sábado, 3 de dezembro de 2011

JORNAL DO PORCO E O GALO DO PEDRINHO



Olá, gente,
Fez um mês ontem que estamos batendo papo. Então pensei em redigir este informativo sobre as atividades do Pocilga, ao mesmo tempo em que postarei uma prosinha presente no Intuitor Bião, meu próximo livreco. Vamos nessa?

1. Fizemos 14 postagens. A primeira foi Meus Avalistas, a última, As Armas do Dr. César. As três mais lidas foram, pela ordem, O Triste Fim de um Livro, Literário Convite e O Homem de Branco. Na rabeira estão E a Fifi, hein! e Bião e a Carteira de Machado de Assis (pobre Machado).

2. Ninguém me mandou texto algum para publicação. Até os comentários têm sido escassos. O convite está de pé. Estou aguardando.

3. Estou numa sinuca de bico acerca da qualidade das prosas. Algumas pessoas entendem que as danadinhas estão demasiadamente informais, desprovidas de conteúdo, carentes de entrelinhas. Outros leitores as veem rebuscadas, densas, cheias de entrelinhas indecifráveis. E agora? Sabem o que acho? Que os dois grupos estão doentes do mal do século: preguiça de pensar. Porque não pensa, o primeiro nada apreende; porque pensa que está pensando, quando, na verdade, está tão somente divagando, o segundo me classifica de indecifrável. Só que os dois segmentos estão certíssimos: compete a cada leitor o entendimento do que leu (isso é que é política do escorregão, não é?).

4. Em 21 de novembro, na postagem Escrever: Castigo ou Consolo, redigi este parágrafo. “Querem uma prova da infantilidade? Estou me dando conta, e espero o devido perdão, de franciscana carência estilística nesta prosinha. Falta-lhe um negocinho pra lá de comum, uma liga morfológica, um ão nosso de cada dia. Todos os textos o usam, mas a obtusa mente deste acriançado o aboliu. Já tinha percebido o aborto sintático, minha nobre?” Aí, meu nobre, peço-lhe que diga o que é tão comum nos escritos, mas que ausente naquela postagem. Ninguém embarcou na brincadeira. Sabe o que é? Bom, darei a resposta no fim deste post. Se quiser dar uma olhadinha no Castigo ou Consolo ainda dá tempo.

5. Vejamos o texto de o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. Bião pega uma antiga piada, veste-a literariamente e vale-se da análise dela para mostrar ao leitor a diferença entre escritor e intuitor. A piada chama-se O Pato e o Menino. Bião dá-lhe o nome de O Galo, o Menino e o Homem. Divirtam-se:

O Galo, o Menino e o Homem

 

A casa de D. Aurora estava desguarnecida de tudo. Então ela pegou um galo e pediu ao filho, o Pedrinho, que fosse ao centro tentar vendê-lo. Venderia o galo e compraria feijão, farinha e outros mantimentos para fazer o almoço. “Mas venha logo, meu filho. Não vá ficar batendo pernas por aí não, viu?”.
Pedrinho balançou a cabeça, botou o frango debaixo do braço e saiu.
Arteiro todo, Pedrinho fazia aqueles galinhos com tanta perfeição que não tinha quem dissesse que o bicho era de brincadeira. Pedrinho anda por uns vinte minutos, oferece o penoso a cinco pessoas e nada de vender. Aí, ao passar no iotão duma casa de taipa, escuta uns gemidos estranhos. Ele para, assuntando, e vê uma janela aberta. Então o espevitado apoia as mãos no parapeito, dar um pulinho e fica de boca aberta com a presepada: um casal fazendo amor em cima duma cama.
“Mas óia só!
Puxa-vida, eu pensava que essa arrumação só tinha de noite”, pensou, depois de dar outro pulinho na janela. Aí o pestinha coça o queixo, olha pra cima, matuta, esboça um risinho, pula a janela, bate duas vezes no ombro do homem e oferece o galo:
— Moço, quer comprar esse galo?
“Mais que porra é essa! Como entrou aqui, guri? Tá maluco, garoto?”, berrou o homem, subindo a ceroula e antevendo que o serviço iria ficar incompleto.
— Entrei pela janela, moço. Tava aberta. E não tô maluco não, viu? Quem tava berrando era o senhor.
“Sai daqui, fedelho. Isso é lá hora de vender bexiga de galo, menino cabido”, esbravejou a mulher, ajeitando as calçolas e colocando as mãos sobre os seios. “Vai! Vaza!”          
Nisso, a mulher, D. Messalina, escuta a zoada da moto do marido.
 “Ricardinho tá chegando. Meu Deus! Pra debaixo da cama. Os dois, rápido! Vamos! Vamos!”
            — Já chegou, Ricardinho? Que foi, homem? Tá sentindo alguma coisa?
— Tô com uma puta dor no pé da barriga, Messalina. Num é dor de ir fora não, sabe? É só o bucho inchado. Acho que é por causa dos ovos que comi com batata. Bote esse troço aí em cima da cadeira que eu vou me sentar um pedacinho na cama.
Enquanto isso, debaixo da cama, o menino e homem sussurram...
— Ei, moço! Deu pra rolar alguma coisa? Ei, moço! Tá vendo o revóve do home em cima da cadeira? Ave Maria! Mas o outro trabuco dele tá peidando pra burro. Ei, moço, moço...
           — Que foi, porra?
           — Me compre esse galo. Ele canta que é uma beleza. Só num tá cantando agora por causa que eu tô segurando o pescoço dele, tá ligado? Vendo bem baratinho, uma galinha morta.
           — Eu quero lá comprar bexiguento de galo, cabrito.
           — Então eu vou afroxar o pescoço dele, tá ligado?
           — Espera! Espera! Quanto é a merda desse galo?
           — É cem cruel.
           — Cem cruel! E você ainda diz que é uma galinha morta? Toma! Mas segura o galo aí. Não solte o pescoço dele. Quando a gente sair daqui você me dá.
           — Se a gente sair, né, moço?
            Enquanto isso, em cima da cama, D. Messalina, doida pro Ricardinho dá uma escapadinha, apresenta uma sugestão, seguida duma indireta pro Ricardão:
— Acho melhor você tomar um banho, Ricardinho. Segure a onda aí embaixo.
           — Que droga de banho, Messalina! Já visse cacete de banho servir pra bucho inchado, muié? Agora tá até me dando uma dor na testa. Parece que a testa vai se abrir. Faz um chá de boldo, Messalina.
Enquanto isso, debaixo da cama, o cochicho corre solto...
— Ei, moço, moço...
— Que foi agora, infeliz?
           — Que peidaria danada de fedorenta é essa, moço? Esse tal de Ricardinho peida pra chuchu, moço. Sabe, moço, já que eu tô segurando o seu galo, quer vender ele?
— É claro! Pra que eu quero bexiga de galo? Me dê os cem cruel que o galo é seu.
— Dou dez cruel, tá ligado?
— Tá biruta, menino? Você acabou de me vender o galo por cem cruel e agora quer me comprar por dez? Nada feito.
— Então eu vou afroxar o pescoço dele, tá ligado?
— Tá bom, tá bom. Tá vendido, seu bexiguento. Mas pare com essa porra de tá ligado.
— O moço tira de cem? Tem noventa cruel aí?
— Tenho não, idiota. Quando a gente sair daqui você me dá.
— Se a gente sair, né, moço? Sabe moço, acho que vou fazer um finca pé e pular a janela. Não aguento mais essa catinga não, moço! Mas aí eu não posso levar o galo. O senhor quer comprar o galo de volta ou quer que eu solte ele aqui? Vendo baratinho, uma galinha morta.
— Mas que droga! Isso é um inferno! Compro pelos mesmos dez que vendi, seu ladrãozinho.
— É cento e dez cruel, moço. O moço desconta os dez que eu devo e me dá cem cruel.
Enquanto isso, em cima da cama...
— Beba o chá, Ricardinho. É boldo com ameixa. Santo remédio pra limpar as tripas.
— Vou tomar, Messalina. Vou até olhar se tem algum jorná velho aqui por debaixo da cama pra mim levar pra latrina.
— Não! Fiz uma faxina e botei tudo no lixo. Mas eu botei papel na privada.
Durante o tempo em que o Ricardinho esperava pelo efeito do chá, a compra e venda do galo continuava. O moleque do Pedrinho já estava embolsando seiscentos cruéis quando o Ricardinho fez carreira pro quintal, onde se localizava a latrina.
“Saiam, saiam logo”, implorou D. Messalina.
“Mas esse seu marido peida, viu D. Messalina”, disse o Pedrinho, galo nos braços, pegando o beco, ao mesmo tempo em que o homem tentava alcançá-lo a fim de pegar a grana de volta.
Pedrinho dá um pitu no homem e vai dar de cara com uma turma jogando biloca. Bota o galinho num canto e fica lá: “Cavalo ou bila, cavalo ou bila, cavalo ou bila”. Só vai embora depois de trinta minutos, os bolsos entupidos de bilocas. Quando contorna o quarteirão, avista D. Messalina de mãos dadas com um homem.
“Mais óia só a tal da Messalina com o tal do Ricardinho”, diz ele, aproximando-se, já bolando uma sacanagem.
— Ei, moço, me compre esse galo. Vendo baratinho, verdadeira galinha morta...
— Pra que diacho eu quero galo, garoto?
— Prum bocado de coisa, moço. O moço tá melhor? Parece que...
“Vamos comprar”, cortou D. Messalina, numa palidez só, fitando bem o rosto do chantagista Pedrinho. “Dá pra gente jantar e almoçar amanhã”.
— Quanto é esse bicho, menino?
— Só cinquenta cruel, moço. Uma galinha morta, né não?
— Dou nada! Você é doido, é? Quem já viu um frangote desses por cinquenta cruel! E eu tava doente de quê? Num perguntou se eu tava melhor?
— Ué, o moço não chegou...
— Compre, querido. O galo tá até gordinho. Acho que vale. E eu... Eu... Eu, nem queria falar nisso agora, mas ando meio enjoada, Ricardinho, e quando vi esse galo me deu uma vontade danada de...
— Ah, Messalina! Tá desejando, é? Meu Deus! Que bom, Messalina! Vou comprar, mas não vá saindo por aí dizendo que pegou um trouxa não, viu, seu desgraçado? Pegue o dinheiro. Agora me diga. Eu tava doente de quê? E não cheguei o quê?
Pedrinho socou o dinheiro no bolso e saiu-se assim:
— Ué, o moço não chegou aqui coçando a testa? Sua testa parecia um camarão de tanto vermelha. Aí eu perguntei se o moço tava melhor, porque parecia que tava nascendo uma pereba na testa do senhor. Entendeu agora? Mas sua testa tá bem melhor, tá ligado?
Pedrinho foi se afastando de fininho, pensando em dar um quinau no Ricardinho...
— Ei, menino esperto, me dê o galo.
— Sim, o galo! Sabe, moço, se eu chegar em casa sem esse galinho minha mãe me mata duma surra. Ela é uma jararaca de braba. A senhora já viu uma jararaca, D. Messalina? Daquelas da cabeça esfolada, a senhora já viu?
— E o que é que a gente tem a ver com a jararaca da sua mãe, moleque? Passa o frango pra cá!
— Minha mãe num tem jararaca não, moço. Ela tem medo de cobra. Quem num tem medo de jararaca aqui é D. Messalina, tá ligado? Ela...
— Me dê o frango, idiota. E você conhece minha esposa, pra dizer que ela não tem medo de jararaca? Que merda de papo mais sem futuro. Me dê o galo e se dane no meio do mundo.
“Tenha pena de mim, moço. Minha mãe vai me matar. Vamos fazer um negócio. Me venda esse galo. Dou cinco cruel por ele, tá ligado?”, falou o Pedrinho, acomodando o galo nos pés, olhando para D. Messalina.
— Que porra é uma! Esse guri é maluco, Messalina. Dá até vontade de rir. Vendo o galo não. Num viu que minha senhora tá desejando? Que tá buchuda? Cinco cruel! Além de maluco, esse pestinha é ladrão, Messalina.
— Bom, já que o moço não quer vender o galo, eu vou entregar o galo. Ah, o moço perguntou se eu conhecia D. Messalina, pra eu dizer que ela não tem medo de jararaca. Sabe, moço, D. Messalina não tem medo de jararaca porque...
“Venda o galo a esse infeliz, Ricardinho. A gente compra outro”, disse D. Messalina, trincando os dentes, quase dando um troço.
Aí o Ricardinho levantou o Pedrinho pelos sovacos e desabafou duma vez:
— Suma da minha vista, seu moleque filho da puta. Mas antes, seu sambudo duma figa, me diga por que minha senhora num tem medo de jararaca.
“Me solte, moço. Sua mulher tem jeito de índia, tá ligado? O moço já viu índio ter medo de cobra? Que estresse, home?”, respondeu o Pedrinho, apanhando o galo, jogando o bicho nos pés do Ricardinho, espalhando gesso pra tudo o que era canto, e pernas pra que te quero.
O homem...

“Pode parar, Marcão”, pediu o Bião. “A história prossegue com o Ricardinho correndo atrás do Pedrinho, mas o fragmento lido é bastante para o que quero falar.”

Então, meu nobre, aguarde o livro e apreciará o desfecho da história, tá ligado?

Ah, o negocinho comum, a liga morfológica que falta no texto de "Escrever: Castigo ou Consolo" é o que, pessoal. Não há sequer um quê no escrito. Maluquice, não?

Até mais ver,
Tião Carneiro