terça-feira, 15 de novembro de 2011

O TRISTE FIM DE UM LIVRO


O TRISTE FIM DE UM LIVRO

      Não vejam lamento neste texto. Lamento não é minha praia. Interpretem-no como o preço da ousadia, praia que, trajado de bom humor, tenho por hábito me refrescar. O livro em questão é o A Senhora 2 e o Senhor 2, primeiro rebento de minhas maluquices, posto na rua em maio de 2010. Incentivado por uma amiga, danei-me a escrever a história cujo estilo literário gostaria de ver presente nos escritos que leio. Comecei a brincar...
     Bem, a brincadeira terminou num livrão de 541 páginas. Envaidecido, não quis esperar a boa vontade das editoras: banquei os custos, fiz um lançamento supimpa, num barzinho de meu bairro, e mandei-o ganhar o mundo. Vendi cerca de 90 exemplares no lançamento e em torno de 130 no pinga a pinga. Restam-me uns 80.
    Agora, meus caros, pensem numa dupla humilhada, a tal da Senhora e o Senhor 2.
A primeira humilhação partiu de meu sobrinho de 8 anos. Como a capa do livro dá destaque ao 2, parecendo o bico de duas aves, o guri fez logo a gozação:
    “Tio, o nome do livro do senhor é a Senhora Ganso e o Senhor Ganso, é?”
     A segunda bofetada foi o apelido de Tijolão. Tijolão! Imaginem o tamanho do búlingue!
    A terceira bujarrona ocorreu quando fui hospedá-los na livraria. “Fico com suas crias. Se alguém mostrar interesse por elas, daremos ao senhor 60% do valor da venda. Lavro a certidão?”, disse-me o cartorial servidor da hospedaria. Resignado, autorizei a burocracia:
    - Faça. Tem vinte numa caixa. Quantas eu mando trazer?
     “Só 3 exemplares (3, gente, não é erro de digitação não, pessoal). É que autor local vende muito pouco, senhor.”
     Deixei os filhotes. Visitei-os algumas vezes, mas faz um tempão que não vou lá, choroso que ficava com o estado de abandono em que eu os encontrava. Desconheço, juro, mesmo porque a livraria nunca me deu retorno, se algum abençoado conseguiu sair daquele sufoco.
    A quarta desfeita materializou-se aqui em casa, há coisa de 4 meses. Pedi aos parentes que me dessem o nome de amigos a quem gostariam de dar o livro. Faria a dedicatória, e eles pousariam de filantropos. Até hoje eu espero tais nomes. Conformado, esqueci o assunto.
    Por último, postei aqui um “Literário Convite” e disse que daria um exemplar ao leitor que decifrasse certo enigma exposto no texto de abertura do livro. Ninguém respondeu, tampouco comentou, embora eu tenha divulgado até meu imeio. Alguém matou a charada, é lógico, apenas preferiu não me informar, por considerar infantilizada a brincadeira. E, por analogia, o livrão.
     O livro... Bom, vou abrir um parágrafo, dar uma pincelada no enredo do “Tijolão” e revelar a pegadinha.
   A história se passa em Cristal, cidade do nordeste de Andiroba, país parede e meia com o Brasil. Simônidas, perspicaz todo, vende jogo do bicho numa lanchonete. Belo dia, chega a Sra. Tâmita, começa a conversar com o Simônidas, dele se engraça e o convida para trabalhar com ela. Exige, porém, que Simônidas escreva um texto. Caso a Tâmita julgue o texto bom, o Simônidas terá um salário de 10 mil cruéis por mês. Se ruim o escrito, o salário será de 3 mil; se médio, de 5 mil.
     Para impressionar, o que faz o Simônidas? Escreve uma prosa de trinta e poucas linhas sem a letra “A”.
    Eis a resposta, gente. Na carta do Simônidas, o início do romance, não tem o A. Beleza?
    É isso! Muito bem, revelei o mistério, mas continuo dando o livro.
   Quem quer livro! Quem quer livro! Quem quer livro!
   Ponha seu nome aqui no “comentário”, ou me passe um imeio, que lhe mando o rejeitado pelo correio. Verdade, gente!
   Aí, meus nobres, acabo de escrever essa frase, sinto um bafo nas costas e me viro. Sabe de quem é o bafo de onça? De meu primo Bião:
    “Teu tijolão é muito ruim, Tião. Mas tem serventia, sem dúvida. Como sabes, tenho dois exemplares. Um pra calçar a estante, outro para me fazer dormir. Basta meia página e caio no sono, cara.”
    Não suportei tamanha sacanagem. Apanhei um Senhora 2 e rebolei no focinho do peste. O livro pegou mesmo no cocuruto do infeliz. Fiquei transtornado e arrependido. Só sosseguei quando ouvi a notícia dada pelo pai do Bião, meu tio Kião, à senhora  Neneta, empregada daqui de casa:
    “O Bião já está respirando sem aparelho, D. Neneta".
     "E a Senhora 2 e o Senhor 2 permanecem detidos, Seu Kião?", quis saber Neneta.
     "Mas é claro, D. Neneta. Essa duplinha é muita da atrevida".
      "Pois diga! Fique sabendo que gosto bastante deles, viu, Seu Kião?"
     "Então se vista com 50 tons de cores, tal qual uma coelhinha, faça gestos de vampira, ponha outros adereços, vá à livraria, diga ao gerente que é advogada e solte eles. Ora bolas!
   
Um abração destijolado,
     Tião Carneiro