cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.
“Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer.”
Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado, e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
- Nada.
- Nada?
- Por quê?
- Mete a mão no bolso; não te falta nada?
- Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso. Sabes se alguém a achou?
- Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.
- Mas conheceste-a?
- Não; achei os teus bilhetes de visita.
Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.

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“Meu caro Bião, o Mestre Machado não contou a história completa”, assim me falou a intuição. Sucedeu o seguinte, Tião. Com essas palavras, o Bião revelou o fim da história inicialmente relatada pelo Bruxo de Cosme Velho. Com a palavra, o Intuitor Bião.
Honório tinha agudeza de espírito. Agudeza que foi despertada pelo olhar julgador do Gustavo. Então o Gustavo estar a refletir que tirei algumas notas da carteira? Que olhar mais desconfiado? Honório pisou nos calcanhares, deu duas voltas e voltou a tempo de ver a senhora dele rasgando o bilhetinho. O rasgado do papel, acompanhado do risinho de satisfação dos dois, aplicaram-lhe mais um golpe de estilete.
- Rasgas, por acaso, um dos escritos da carteira do Gustavo?
- Sim, amado Honório. Um dos cartões de visita estava imundo.
Não foi o que pareceu ao Honório. Os cartões estavam bem arrumadinhos e asseados; por que o Honório se daria à labuta de mandar a Amélia picotar um deles? De mais a mais, os cartões de visita são duros, diferentes dessas aparas vindas do que a Amélia picotou. Eis o primeiro ponto. Depois, quando cheguei, o Gustavo e a Amélia me pareciam torturados. Podia ser por causa da perda da carteira, mas por que ao esgravatar se lhe faltava alguma cousa o Gustavo não me respondeu logo o sim? “Nada”, disse ele. Nada? Depois do meu nada e de dar-lhe a sugestão para meter a mão no bolso foi que ele me disse que lhe faltava a carteira. Eis o segundo ponto. Pontos de discórdia, que levam a pensamentos de suspeição, que transformam bem-aventurança em malquerer.
A satisfação dagora terá sido apenas pelo achado da carteira? Ou terá sido pela virgindade de alguma cousa que não foi tocada? Honório tinha medo de continuar pensando. O homem é bom ou mau, as circunstâncias é que o farão. E as circunstâncias de hoje estavam a empurrar o Honório para as labaredas do ódio.
Primeiro, o avarento do Brás bota a mão no queixo, olha-me com se estivesse me cubando, faz um riso sem graça e me diz que a cousa tá ficando madura. Como se os quatrocentos e quarenta mil-réis que lhe devo fossem uma fortuna pra ele. Agora vem o Gustavo e mira-me com gestos de reprimenda ao lhe entregar a carteira. Em seguida a Amélia mente e diz que está rasgando o cartão de visita, quando o papel do cartão é muito diferente dos rasgadinhos dela.
Honório olha pro Gustavo e o vê com a cabeça, fazendo as vezes de rabo, socada entre as pernas. Muda a vista pra Amélia e a vê amarelada, porém tranqüila. Que desavergonhada! Tudo ficava evidente ao juízo do Honório. O que a Amélia rasgara fora um bilhetinho de amor. A Amélia era uma tremenda banda-de-esteira, era nada mais nada menos do que espingarda do Gustavo.
Tinha o dedo do Gustavo as dificuldades porque estava passando. Perdera aquela questão que parecia ganha devido às informações dadas pelo Gustavo ao causídico da parte opositora. Sua glória jurídica estava morrendo por causa do amigo. Tomara-lhe a fama e tramava subtrair-lhe a mulher. Por isso o Gustavo fica se derretendo com as músicas alemãs pianadas pela Amélia. “Bravo”, repetem ele e meu cunhado, o Cosme, quando a Amélia termina uma melodia. Hoje porei um fim nisso tudo.
Honório pensou em ir à cozinha pegar o facão que lhe auxiliava na função de jardineiro. Deu um passo pra frente, mas retrocedeu. Sabia ele que pensar com a mente diluviada de ira distorcia a conclusão, pois o veredicto sempre terminava no que se queria. Retrocedeu, mas o discurso da Amélia fê-lo decidir pelo facão:
- Devemos-te uma explicação, meu amado Honório. Desculpe-nos. Teu olhar para esses pedacinhos de papéis diz tudo, meu amado. Espero que sejas menos machista e entenda a situação. Enquanto ordeno esses papeizinhos, por que não vais à despensa e traz um vidrinho de resina e um pedaço de papelão?
Honório balançou a cabeça. Trouxe os objetos e o facão escondido no espinhaço.
Amélia começou a esfregar a resina no papelão e a colar os pedacinhos de papel. Honório contemplava o Gustavo, que de rabo entre as pernas mais covardia exalava. Voltou a vista para o ajuntamento de palavras que a mulher estava montando. Que grande vadia! Agora tenho certeza de que palavras matam. Amélia está fabricando o caixão dela e o do amante.  Arriscou uma olhadela na montagem. “Do seu Gustavo”, conseguiu decifrar. Honório pôs a mão nas costas, alisou o facão. “Não posso fazer isso. Lava a tua honra.” Essas eram as conflitantes vozes que lhe azucrinavam os ouvidos.
- Pronto, amado. Leia. Tenha calma, Honório.
Honório, trêmulo, arrebatou o papelão das mãos trêmulas da Amélia:
Querido Cosme,
Não podemos nos encontrar conforme o combinado. Somente agora, perto das cinco, a megera de minha mulher me disse que havia se comprometido com um jantar na casa de amigos. Tenho um presente pra ti, afora o de praxe. Imploro-te compreensão.
Te amo! Do seu,
Gustavo.
- Mas... Mas... Mas...
- Gustavo, amado Honório, traz esse bilhetinho a fim de que eu o entregue a meu irmão, ao Cosme. Quando ele chega aqui se dá conta de que tem perdido a carteira. Entregas a carteira a ele. Ficamos apreensivos porque desconhecemos se tens batido com os olhos nestas palavras. Vejo-te nervoso, a pensar besteiras, então começo a rasgar o bilhetinho com o intuito de eliminar pistas eróticas. Tu voltas e flagra-me na mentira. Por isso, amado Honório, precisei refazer a cartinha. Assim eu te provo...
- Mas... Mas... Mas... Isso quer dizer, então, querida Amélia, que o Gustavo e o menino Cosme...
- Isso mesmo, amado Honório. O Gustavo é um tremendo pederasta.
- Nossa!!!

Até mais ver,
Tião Carneiro