sábado, 26 de novembro de 2011

O HOMEM DE BRANCO


O HOMEM DE BRANCO

            O homem de branco atravessou a rua e se dirigiu ao barraco onde estavam Dona Dulce, a velha proprietária do barraco, a bonita filha dela, a Líndia, a franzina Kika, amiga das duas, e o escritor Tição, vizinho do boteco. Velha é o modo carinhoso de falar, D. Dulce deve ter uns sessenta anos; Líndia não é somente o nome da filha, ela é linda mesmo; franzina é a forma amena de dizer que a Kika é magrinha; escritor é exagero, o Tição é, quando muito, sofrível rascunhador. O que o Tição sabe fazer bem é levantar copo, como fazia naquele momento, e cair na gandaia.
             Quando viu o homem caminhando em direção ao botequim, a Líndia comentou:
        — Olha, mãe, é o médico que vinha no ônibus com a gente e me perguntou onde ficava a maternidade.
             — É mesmo, Líndia...
“Boa-noite, tem uma cervejinha em lata?”, perguntou o homem todo de branco.
Para entender esta história, precisa ser dito que vinham naquele ônibus a Líndia, D. Dulce e outra filha dela, a Marícia. E o homem de branco, é claro. O homem não disse que era médico, apenas perguntou se a Líndia sabia onde ficava a maternidade do bairro. Também deve ser explicado que o boteco fica no bairro das Sextas, em Cristal, capital do Rio Pequeno do Norte.
“Tem”, respondeu D. Dulce. A Líndia entregou a latinha ao homem de branco, a Kika ficou em silêncio, o Tição limitou-se a observar a cena.
Talvez para mostrar que era realmente médico, daí ter mais cuidado com a saúde, é que o todo de branco tenha pedido um copo descartável. O Tição, sujeito perspicaz, vislumbrou, porém, uma segunda intenção no gesto.
O brancão escorou-se num pau do boteco, ficou bebericando a cervejinha, quis saber se a casa vizinha era para alugar, escutava a conversa da gente, olhava desinteressado ao redor. Desinteressado para os desatentos, não para o Tição, indivíduo cabreiro, como dito há pouquinho tempo.
Bebida a cerveja, o branquidão pagou, recebeu o troco, disse que voltaria depois e foi embora. Para os distraídos, foi um simples receber o troco e ir embora, não para o Tição, sujeito observador, repita-se.
Foi só o brancura sair para os comentários chegarem:
“Se esse bicho feio for médico, eu sou enfermeira”, disse a Líndia.
“Ai que inveja. Ninguém merece”, falou D. Dulce.
“Esse é doido todo”, resumiu a Kika.
“Se é? Quem já viu médico andar de ônibus? Pelo menos um carrinho velho um médico tem”, reforçou a Líndia.
Tição limitou-se a sorrir. Achava engraçado o pré-julgamento. Na avaliação do Tição, o branquento não era assim tão feioso. Era esbelto, da cor não se tinha certeza, mas havia um quê de morenice no rosto, e o olhar era suplicante, apaixonado. Mas esse olhar só foi percebido pelo Tição, um cara esperto, lembrem-se. Na verdade, o Tição também achava que o de branco era biruta, mas ficou na dele. O Tição condenava o pré-julgamento explícito, mas o praticava implicitamente, o que era pior. Não ter coragem de dizer o que pensa é terrível atitude, entendia ele, mas o covarde vivia se comportando assim.
Bom, isso se passou numa sexta-feira, coisa de oito horas da noite. No sábado à noite, estavam no boteco, além da galera da sexta, a Silvana, a gargalhada mais espontânea da vizinhança, D. Marlete, especialista em futebol e política, Muniz, cabra brincalhão e que nunca vai deixar de ser menino, e Chicão, organizador de uma festança que vai fazer no bar em homenagem ao campeonato do Vasco da Gama.
Então, papo vai, papo vem...
D. Dulce foi a primeira a ver o cabra de preto vindo em nossa direção.
“Que babujado é um, meu Deus!”
“Parece mais um urubu rei, mãe”, disse a filha, a Líndia.
Não deu tempo de acompanhá-las nos comentários, pois o todo de preto já nos dava boa-noite e perguntava se tinha cerveja em lata.
A Líndia o serviu, D. Dulce ficou olhando pro rosto do pretão, nós outros nos entreolhamos com cara de paisagem, mas todos ficaram rezando para a Silvana não olhar pro rapaz. Sabíamos que se tal ocorresse a gargalhada viria. A reza foi atendida. A Silvana saiu de fininho e entrou na casa de D. Dulce. Daí a instantes o riso ecoou, mas o de preto estava longe de desconfiar que era por conta dele.
D. Dulce olhou, olhou, coçou-se e não resistiu:
    O senhor teve aqui ontem, não foi?
    Não, senhora. Cheguei hoje a Cristal.
          — Não foi o senhor, não? Pois eu jurava que o senhor era o senhor que teve aqui ontem, todo de branco, e tomou uma latinha de cerveja. O senhor se parece muito com aquele homem de branco. O senhor, o senhor, o senhor...
Mas uma vez o pessoal se pôs a rezar. Dessa vez pra não ouvir de D. Dulce o clássico “a cara de um é o do outro”, ou então o senhor “é cagado e cuspido o homem de branco”.
— Meu Deus. Meu Deus. Foi mesmo, senhora? Parecido comigo, todo de branco? E tomou uma latinha de cerveja? Muitas graças, Senhor! Até que enfim.
Todos ficaram sem entender tamanha alegria. Boquiabertos, só escutavam o pretão exclamar: “Meu Deus, até que enfim”.
Por fim, o bexiguento olhou para a Líndia, sorriu-lhe carinhosamente e repetiu o até que enfim. Depois desse gesto, o Tição captou tudo.
“Bem que eu desconfiei”, falou a si o perspicaz, cabreiro e observador Tição, lembrando-se do roçar de dedos na mão da Líndia, na hora em que o brancão recebeu o copo e o troco dela, recordando-se do olhar lânguido a ela dirigido, especialmente para a blusinha amarela, e revivendo o “depois eu volto” de despedida. Aquele contentamento todo do todo de preto tinha a ver com algum plano entre o todo de branco e ele, o todo de preto. E o todo de preto acabava de pressentir que a coisa terminara ali, no boteco de D. Dulce.
“O senhor me desculpe, mas por que ficou assim tão contente?”, quis saber D. Dulce.
“É o seguinte, senhora”, começou ele a responder, depois de emborcar uma golada de cerveja. “O senhor de branco que esteve aqui é meu irmão. Somos gêmeos monozigóticos, temos...”
    Mono o quê?
        — Monozigóticos, senhora. Temos a mesma aparência física e idêntico grupo sanguíneo. Somos capazes de confundir até a nossa família. Meu nome é Gastuvo. Meu irmão chama-se Gustavo. Além de adorar a cor branca, o Gustavo assim se veste a fim de se diferenciar de mim, que, propositadamente, uso a cor preta. Às vezes a gente troca as cores. Ele fica de preto e eu, de branco, compreende?
        Para a senhora ter ideia, o Gustavo gosta tanto da cor branca que raramente acha linda uma mulher vestida de outra cor. Ele ainda não conheceu uma mulher, acredita? Vive se guardando, ou vivia, anda batendo pernas, de ônibus, de trem, a pé, o escambau, atrás de uma mulher bonita, mas vestida de azul, por exemplo, que é para ter certeza de que aquela moça é realmente linda. Agora, se tal moça estiver de branco, aí, nossa!
          O Gustavo, senhora, é milionário. Não faz um ano, ganhou 50 milhões de cruéis na Mega-Sena. Tem imóveis por tudo que é lugar. Soube que ele comprou uma casa de praia aqui no Rio Pequeno do Norte, numa praia chamada Pitangui, então vim no cheiro dele, entendeu?
          “Entendi”, sorriu D. Dulce, antes de ordenar e se desculpar:
         — Tragam uma cadeira pro moço, meninas. Desculpe, senhor, me distraí e deixei o senhor em pé esse tempo todo. Pois é, seu irmão é muito simpático, bonito, gentil, educado. Gente da melhor qualidade. E o senhor também, já que são gêmeos, né?
          O bonitão Gastuvo não respondeu. Aliás, ninguém ali teve olhos pra outra coisa, a não ser para olhar o carrão, tipo Ferrari, que acaba de estacionar no boteco. Surpresa maior foi quando viram quem era o motorista. Nada mais, nada menos do que o todo de branco, gente.
        Bem, a emoção toma conta do ambiente, tamanho o abraço entre o Gustavo, o todo de branco, e o Gastuvo, o todo de preto. Passados longos minutos, o Gustavo exclama:
    Ufa! Quero uma latinha de cerveja. Cadê a mocinha?
    Traz uma cerveja para o Sr. Gustavo, Líndia. Líndia? Cadê a Líndia?
            “Tô indo, mãe. Só um minutinho, mãe”, disse a Líndia, que se afastara tão logo viu o Gustavo.
           Daí a pouquinho a Líndia aparece. Mas não assim, sem mais nem menos. Ela chega deslumbrante, mais linda do que nunca, esplendorosa, sorridente, arrebatadora, maravilhosa, angelical, garbosa, belíssima... 
            E vestida de branco dos pés a cabeça.

           Um abração branco de paz,

           Tião Carneiro