terça-feira, 27 de dezembro de 2011

É NADA!


MICROCONTOS DA POSTAGEM


Puseram os bichos para brigar, e a cobra comeu a aranha. (Erótica, Recanto da Letras – 10-11-2011)

Brigaram tanto que ela morreu ensanguentada, mas abraçada. Verdade, foi? Mentira, meu! Daí a um tempinho tornaram a se agarrar. (Tião)

É NADA!

É com essa expressão que o meu amigo, o Gordo, cumprimenta a galera quando tá meio bicado. Bastam-lhe duas lapadas da água que passarinho não bebe e lá vem o bafejo do “é nada!” Um dia eu perguntei ao Gordo o que ele queria dizer com aquilo. Ele me olhou enviesado, já meio “zanoio”, emborcou uma larga, passou as mãos nos beiços e arrotou: “É nada!”
Ri da sentença. Duas palavrinhas e lá estava eu a rir descontroladamente. O poder das palavras é fogo, meus nobres. Ele libera a emoção e destrava a imaginação. A bem da verdade, a palavra em si é neutra. A palavra só adquire poder no papel de porta voz do estado mental. Ódio e amor sem os correspondentes estados mentais são meros vocábulos. “Nada”, porém, parece-me sentimentalmente fria, morna, quando muito. Não existe estado mental que a faça sobressair. É interessante a conexão entre palavra, estado mental e poder.
Como pressentimos o indivíduo que acabou de ouvir a palavra ódio? Depende do momento mental do ouvinte. Você, por exemplo, se leu em voz alta a frase de abertura deste parágrafo, talvez até esteja rindo de minhas besteiras, daí o semblante de paz, em que pese o “ódio” do primeiro período. Porém... Bom, imagino de prazer o estado mental de quem está lendo um livro, da mesma forma que de fúria de quem injustamente ouviu um desaforado “idiota”. Não lhe desejo o último exemplo, mas... Como seria sua fisionomia? Olhar aterrorizante, voz alterada, corpo tenso, não é verdade? E como estaria seu rosto ao ser chamado de amor? Olhar meigo, voz melosa, corpo relaxado, não é isso? Perceba o poder mental nas duas situações. Na do “idiota”, até de esmurrar você seria capaz. Na do “amor”, amar seria sua obsessão, concorda?
A regra geral é essa, meus nobres. Por que geral? Veja o seguinte. A menos que o indivíduo seja mentalmente desequilibrado, é razoável admitir que vivemos num estado mental neutro, digamos assim. Quer dizer, não estamos permanentemente raivosos, tampouco, deslumbrados. No raivoso será praticamente nula a reação ao ouvir palavra amor. Igualmente no deslumbrado a reação ao ser tachado de idiota. O normal, pois, é este encadeamento: ouve-se a palavra, aciona-se o gatilho do estado mental, aflora-se o poder.
Agora o que lhe acontece ao ouvir o substantivo “sexo”? Aliás, nem precisa ouvi-lo, basta imaginá-lo. A visão é sua, certo? Tenha-lhe bom proveito. Quando escrito, o desavergonhado do “sexo” ainda tem uma agravante. O “x”, pessoal. O “x” de sexo é erótico pra caramba, não? Agora, diga-me. O que enxerga você ao escutar o dissílabo nada? Nadica de nada, não é mesmo?
Sabe de uma coisa, meu nobre. Esse negócio de escrever é cheio de armadilhas. Daí, por detestá-las, jamais serei escritor. Percebeu a fuga do tema desta crônica. A intenção era falar do Gordo e do “nada” da frase dele. Aí, do nada, apareceu essa história do poder das palavras. Não sei se lhe dou o crédito pela liberação da capenga veia literária, ou o débito pela maldita prolixidade. Fica o registro, embora nada conclusivo.
“Nada” já nasceu de bisaco vazio, sem um pingo de sorte, coitado.  Vou até interromper este vácuo de prosa a fim de lhe explicar essa história do bornal seco do desditoso Nada. Foi assim.
Nosso amigo Al-khwarizmi — daí o termo algarismo — árabe porreta em matemática, bolou os dez algarismos nesta ordem: 1,2,3,4,5,6,7,8,9,o. Como veem, o azarado zero era bem pichototinho e ficava à direita dos colegas, no fim da fila. Então o Nada e o Zero começaram um movimento meio que na surdina. A ideia era subverter a ordem institucional, pondo o Nada como algarismo. O Zero se tornaria grande, e o Nada ficaria no lugar dele, porém minúsculo. O grande Al soube do conluio, reconheceu que tinha sido preconceituoso com o Zero, ao criá-lo pequeno, e tornou-o bombado. Contudo, como represália ao manifesto subversivo, posicionou o Zero à esquerda dos confrades, no começo da fila. O infeliz do Nada dançou feio. Al disse que não precisava dele pra nada. Talvez você não saiba, mas vieram daquele tempo, meu nobre, as expressões “zero à esquerda” e “subverter a ordem”.
Como o bom cabrito não berra, o Nada ficou na sua, quer dizer, na dele, na esperança de uma brecha algaritma para poder entrar na corporação. Por nada deste mundo o Nada perdia uma convenção numérica. A oportunidade surgiu na eleição das 7 Maravilhas do Mundo.
Vou dar uma resumida nos bastidores daquela eleição.
O criador das 7 Maravilhas do Mundo — desculpem, esqueci o nome do aloprado —  era um mecenas meio alienado e pervertido todo. Queria porque queria um número par de Maravilhas, mas que fosse representado apenas por um dígito. Estão entendendo a ideia do bossal?
O folgado pensou no 6, mas o julgou gorduchinho na traseira, aboiolado. Descartou o 8 por lhe parecer uma mocinha com as mãos na cintura. O 4 ele achou cambeta. Pela minúscula expressão, além do jeitão de anzol, abandonou o 2. O jeito foi analisar os ímpares. Aí o doidão olhou o 9, assombrou-se com a cabeça do bicho e acabou com a esperança de o 9 ser maravilhoso: “9 fora zero” foi a lapidar e histórica sentença do piradão Nisso, meus nobres, o Nada, que assistia a tudo de camarote, chegou pro excêntrico magnata e falou:
“Dá licença, doutor? O senhor poderia me catalogar como algarismo e me eleger maravilhoso. Eu seria o algarismo Nada, o 11, em termos simbólicos. Não seria uma excelente representação para as maravilhas do Mundo? O que o senhor acha? Quer ver o meu currículo?” O exótico mecenas olhou o currículo, deu irônica gargalhada e retrucou:
“Sabe de uma coisa, Sr. Nada? O senhor é burro ou, quando nada, nada inteligente. O senhor não está vendo que não posso elegê-lo como indicador das Maravilhas do Mundo? São quantas as Maravilhas do Mundo? Nada.  Já percebeu, Sr. Nada, quão ridícula é essa resposta? Mas sua data de nascimento me deu uma ideia”, riu o pirado, convocando o 7 para a exposição. O 7, minhas nobres, nasceu em 7 do 7 de 77. Daí a ideia do pirado.
O esquisitão achou o 7 magricela e pálido. Então o pintou de vermelho — o ditado “fulano pintou o 7” acabava de nascer —, engrossou-lhe a perna, pôs um traço no meio dela, como marca de virilidade (sinal ainda hoje cultivado por muita gente ao escrever o 7), e abriu-se em sorrisos. O 7 acabava de ser eleito as 7 Maravilhas do Mundo.
Mas se engana quem supõe que a coisa foi pacífica assim. Não lhes conto o resto da história porque não quero me alongar. Além do mais...
Quer saber? Narrarei o final. Quem não quiser ler que não leia. Não tô nem aí. Também vocês não perderão nada mesmo!
A coisa não foi pacífica assim, dizia eu.
Sucedeu o seguinte. Enciumados por terem sido renegados, o 6, o 8, e o 9, sob a batuta do Nada, fizeram a cabeça de outros algarismos, uniram-se e formaram números. “Unidos jamais seremos vencidos”, era a palavra de ordem. Além disso, espalharam pela numerada que o 7 era traíra e que as contas de resultado 7 eram mentirosas (7 é conta de mentiroso surgiu naquele evento). Só quem não entrou na onda dos despeitados foi o 10. O 7 ficou eternamente grato pelo gesto do 10. É por isso que quando uma pessoa é legal, a gente costuma dizer que o cara é 10.
O 7, gente, agora poderoso, ficou fulo da vida com a manobra do Nada. Mandou prendê-lo. Qual nada! Nosso subversivo sempre dava um jeitinho de escafeder-se. Desaparecia do nada. Foi aí que o 7 teve uma idéia maravilhosa. Mandou trancafiar o Reverendo Tudo. O escorregadio Nada estaria, forçosamente, na companhia do Tudo. Entenderam a manobra do 7? “Prenderemos o Tudo e teremos o Nada”, disse o 7. “Belíssima tática, chefe. É tudo e Nada”, concordou o puxa-saco do 2. O futuro trocou o “e” pelo “ou” e deu origem ao “é tudo ou nada”, locução atualíssima, principalmente no meio político partidário.
Conclusão: botaram o peste do Nada no xilindró.
“Nada a declarar, nada a declarar” era essa a cantilena do Nada. Tudo se passou assim, pessoal.                            
Senti um ofegado nas costas. Virei-me. Dei de cara com o Gordo corujando esta prosa. Que susto, Gordo!
“Não tens nada pra fazer não, bicho? Que texto mais oco!”, criticou ele.
 “Como teste de mediocridade, porém, tua prosa não deixa nada a desejar. Não devias brincar com literatura, amigão. E impossível fazer literatura do nada, meu. Queres dar uma de escrevinhador? Então deves procurar temas de conteúdo, senão poético, mas sério, ao menos. Vou te fazer uma pergunta. O nada existe ou é mera expressão linguística?
“Se o nada é simples expressão linguística, e estas, como disseste, representam quadros mentais, então o nada existe. Pelo menos na mente de cada pessoa, correto?
“Ou será que o existir mental não significa existência física? Mas se tudo real começa com a imaginação, vale dizer, com o existir mental, e o nada, como há pouco proseaste, está dentro desse tudo, então o nada existe fisicamente. O nada é existência, portanto. A indagação, meu nobre, como diz tu, muda de direção. A pergunta é: o que é existir? Agora veja. O nada, o vácuo e o vazio são...
“Sabe de uma coisa? Eu, no teu lugar, convocaria um filósofo para falar dessas coisas. Caso não queiras a opinião do filósofo, podes pedir a apreciação de um poeta. Dos dois, sugiro. De um poeta-filósofo ou de um filósofo-poeta seria bem melhor. Pede, ainda, aos teus benevolentes leitores que não procurem nada de valor neste bizarrento escrito, tá ligado?”
Você não é nada incentivador, meu nobre Gordo, mas acatarei a sugestão. Valeu! Obrigado!
É nada!

            Até mais ver,
           
            Tião