sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A QUEDA


Estou, Dra. Intuição, num hospital andirobense, acomodada em moderno PMG, Dra. Rosilma se preparando para me consultar. De olhos fixos num monitor de outro PMG, sorriso babado, jeitão de prazer, a ajudante da médica gesticula, chamando-a. Estão no mais puro deleite, levanto-me sorrateiramente e me ponho por trás das duas. Deslumbravam-se, Dra. Intuição, com um magote de homens despidos, bombados. Bombados com “b e outras bilabiais, compreendeu, Dra. Intuição?
Custou-me acreditar que duas moças tão lindas usassem daquele expediente, ainda mais na hora do expediente, a fim de atiçar-se sexualmente. Elas riem,
a assistente faz menção de sair, volto pro PMG da médica, a doutora fala ao telefone. A assistente vai embora e se esquece de fechar a porta. Ouço gemidos e saio do consultório no intuito de saber o que está acontecendo.
Então me deparo com o triste e longo corredor. O autêntico corredor da morte, Dra. Intuição. Vejo, Dra. Intuição, uma senhora com o fêmur exposto, jogada numa maca horrorosa, familiares correndo pra cima e pra baixo em busca de ajuda. Escuto um choro forte, viro-me e dou de cara com uma jovem mãe com o filho nos braços, o rosto dele ensanguentado, o dela humilhado por lágrimas. Ela olha de canto a canto do corredor a procura de acomodação, mas não acha sequer uma cadeira. Eu também esquadrinho o ambiente, mas só enxergo lamentos, lamúrias, lamentações, lágrimas e outras lástimas parecidas.
Tenho a atenção desviada para a recepção, onde um ajuntamento de rostos amargurados escuta a realista e insensível servidora:
“Estamos telefonando para outros hospitais a fim de arrumar algumas vagas para os seus pacientes. Daqui a instantes, o Dr. Thiago virá fazer a triagem para saber quem deve ocupar a UTI do primeiro andar. A do segundo acabou de desocupar, mas não tem gazes nem soro, e somente agora o encarregado do setor veio dizer isso ao médico. Peço-lhes um pouquinho de paciência...”
Um pouquinho de paciência, Dra. Intuição, a assistente social estava pedindo. Um pouquinho de paciência! A doutora acredita? Teria ela com o filho morrendo nos braços esse tantinho de paciência? Fazer triagem para saber quem vai morrer porque não lhe deram a devida e humana assistência? Que é isso, Dra. Intuição? Onde estamos, mulher de Nossa Senhora? Ninguém merece!
Aí, Dra. Intuição, cambaleando de tão impotente, tropeçando na fraqueza, tropicando na vergonha, caminho para a sala da Dra. Rosilma. Ouço o alarme duma sirene estacionando, mas me recuso a assistir ao desembarque dos novos estagiários daquele inferno. Desorientada, erro o caminho do consultório e encontro um sujeito de branco, sorridente todo, ao lado um cabeludão não menos assanhado. Curiosa, estiro o pescoço por cima dos ombros deles e vejo os pervertidos se valendo de mim para ver mulheres peladas.
Arrasada, saio da torpe saleta e avisto a identificação do ambulatório da Dr. Rosilma. Não sei se por causa da assustadora excursão, verdade é que escorrego ao tentar me livrar de uma cadeira de roda. Escorrego no tapete da porta, saio rolando e meto a bunda no chão. Meu Deus! Terei fraturado algum osso? E agora?
Ia pedir socorro, mas gelei com a exclamação boca-suja da Dra. Rosilma:  “Caralho, porra. A piranha da internet caiu. Porra!”, esbravejava ela, olhando irada o monitor do PMG.

Dra. Intuição, somente a senhora pode atenuar meu sofrimento. Sou a mais eficiente enfermeira daquele hospital, mas sinto-me incapaz de amenizar a dor de tão sofridas pessoas. Não sabe a doutora em quantas me viro durante os infindáveis plantões. Sirvo a todos, ainda que na retaguarda, com enorme sorriso. Mas as cenas daquele dia deixaram-me estarrecida e disposta a cometer uma loucura se nada for feito em prol daquela gente. Maldita a hora em que dei aquela escapulida.
            Veja, Dra. Intuição, fui criada com a intenção de tornar mais feliz a vida das pessoas. Não a felicidade de mostrar mulheres e homens nus, tampouco o prazer de expor infames piadas, menos ainda o sorriso proporcionado aos bandidos. Perambulo pelos palácios de Justiça, dou expediente nos órgãos de Segurança, cumpro plantão nas casas de Saúde. Esforço-me na expectativa de trazer mais e mais bem-aventurança para a população, notadamente os desvalidos. Desnecessário dizer, Dra. Intuição, que ajudar a saúde é a mais nobre de minha missão. De propósito, não citei a Educação e a Segurança. A Segurança, sabe bem a senhora, doutora...
           
Sucedeu, leitor, que D. Internete não pôde concluir a frase, pois dois mascarados acabavam de render a médica e levar o PMG em que D. Internete dos Pontos Dáblius estava internada.

Até mais ver,
Tião

Nota – Essas cenas se passaram em Cristal, capital do Rio Pequeno do Norte, e fazem parte dos originais do livro Intuitor Bião, um Homem de Palavra, que, doido para bater pernas, vive ansioso por um editor que o liberte.