quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ELA

Sete horas da manhã, dia de finados. Isso é lá hora de alguém chegar a sua casa com o intuito de conversar miolo de quartinha? Pois o Bião chegou, gente. Não é à toa que o bicho é nota dez em ridículo, além de medalha de ouro em feiume e zero em bom senso. Bião é meu primo. Aos poucos eu estarei lhes dando as características do peste. No momento, basta informar que o esquisito é escritor, ou melhor, intuitor, e que a mais recente excentricidade do azoreta é andar com um gravador escondido a fim de gravar conversas alheias. Ah, de vez em quando o desorientado me traz umas prosas. Muito boas, confesso.
Escuto a voz do azoado, levanto-me, asseio-me e encontro o infeliz na cozinha tomando café, ao lado um jornal. Coalhada, bolo de batata, ovo cozido. Vejam só o cardápio. O cumprimento é este:
— Isso é hora, Tião?
— Tento repreendê-lo, mas o incivilizado estira o jornal e lê:
“Vice-governador rompe com a governadora e diz que vai fazer oposição ao governo”. “Corrupção ameaça chegar ao Rio Grande do Norte”. Simplesmente sensacional, Tião. Agora ouça essa conversa que colhi há pouquinho tempo na porta do cemitério do Alecrim. Perdi o começo do papo, mas mesmo assim é interessante, meu caro.
Aí o maluco acende um cigarro,
dar uma baforada e liga o gravador:

— O que não faz uma traição, não é, meu amigo?
— Pois é! Fiquei fulo da vida. Traição das grandes, meu senhor.
— Naturalmente que a expectativa era bem oposta.
— Mas é claro! Senão...
— É, fui idiota. Mereci esse claro. Então o senhor fez a promessa de vender vela até...
— Exatamente. Até ela tirar o disfarce do rosto.
— É nova?
— Sim! Não tão nova, mas por que haveria de ser tão nova?
— Bonita?
— Sim! Mas se fosse feia não tinha diferença. O importante é pensar que eu estava fazendo a coisa certa.
— É verdade!
— Muitas promessas?
— Ih! Só o senhor vendo.
— E o senhor confiando! Mesmo sabendo que certas...
— Mas é claro! Senão, não...
— É, fui idiota de novo. Como é mesmo a sua graça?
— Paladino, seu criado. Mas pode me chamar de Boneco. É meu apelido.
— Paladino? Prazer, seu Paladino. Meu nome é Carlos Magno. Mas pode me chamar de Grande.
— Seu apelido é por que a mulher fez o senhor de boneco?
— Não. Foi por causa de um cara da televisão. Filho de Chico Anísio, me parece.
— O senhor não mora aqui não, não é, seu Grande?
— Não, seu Boneco. Moro nos cafundós dos judas, lá onde o vento faz a curva.
— Logo vi! O senhor não sabe de nada!
— E teve mais coisa, seu Boneco? Ela continua fazendo raiva ao senhor?
— Se teve! Ora se continua! Onde o senhor mora não tem televisão não?
— Tem, mas eu não assisto. Sou ermitão, seu Boneco. Vivo isolado. Por que a pergunta?
— Homem, quase todo o dia ela sai na televisão, rindo que é uma beleza, mangando da gente.
— E o senhor fica sofrendo com isso, não?
— Mas é claro! Senão...
— É mesmo. Desculpe, seu Boneco. Ela deve ser doente. Sorrir pelo mal que lhe fez é demais.
— Fez, não, tá fazendo. E não é só a mim não. Ela ficou rica, a gente continua pobre.
— É verdade. Tem coisa que a família sofre mais do que a gente. Mas quem faz aqui paga aqui.
— E não é não!? Mas o senhor tá certo. A saúde dela vai de mal a pior, seu Grande.
— Qual é a doença dela, seu Boneco?
— É tanta doença que nem sei dizer o nome. Venha aqui mais perto. Isso aqui pra nós, mas...
— Mas o quê?
— Dizem até que ela tá botando remédio no lixo. Deve ser doença de cabeça, não é?
— Ah, bom! Acontece! Eu tinha uma irmã que fingia tomar o remédio, mas o destino era o lixo.
— O senhor já procurou a Justiça, seu Boneco? Se ela ficou rica, então...
— Quando fui preso. Quer dizer, uns amigos, eu não. Dinheiro dela? Tá maluco, seu Grande?
— Quem foi preso? O senhor ou os amigos?
— Eu, seu Grande. Me jogaram em cima duma camionete. Os amigos procuraram a Justiça.
— Será que a mudança dela teve alguma coisa a ver com as companhias?
— Talvez sim, talvez não. Mas pelo não, pelo sim...
— O senhor deu o sim. Deu-lhe um voto de confiança.
— Sim, sim, é claro. Senão não estaríamos neste papo, não é, seu Grande?
— É verdade. Pelo visto, estou longe de alcançar a minha cota de idiotice.
— Mas... E a família dela? Os amigos? Sentiram muito?
— Estão bem. Muitíssimo bem, por sinal.
— Isso é assim mesmo. Com o tempo o senhor esquece, seu Boneco.
— Duvido d ó dó!
— O que o senhor considera mais grave.
— Tudo! Tudo!
— Caramba! O senhor acha que ela teria a cara de pau de lhe pedir perdão?
— Homem! Perdão, perdão, não! Mas que ela vai querer se chegar, ah isso vai!
— E o senhor? O senhor desculpar-lhe-ia?
— Eu o que? Desculpar quem? Não ia desculpar não, senhor. Já lhe disse...
— É claro, entendi. É claro, sim.
— Me diga uma coisa. Vocês se davam bem, bem, mesmo? Costumavam sair para, digamos...
— O que quer dizer? Seja claro, homem!
— É claro! Costumar, não, desculpe. Vocês participavam, por exemplo, da mesma...
— Homem, seu menino, o senhor tá com enrolada. Costumar, participar... O que quer dizer?
— Esqueça. Sabe, seu Boneco, tá formando um tempo de chuva, dê-me logo as velas, homem.
— Tá certo. Gostei de conversar com pessoa tão ilustre. O senhor tá de carro, seu Grande?
— Tô.
— Então pegue esse mapa. Isso vai ajudar, principalmente se for para algum bairro afastado.
— Vou visitar uma tia na zona norte.
— Então dá certinho. Tá vendo esses pontinhos vermelhos?
— Tô.
— São os buracos, seu Grande. Os amarelos são os sinais quebrados.
— Obrigado. Mas tem muito vermelho aqui, seu Boneco.
— Mas tá certo, seu Grande. Vou fazer um mapa botando o vermelho onde não tem buraco.
— Boa ideia! Até mais. Perdoe a mulher, seu Boneco. Traição existe em todo lugar, homem!
— É verdade, seu Grande. Tem em todo lugar. Agora, perdoar não perdoo não, seu Grande.
— Me diga outra coisa, seu Boneco. O senhor já pediu o divórcio?
— Pirou, seu Grande? Divórcio? Que divórcio, homem!
— Agora danou-se. Então a mulher lhe bota um par de chifres, o senhor faz uma promessa de ficar vendendo vela até a danada ser punida, mas se recusa a apressar a punição. O meio mais ágil pra isso, seu Boneco, é o divórcio, sabia?
— O senhor tá me chamando de corno, seu Grande?
— Ué!!! E como é o nome disso, seu Boneco?
— Ah, entendi, seu Grande. Caramba! Eu estava falando da administração de minha cidade, e o senhor, que já deve ter passado por isso, ficou imaginando que minha mulher havia me corneado.
— Sério, seu Boneco? Meu Deus! Então quem traiu o senhor foi ela, a Administração?
— PrefeitaMente!

Até mais ver,
Tião