quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

BAR-TE-PAPO NATALINO

Vejamos os microcontos da postagem de hoje.


1. Pediu caranguejo. Marido trouxe.  Ao abrir a embalagem, berrou. “É siri! Não quero”.  Marido: “Amor, siri é caranguejo melhorado, coma!” (Rubo Medina, Canto do Escritor).

2. Por que não me abraçam, não riem pra mim, não me chamam pra mesa? Só porque tô descalço nem trouxe presente? Ninguém merece! (Tião).

BAR-TE-PAPO NATALINO

Renato chegou ao Parlamento Bar e começou a praticar seu esporte preferido. Pensaram em levantamento de copo e arremesso de piúba? Maldosos, vocês, não! O esporte predileto do Renato é observar. Conjugado a alguns levantamentos, naturalmente. Naturalmente que geladamente. Certos levantamentos, quando quentes, segundo o Renato, nunca descem redondos.
O Parlamento é excelente ponto de observação. Gatos e gatas abundam por lá. Cachorros e cachorras também. Bem-te-vis, galos-de-campina e pardais brindam os cliente com verdadeiras sinfonias. Alojam-se nas castanholas do canteiro e pegue cantoria.
Aboletado numa mesinha do canteiro, Renato pede uma gela à Vanessa e curte esse cenário. Nisso aparece um gatinho branco, dourada cordinha adorna-lhe o pescoço. O bichano passa por ele, olha-o de relance, para. Fica cerca de trinta segundos olhando fixamente para o Renato. Já viveu essa experiência, leitor? Chega a embevecer e a incomodar, não é? Parece que o animal quer nos dizer algo. É impressionante! Bom, Renato dá-lhe um sorriso de cumplicidade e levanta o polegar. O Gato eriça os pelos, abana o rabo e vai embora.
Renato desvia a atenção
para um casal que se acomoda na mesa vizinha. Ele, agitado, tenso, nervoso. Ela, serena, calma, tranqüila. Diz ela ao rapaz que precisam resolver aquele imbróglio. Não demora dez segundos para Renato reconhecê-la, pois sempre que estava ali obserbebendo a bonitona aparecia. Nunca lhe acompanhava o mesmo homem. Invariavelmente, procurava sentar-se ao redor de Renato.  A moça é extremamente feminina, absurdamente linda, escandalosamente sensual, de voz dengosamente doce. Quanto ao Renato...
“Podes, Renato, elevar tua imaginação ao cubo que ainda será insuficiente pra quantificar a beleza, a inteligência e a doçura dessa moça. Estás a fim dela, não?”, disse-lhe aquele sujeito, falando alto, fixando os olhos na moça, estendendo a mão pro Renato, puxando uma cadeira, sentando-se e pedindo a Vanessa uma taça de vinho.
Desculpe, amigo, mas você me conhece? Como é que sabe meu nome? Que negócio é esse de elevar minha visualização ao cubo? Você parece desequilibrado. Tá louco, meu? Renato foi contundente na repreensão, a fim de mostrar ao casal que não compactuava com a postura inconveniente do desatinado.
“Só estás certo em chamar-me de amigo. No mais, cometeste duas impropriedades.”
“Primeira: não estou aqui a negócio. Estou em missão.”
“Segunda: não falei em visualização. Falei em imaginação, meu amigo. São coisas diferentes, Renato. Imaginar é visualizar aquilo que ainda não conheceste. Visualizar é imaginar aquilo que já conheceste. Se só faz dois minutos que viste a moça, como podes visualizá-la? Porque poderes me foram outorgados, eu sim, posso visualizá-la. Acompanho Maria há 29 anos, 28 dias, 4 horas e 18 minutos. É claro que podes imaginá-la feminina, linda, sensual e doce. Uma gata, no linguajar de vocês. Só não podes visualizá-la. Refiro-me, naturalmente, ao sentido em que estás a pensar, o do prazer sexual. Mas a imaginação do prazer, qualquer que seja a origem, é a fonte de tudo, estás a entender, Renato?”
Eu a conheço, sim, moço! Não conto as vezes que a vi aqui. Você quer dizer que a origem da gente é o prazer e que tal prazer, a fonte de tudo na vida, nasce da imaginação? É isso, mesmo, seu, seu...
“Nazareno, Renato. É isso mesmo. Mataste a pau, meu. Mas não conheces essa moça, não, Renato. O nome dela é Maria. Quem costumas contemplar aqui no Parlamento é a irmã gêmea da Maria, a Miraia. Sabias que a Maria é pu...”
Bicho, exclamou o Renato, quase cochichando, sem querer ouvir a última sílaba do palavrão. Você é doido de pedra, cara. Pelo amor de Deus, fale baixo, caso contrário esse baixinho vai nos encher de porrada. Você chega a minha mesa, não se apresenta e começa logo a falar barbaridades, rapaz? Dizer que a moça é puta é demais. Vou mudar de lugar. Quer me meter em encrenca, homem de Deus! Outra coisa, continuou o Renato, aliviado e atônito com o comportamento do casal: parecia que o maluco não havia falado nada, tal a indiferença deles. Outra coisinha, repetiu, qual é a diferença entre imaginá-la e visualizá-la?
“Calma, Renato”, exclamou o indiscreto, segurando-lhe o braço. Só então o Renato pôde avaliar direitinho aquela criatura. A figura deveria ter entre trinta e três e trinta e cinco anos. Era alto, rosto comprido, barba cerrada. O olhar era impressionante. Era firme, era penetrante, era sincero, era sereno, era amoroso, era... Nunca achara macho bonito, mas aquele aluado, senão bonito, mas fascinante era.  É o que as mulheres chamam de gato, pensou o Renato.
“Sossega, Renato. Concede-me um travessão? Quero te dizer uma coisa.”
Você tem uma maneira bem esquisita de pedir a palavra.  Nunca ouvi isso. Concedo-lhe o travessão, sim.
- É o seguinte. Imaginar é visualizar aquilo que ainda não conheceste. Visualizar é imaginar aquilo que já conheceste. Como conheço a Maria de cabo a rabo, posso visualizá-la e chamá-la de pura. Pura! Falei pura, não puta. Compreendeste bem, Renato? Tu não a conheces, por isso só podes ter a primeira imaginação.
Muito bem, agora vou te dar um beijo de despedida e bater um papo com o acompanhante de minha afilhada pra ver se ele deixa o coraçãozinho dela em paz. Antes, pega este cartão de Natal. São meus votos de felicidade a ti, aos amigos, aos colegas de trabalho e - por que não? - aos parceiros de cerveja.
Ei, cara, você não é nada criativo, né, brincou o Renato, lendo o cartão:
Feliz Natal e próspero ano-novo.
Outra coisa, sabichão, que papo é esse de me dar um beijo? Sei não, bicho, mas...
Você é... é... é... Gay?
Que conversa é uma, Renato? Perguntei se queria outra cerveja, e você me responde, num tom escancarado de preconceito, se sou gay? Qual é, Renato, indignou-se a Vanessinha.
Falei com você não, Vanessa. Falei com o esquisitão aqui. Cadê ele? Cadê o casal dessa mesa? Cadê o cartão de Natal que estava aqui?
- Chega, Ricardo, Renato tá delirando. Não havia ninguém com você, Renato, tampouco havia casal nessa mesa, seu aluado.
Renato sorriu amarelo, pagou a cerveja, levantou-se e ficou imóvel a olhar o gatinho branco que caminhava na direção dele.
O bichano passa por ele, olha-o de relance, para. Fica cerca de trinta segundos olhando fixamente pra Renato, coça a barbicha, dá uma gargalhada em forma de miado e afasta-se, faceiro.
Renato coça o queixo, dá um miado em forma de gargalhada e vai pro carro, matutando e feliz com a ideia que acabara de ter após a conversa com o esquisitão.
Tenho papo pra noite, pensou Renato. Venho pra cá, aí provarei ao Ivanildo, agnóstico todo, a existência do Criador ou outro nome que se queira dá ao Manda-chuva. Sexo e imaginação, Ivan, constituem a prova de tudo, direi. É impossível não antever a Presença Infinita no ato de geração do ser humano. Do contato físico entre um homem e uma mulher vir ao mundo outro homem ou outra mulher é algo transcendente, axiomático. E axioma é como sentença judicial, aceita-se e cumpre-se.
E o que há por trás desse milagre, senão o prazer proporcionado pelo sexo? Por que a humanidade não se extinguiu na primeira geração? Sabe qual foi o pulo do gato, meu caro Ivan? A imaginação. Se homens e mulheres são anatomicamente iguais, sem a imaginação antecedente do prazer carnal não haveria motivo para continuar a se esfregarem, pois o tédio os abraçaria, não é verdade? Acha você que depois dos coitos da primeira geração, rolaria alguma pegação caso a galera não ficasse imaginando os momentos do sublime néctar? Duvido dê o dó!
Então, como acabei de dizer, meu caro Ivan, Deus, o Criador, seja qual for o nome que lhe demos, seja adorado em templos distintos, seja no Ocidente, seja no Oriente, esse Cara, Ivan, repito, reside na imaginação agasalhada em nossa mente. Deus está em nossa imaginação. Melhor ainda, Ivan: Deus é a própria imaginação. Deus é mental, sacou, Ivan?
Ah, você está simplesmente dizendo, Renato, que somos racionais, daí sentimos prazer etc. etc. etc. grande novidade, dirá o Ivan. Aí eu pego a historinha da imaginação/visualização do barbudo e entro de sola nele:
Sabe, Ivan, visualizar é imaginar o que conhecemos. Imaginar é visualizar o que não conhecemos. Visualizamos o prazer sexual de quem somos parceiros, visualizamos o prazer de um jogo de futebol que a ele assistimos, visualizamos o prazer de um bocado de coisa, correto? Mas ficamos doidos pelo repeteco, ou seja, ficamos imaginando. Entenda, Ivan. Já conhecemos a genitália, os artistas da bola, os atores da peça, mas não conhecemos o prazer do porvir. A origem de tudo – até porque na ausência dele não estaríamos aqui - é o prazer supremo, o sexual, tanto que nos comprazemos apenas com a imaginação, sem o correspondente... Entendesse, ou quer que desenhe, Ivan?
Renato anteviu o riso irônico e o deboche verbal do Ivan:
Quanta babaquice, Renato.
Renato estava abrindo a porta do carro quando ouviu a voz:
“Renato, Renato! Estás pensando em que, homem, pra ficar assim tão longe?”
Renato virou-se e viu a escultural mulher. Será a Maria ou a Miraia? Ah, tanto faz:
Tô imaginando você.

É isso, boas festas pra vocês e até mais ver,

Tião