sábado, 5 de novembro de 2011

LITERÁRIO CONVITE

Olá, gente,
O Pocilga está com uma semana de vida. Renovo-lhe o convite de abertura: publique seu texto. Mande-o pelo imeio scarneirosilva@uol.com.br. Precisamos interagir, pessoal. Se nunca escreveu, tente. Não pense que sua prosa é tolice. Tolice é a apreciação de quem julga tolo um escrito, pois qualquer texto tem seus méritos. Ora se vou me importar caso alguém aí esteja achando tolo o que acabei de escrever. Não ter senso de humor é problema dele. Será que ele pensa que nossas prosas vão concorrer ao Nobel de Literatura? Qual é, meu! A gente quer mais é se divertir, rir de nós mesmos, brindar a vida. É ou não é? Ficção é antes de tudo divertimento. Assim acho, minhas nobres.
Falar em tolice e divertimento, meus botões estão sugerindo
uma tola brincadeira. Como não sou de contrariar os meus botões – e aconselho isso a todo mundo - vou apresentá-la a vocês. Eis o lance. Já lhes disse que recentemente publiquei um livro. O tijolão de 541 páginas tem o título de “A Senhora 2 e o Senhor 2”. Se abri-lo, nem precisa lê-lo, você não verá um pingo de erudição, mas logo rirá com as cócegas que o bicho começará a fazer. Loucura geral, meus nobres.
Sim, a brincadeira. A primeira página do livro é uma carta em que um personagem  desafia outra. Trata-se de uma charada linguística, digamos assim. Então, disseram os meus botões: mostre o texto a sua galera, Tião, e dê um exemplar do livro aos primeiros cinco leitores que decifrarem o enigma. Concordei, é claro.
Copiarei a prosa aqui embaixo. Você põe a resposta no campo de comentário e escreve o endereço. Deixarei o livro lá numa boa. Os comentários ficarão presos até as 12h22 da quarta-feira, nove de novembro, quando então publicarei a resposta e o nome dos ganhadores.
Acho que exagerei ao afirmar que deixaria o livro numa boa. Na minha avaliação, o Pocilga está doidão. Diz o aluado que houve nove acessos na Alemanha, seis nos Estados Unidos e quatro na Rússia. Pode uma internacionalização dessas? Como irei entregar esses livros na Rússia, por exemplo? Precipitei-me ou não? Pra quem está contando moedas a fim de comprar cigarros, até mandar pelo correio fica complicado. Ô camarada, alivie aí homem de Deus ou mulher de Nossa Senhora! Sem mais delongas (delonga frita é excelente prato, pessoal), vamos ao texto de o “A senhora 2 e o Senhor 2”.


Nobre cliente:
Sempre sonhei com um emprego desses. Discreto, diferente, moderno. Difícil de obtê-lo, é evidente. Contudo, possível, sim. Consegui-lo, porém, constituiu o tempo todo inquieto temor em meu consciente. Por isso, seu insólito pedido fez-me do subconsciente um colérico defensor de meus sonhos. Defensor, desde, é lógico, que congruentemente eu o estimule.
           É compreensível esse prelúdio. Do mesmo modo como é entendível o termo insólito. Onde se viu, nobre cliente, oferecer um lorde emprego, e só exigir do sortudo um simples escrito? O texto, seu moço, disse você, pode, e deve, ser escrito sem doutos compromissos com o primor prosódico. Título livre! Texto solto! Teor leve! Esse, em resumo, foi o seu pedido. E receber, por mês, três mil cruéis se o texto lhe sugerir singelo lixo? Onde se viu isso, nobre cliente? E receber dez mil cruéis, se o bendito documento lhe sugerir opulento luxo? E, se nem simples nem opulento? Quer dizer: nem lixo nem luxo? “Cinco mil cruéis por mês”, prometeu você! Onde se vê isso? E tudo por um serviço de treze meses! Ser-lhe-ei, pois, seu eterno servidor, mesmo eterno de treze meses. Ser-lhe-ei, sim, seu eterno, infinito, infindo e perpétuo consultor.
Nem por um minuto duvidei de seus propósitos. Vejo-os honestos e sinceros. Como oportuno registro, descrevo-lhe os números de nossos encontros. Sou visto em três momentos e, no primeiro deles, de vinte e um minutos, seus belos olhos me veem mestre. No segundo, de dezoito minutos, os engenhosos sentidos entendem-me experto – com “x”, sim, nobre cliente - e gênio. No último, em quinze minutos, os sensíveis neurônios, generosos com este plebeu, descrevem-me como espírito benéfico, o deus do bem. Um Confúcio, enfim. Você me conheceu, pelo exposto, em 54 minutos, e logo me julgou técnico no que pretende produzir. Terei, por treze meses, o bucólico ofício de “emitir opiniões sobre genéricos conceitos”. Somente isso! “Tens o dom do bem querer. Tens o bem do bom viver. Tens o dom dos dons”, expressou-se você.
Hoje reflito sobre esses conceitos e duvido-me deles merecedor. Esses dons só podem ser sentidos e vistos por mentes superiores. Como “Mente Superior”, perdoe-me, nobre cliente, só vejo o Mestre Supremo, estou supondo que os dons percebidos por você descendem do desejo de quem quer me oferecer certo conforto psíquico.
Riso. Esse, nobre cliente, é um termo novo neste escrito. Muito menos o é sem motivo.  Compreender o emprego dele no contexto do texto, desculpe-me o ensurdecedor som do “er”, é descobrir o porquê do excêntrico estilo do discurso.
Dois conselhos, por fim, você me deu. Ou melhor, um lembrete e um conselho.
No primeiro, tenho de lhe servir, mesmo que isso prejudique meu ofício de vendedor de jogo do bicho. O conselho foi de prevenir-me de possíveis incursões no libidinoso terreno do sexo.
“Sou mulher. Por conseguinte, deves ser prudente com teus sonhos”, observou-me você, nobre cliente.
Dos sonhos, penso, é impossível fugir. Do destino, se existe, somos prisioneiros. Ou, se você preferir: do destino fugir é impossível; dos sonhos, somos deles prisioneiros.

Cristal, quinta-feira, dezessete de outubro de 2013.
Respeitosos cumprimentos,
Simônidas Silva

A EXPLICAÇÃO

Prezada Tâmita,
Que tal a prosa? Maluca, não? Estarei sendo presunçoso se aguardar a avaliação luxo? Gracejos à parte, receberei de bom grado o seu julgamento. Como deve ter percebido, Tâmi, não só me impus severa disciplina, mas também estou lhe apresentando divertida brincadeira.
Pela ousadia, talvez você me julgue caricato, grotesco. Mas risco é risco. Em certas ocasiões, sem ele o sucesso de um evento assemelha-se ao sabor de uma comida sem sal, não é verdade? Desde que tal comida necessite de sal, é evidente.
Então? Já entendeu a charada, Tâmi?
Não?
Vou lhe dar uma pista: o que estou lhe propondo salta aos olhos. Ou melhor, parte salta, literalmente; parte esconde-se. Se ainda não entendeu a adivinhação, siga este conselho: releia o escrito com atenção redobrada nos termos iniciais de cada um dos parágrafos...

Agora é com você, meu nobre. Vou adiantar a primeira parte da brincadeira, os tais termos iniciais de cada um dos parágrafos. Destaquei-os a fim de que percebessem a formação do vocativo “Senhor Dois”. Beleza?
Então! Qual é a esquisitice do texto, a anormalidade linguística, a aberração morfológica? Aguardo resposta, tá?

Um abraço,
Tião