sábado, 31 de dezembro de 2011

O SOM DE CERTAS RISADAS


O SOM DE CERTAS RISADAS

          Esse negócio de rir é engraçado. Desculpem o trocadilho, saiu sem eu querer, gente. Agora, nada engraçado, pelo menos pra mim, é a diferença entre rir e sorrir. Segundo o dicionário, sorrir é rir sem ruído. E rir é contrair os músculos faciais, entendeu? Ainda bem que a gargalhada não deixa dúvida de que o indivíduo está sorrindo e rindo ao mesmo tempo, concordam comigo?
Mas, como estava dizendo, esse negócio de rir é engraçado. Você começa a rir, e quem está por perto se dana a rir também, né não? Sou capaz de apostar um tostão furado como está rindo neste momento. Pois então, ontem eu assisti a uma sessão de riso pra lá de engraçada. Droga, que trocadilho mais sem graça. Se bem, e pensando bem, existe o riso sem graça, não? Tá aí o riso amarelo que não me deixa mentir.
A sessão de riso ocorreu no boteco da Marluce. Marluce... Bom, já falei do barraco da Marluce neste espaço, mas é bom dar uma refrescada na conversa. O biongo da Marluce

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

É NADA!


MICROCONTOS DA POSTAGEM


Puseram os bichos para brigar, e a cobra comeu a aranha. (Erótica, Recanto da Letras – 10-11-2011)

Brigaram tanto que ela morreu ensanguentada, mas abraçada. Verdade, foi? Mentira, meu! Daí a um tempinho tornaram a se agarrar. (Tião)

É NADA!

É com essa expressão que o meu amigo, o Gordo, cumprimenta a galera quando tá meio bicado. Bastam-lhe duas lapadas da água que passarinho não bebe e lá vem o bafejo do “é nada!” Um dia eu perguntei ao Gordo o que ele queria dizer com aquilo. Ele me olhou enviesado, já meio “zanoio”, emborcou uma larga, passou as mãos nos beiços e arrotou: “É nada!”
Ri da sentença. Duas palavrinhas e lá estava eu a rir descontroladamente. O poder das palavras é fogo, meus nobres. Ele libera a emoção e destrava a imaginação. A bem da verdade, a palavra em si é neutra. A palavra só adquire poder no papel de porta voz do estado mental. Ódio e amor sem os correspondentes estados mentais são meros vocábulos. “Nada”, porém, parece-me sentimentalmente fria, morna, quando muito. Não existe estado mental que a faça sobressair. É interessante a conexão entre palavra, estado mental e poder.
Como pressentimos o indivíduo que acabou de ouvir a palavra ódio? Depende do momento mental do ouvinte. Você, por exemplo, se leu em voz alta a frase de abertura deste parágrafo, talvez até esteja rindo de minhas besteiras, daí o semblante de paz, em que pese o “ódio” do primeiro período. Porém... Bom, imagino de prazer o estado mental de quem está lendo um livro, da mesma forma que de fúria de quem injustamente ouviu um desaforado “idiota”. Não lhe desejo o último exemplo, mas... Como seria sua fisionomia? Olhar aterrorizante, voz alterada, corpo tenso, não é verdade? E como estaria seu rosto ao ser chamado de amor? Olhar meigo, voz melosa, corpo relaxado, não é isso? Perceba o poder mental nas duas situações. Na do “idiota”, até de esmurrar você seria capaz. Na do “amor”, amar seria sua obsessão, concorda?
A regra geral é essa, meus nobres. Por que geral? Veja o seguinte. A menos que o indivíduo seja mentalmente desequilibrado, é razoável admitir que vivemos num estado mental neutro, digamos assim. Quer dizer, não estamos permanentemente raivosos, tampouco, deslumbrados. No raivoso será praticamente nula a reação ao ouvir palavra amor. Igualmente no deslumbrado a reação ao ser tachado de idiota. O normal, pois, é este encadeamento: ouve-se a palavra, aciona-se o gatilho do estado mental, aflora-se o poder.
Agora o que lhe acontece ao ouvir o substantivo “sexo”? Aliás, nem precisa ouvi-lo, basta imaginá-lo. A visão é sua, certo? Tenha-lhe bom proveito. Quando escrito, o desavergonhado do “sexo” ainda tem uma agravante. O “x”, pessoal. O “x” de sexo é erótico pra caramba, não? Agora, diga-me. O que enxerga você ao escutar o dissílabo nada? Nadica de nada, não é mesmo?
Sabe de uma coisa, meu nobre. Esse negócio de escrever é cheio de armadilhas. Daí, por detestá-las, jamais serei escritor. Percebeu a fuga do tema desta crônica. A intenção era falar do Gordo e do “nada” da frase dele. Aí, do nada, apareceu essa história do poder das palavras. Não sei se lhe dou o crédito pela liberação da capenga veia literária, ou o débito pela maldita prolixidade. Fica o registro, embora nada conclusivo.
“Nada” já nasceu de bisaco vazio, sem um pingo de sorte, coitado.  Vou até interromper este vácuo de prosa a fim de lhe explicar essa história do bornal seco do desditoso Nada. Foi assim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

BAR-TE-PAPO NATALINO

Vejamos os microcontos da postagem de hoje.


1. Pediu caranguejo. Marido trouxe.  Ao abrir a embalagem, berrou. “É siri! Não quero”.  Marido: “Amor, siri é caranguejo melhorado, coma!” (Rubo Medina, Canto do Escritor).

2. Por que não me abraçam, não riem pra mim, não me chamam pra mesa? Só porque tô descalço nem trouxe presente? Ninguém merece! (Tião).

BAR-TE-PAPO NATALINO

Renato chegou ao Parlamento Bar e começou a praticar seu esporte preferido. Pensaram em levantamento de copo e arremesso de piúba? Maldosos, vocês, não! O esporte predileto do Renato é observar. Conjugado a alguns levantamentos, naturalmente. Naturalmente que geladamente. Certos levantamentos, quando quentes, segundo o Renato, nunca descem redondos.
O Parlamento é excelente ponto de observação. Gatos e gatas abundam por lá. Cachorros e cachorras também. Bem-te-vis, galos-de-campina e pardais brindam os cliente com verdadeiras sinfonias. Alojam-se nas castanholas do canteiro e pegue cantoria.
Aboletado numa mesinha do canteiro, Renato pede uma gela à Vanessa e curte esse cenário. Nisso aparece um gatinho branco, dourada cordinha adorna-lhe o pescoço. O bichano passa por ele, olha-o de relance, para. Fica cerca de trinta segundos olhando fixamente para o Renato. Já viveu essa experiência, leitor? Chega a embevecer e a incomodar, não é? Parece que o animal quer nos dizer algo. É impressionante! Bom, Renato dá-lhe um sorriso de cumplicidade e levanta o polegar. O Gato eriça os pelos, abana o rabo e vai embora.
Renato desvia a atenção

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

SEBO - DO LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO E DO BIÃO



Há poucos dias, disse-lhes que iria lhes apresentar um ou dois  microcontos como aperitivo da postagem principal. Então vamos lá:
1.  OLHOU-SE NO ESPELHO...
Lembrou-se da noite anterior, lembrou-se que ele se foi  e disse pra imagem refletida: o amor acabou... Então, pensou... Às favas com ele!   Eu me sou e eu me basto. Pensou mais um pouquinho e resmungou... Só falta eu me convencer disto. E começou a escovar os dentes. (A autora do belo microconto e Zélia Maria Freire, em o Recanto das Letras).
2. Santa mãe! Até que enfim! Que solzão é um, meu Deus! Será que as cotoveladas vão valer a pena? Espero não me arrepender. Droga! Já? (Tião)

O Bião reapareceu, gente. O Bião, vocês sabem, é o doidão que aqui acolá traz umas maluquices para este espaço. Já publiquei dois textos do peste. O  ELA e o BIÃO E A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS. O danado gosta de pegar no pé de escritores. Depois do Machado, hoje ele achou de mexer com o Sr. Luís Fernando Veríssimo. Trouxe-me o SEBO, gostosa crônica do filho de seu Érico Veríssimo.

A prosa refere-se a um escrevinhador que sai estrangulando quem adquiriu um livro dele. Tudo porque o zeloso escriba não quer que ninguém se depare com um cacófato escancarado no texto. O escritor localiza o comprador do último exemplar do livro e o estrangula. O comprador, naturalmente. Fernando não dá o nome do morto, mas o Bião diz que o adquirente estrangulado é ele, o Bião. Estrangulado, vírgula, já que estrangulado o Bião não foi. “Tô vivinho aqui pra contar a história, Tião”, disse-me o morto vivo. O Bião se diz amigo do Luís Fernando, costumavam tocar saxofone junto, por isso o amigo omitiu-lhe o nome e alterou o desfecho do imbróglio. Não acredito nessa amizade, pois o Bião mente mais do que cachorro de prear.

Bom, vamos à suculenta prosa do Sr. Luís e em seguida às mentiras do Bião.


SEBO

O homem disse o próprio nome e ficou me olhando atentamente. Como alguém que tivesse atirado uma moeda num poço e esperasse o "plim" no fundo.
Repeti o nome algumas vezes e finalmente me lembrei. Plim. Mas claro.
- Comprei um livro seu não faz muito.
Ele sorriu, mas apenas com a boca. Perguntou se podia entrar. Pedi para ele esperar até que eu desengatasse as sete trancas da porta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

MICROCONTOS

Recebi algumas mensagens de louvor aos microcontos publicados na abertura da postagem Factoides da Fogosa Fifi. Pena que a satisfação tenha chegado por imeio, visto os signatários não terem conseguido enviá-las pelo blogue, e assim compartilhá-las com vocês.  A dificuldade em  postar comentários, gente, tem sido recorrente em imeios enviados pra mim. Já pesquisei as ferramentas do blogue, repesquisei, fiz de tudo e não encontrei nada que impedisse o leitor de postar o comentário. Por que algumas pessoas conseguem e outras não é um grande mistério.
Duas leitoras pedem que eu publique alguns microcontos de minha autoria. Tenho poucos, conto-os nos dedos, minhas nobres.
O microconto requer leveza, concisão, precisão, originalidade, impacto, inteligência. Exige, pois, tudo de que não sou capaz.
O microconto precisa cativar o espírito do leitor a fim de que ele, o leitor, seja cúmplice do escrevinhador e deste aceite a extrema subjetividade do reduzido número de palavras. Habilidades distantes de mim.
O microconto requer uma prosa beijoqueira, sedutora, carinhosa. Como imaginar tais atributos num caipira das letras?
Agora, não resta dúvida de que "bolar" um  microconto é agradável exercício de percepção. Espero de você, leitor, tão doce atividade. Mande-me seu microconto (pelo blogue ou por imeio) que terei a satisfação de publicá-lo.
Tomei uma decisão: doravante iniciarei as postagens com microcontos, beleza? Mas nem sempre meus, tá certo, minhas nobres? Começaremos com quatro. O mais famoso, o do Monterroso, um que peguei na internet, outro de uma leitora, identificada, a pedido, apenas por MR, e por último o de minha autoria. Vamos a eles? Ah, certos autores dão títulos aos microcontos, outros não. Pertenço ao segundo grupo.

- Quando acordou o dinossauro ainda estava lá (Monterroso).

- Gosta de português? 
Portuguesa (Preferência masculina, Rubo Medina, Canto do Escritor).

- Sedutoramente, sorvia o duro picolé. Descontrolado, derretia-se, sim, o embevecido observador (MR).

- Oh! Nossa! Caramba! E nós nem nos... (Tião Carneiro).

Até mais ver,

Tião

sábado, 3 de dezembro de 2011

JORNAL DO PORCO E O GALO DO PEDRINHO



Olá, gente,
Fez um mês ontem que estamos batendo papo. Então pensei em redigir este informativo sobre as atividades do Pocilga, ao mesmo tempo em que postarei uma prosinha presente no Intuitor Bião, meu próximo livreco. Vamos nessa?

1. Fizemos 14 postagens. A primeira foi Meus Avalistas, a última, As Armas do Dr. César. As três mais lidas foram, pela ordem, O Triste Fim de um Livro, Literário Convite e O Homem de Branco. Na rabeira estão E a Fifi, hein! e Bião e a Carteira de Machado de Assis (pobre Machado).

2. Ninguém me mandou texto algum para publicação. Até os comentários têm sido escassos. O convite está de pé. Estou aguardando.

3. Estou numa sinuca de bico acerca da qualidade das prosas. Algumas pessoas entendem que as danadinhas estão demasiadamente informais, desprovidas de conteúdo, carentes de entrelinhas. Outros leitores as veem rebuscadas, densas, cheias de entrelinhas indecifráveis. E agora? Sabem o que acho? Que os dois grupos estão doentes do mal do século: preguiça de pensar. Porque não pensa, o primeiro nada apreende; porque pensa que está pensando, quando, na verdade, está tão somente divagando, o segundo me classifica de indecifrável. Só que os dois segmentos estão certíssimos: compete a cada leitor o entendimento do que leu (isso é que é política do escorregão, não é?).

4. Em 21 de novembro, na postagem Escrever: Castigo ou Consolo, redigi este parágrafo. “Querem uma prova da infantilidade? Estou me dando conta, e espero o devido perdão, de franciscana carência estilística nesta prosinha. Falta-lhe um negocinho pra lá de comum, uma liga morfológica, um ão nosso de cada dia. Todos os textos o usam, mas a obtusa mente deste acriançado o aboliu. Já tinha percebido o aborto sintático, minha nobre?” Aí, meu nobre, peço-lhe que diga o que é tão comum nos escritos, mas que ausente naquela postagem. Ninguém embarcou na brincadeira. Sabe o que é? Bom, darei a resposta no fim deste post. Se quiser dar uma olhadinha no Castigo ou Consolo ainda dá tempo.

5. Vejamos o texto de o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. Bião pega uma antiga piada, veste-a literariamente e vale-se da análise dela para mostrar ao leitor a diferença entre escritor e intuitor. A piada chama-se O Pato e o Menino. Bião dá-lhe o nome de O Galo, o Menino e o Homem. Divirtam-se:

O Galo, o Menino e o Homem

 

A casa de D. Aurora estava desguarnecida de tudo. Então ela pegou um galo e pediu ao filho, o Pedrinho, que fosse ao centro tentar vendê-lo. Venderia o galo e compraria feijão, farinha e outros mantimentos para fazer o almoço. “Mas venha logo, meu filho. Não vá ficar batendo pernas por aí não, viu?”.
Pedrinho balançou a cabeça, botou o frango debaixo do braço e saiu.
Arteiro todo, Pedrinho fazia aqueles galinhos com tanta perfeição que não tinha quem dissesse que o bicho era de brincadeira. Pedrinho anda por uns vinte minutos, oferece o penoso a cinco pessoas e nada de vender. Aí, ao passar no iotão duma casa de taipa, escuta uns gemidos estranhos. Ele para, assuntando, e vê uma janela aberta. Então o espevitado apoia as mãos no parapeito, dar um pulinho e fica de boca aberta com a presepada: um casal fazendo amor em cima duma cama.
“Mas óia só!