sábado, 31 de dezembro de 2011

O SOM DE CERTAS RISADAS


O SOM DE CERTAS RISADAS

          Esse negócio de rir é engraçado. Desculpem o trocadilho, saiu sem eu querer, gente. Agora, nada engraçado, pelo menos pra mim, é a diferença entre rir e sorrir. Segundo o dicionário, sorrir é rir sem ruído. E rir é contrair os músculos faciais, entendeu? Ainda bem que a gargalhada não deixa dúvida de que o indivíduo está sorrindo e rindo ao mesmo tempo, concordam comigo?
Mas, como estava dizendo, esse negócio de rir é engraçado. Você começa a rir, e quem está por perto se dana a rir também, né não? Sou capaz de apostar um tostão furado como está rindo neste momento. Pois então, ontem eu assisti a uma sessão de riso pra lá de engraçada. Droga, que trocadilho mais sem graça. Se bem, e pensando bem, existe o riso sem graça, não? Tá aí o riso amarelo que não me deixa mentir.
A sessão de riso ocorreu no boteco da Marluce. Marluce... Bom, já falei do barraco da Marluce neste espaço, mas é bom dar uma refrescada na conversa. O biongo da Marluce
é legal, embora ela seja amarrada pra burro. A luta é grande, minha nobre, pra gente fazer com que ela ligue o único bico de luz da frente do biombo. Biombo, barraco, boteco, botequim, pouco interessa o nome, é só a denominação carinhosa pelo qual chamo o prazeroso ambiente. O que importa é a cerva geladinha da silva e o papo da galera. A galera, na verdade, não é tão grande assim. Somos seis gatos pingados. Eu, os dois genros dela, o vizinho, o Kerginaldo e um dos piadistas da turma, o China, chamado de fecha-bar pela Marluce.
A sessão de riso, aliás, (ou crônica dura!) tem a ver com esse nosso amigo, o China. O problema, meus nobres, é que o China conta umas piadas sem graça é quer porque quer que a gente ria, tá ligado? Gente boa, o China. O sangue bom é professor de Educação Física e, dizem, bate um bolão. “Dizem, não, Tião”, disse-me, sorrindo com os olhos, a Cíntia, filha da Marluce. “Um dia desse eu passei na frente da academia que ele trabalha e o vi batendo bola. Uma bola gigante, Tião. Do tamanho de um pneu de trator, acredita?” Esbocei um risinho, pensando que aquilo era brincadeira da Cíntia, mas o Renato e o Kerginaldo foram taxativos: “É verdade, Tião. Estamos cansados de vê-lo tentando levantar essa bola.”
Bom, voltando à sessão de riso, estávamos no boteco, emborcando umas e outras, o China contando as insossas piadas. Nisso, chega um amigo do Pedrão, o marido da Marluce. O sujeito, agalegado, meio chumbado, havia ganhado uma nota no jogo do bicho. Estava bebemorando. O cara ria, mais ria, ria adoidado. O riso do sortudo, meus nobres, era engraçado demais: começava agudo, dava um silvo de alerta e terminava no mais dissonante dos sons. O bom é que o Francisco, outro péssimo contador de piadas, contava uma lorota sobre a profissão do China quando o risador chegou.
Fazendo um parêntesis, Francisco se imagina um piadista de primeira por conta da gargalhada da mulher dele, a Edvânia. A gargalhada da Edvânia, gente, é daquelas que dobram, tá ligado? Então o Francisco conta uma piada, escuta a gargalhada da mulher e pensa que ela está rindo da piada dele. Só que ela está rindo pra não chorar, sacaram?
Muito bem, o Francisco contava uma piada a respeito de academia quando o risadeiro sortudo chegou e começou a rir. Aí, começamos a rir da risada do risadeiro, mas o Francisco e o China estavam pensando que o riso vinha da piada deles, estão entendendo?  A piada, tirada da internet, suponho, até que era boa, mas... Quer saber, vou transcrever a piada pra vocês.

Por que será que é mais fácil frequentar um bar do que uma academia?

Para resolver esse grande dilema, foi necessário frequentar os dois (o bar e a academia) por uma semana.
Vejam o resultado desta importante pesquisa:

Vantagem numérica: 

- Existem mais bares do que academias.
Logo, é mais fácil encontrar um bar no seu caminho.

*1x0 pro bar.**

Ambiente: 

- No bar, todo mundo está alegre. É o lugar onde a dureza do dia-a-dia amolece no primeiro gole de cerveja.
- Na academia, todo mundo fica suando, carregando peso, bufando e fazendo cara feia.
*2x0.**

Amizade simples e sincera: 

- No bar, ninguém fica reparando se você está usando o tênis da moda. Os companheiros do bar só reparam se o seu copo está cheio ou vazio. *3x0..*

Compaixão: 

- Você já ganhou alguma saideira na academia?
Alguém já te deu uma semana de ginástica de graça?
- No bar, com certeza, você já ganhou uma cerveja 'por conta'.
*4x0.*

Liberdade: 

- Você pode falar palavrão na academia?
*5x0*.

Libertinagem e democracia: 

- No bar, você pode dividir um banco com outra pessoa do sexo oposto, ou do mesmo sexo, problema é seu...
- Na academia, dividir um aparelho dá até briga.
*6x0.**

Saúde: 

- Você já viu um 'barista' (frequentador de bar) reclamando de dores musculares, joelho bichado, tendinite?
*7x0.*

Saudosismo: 

- Alguém já tocou a sua música romântica preferida na academia? É só 'bate-estaca' , né?
*8x0.*

Emoção: 

- Onde você comemora a vitória do seu time?
No bar ou na academia?
*9x0.*

Memória: 

- Você já aprontou algo na academia digno de contar para os seus netos?

*10x0 pro BAR!!!**


A cada placarzinho desses a risada da turma dobrava. Foi hilário, gente. Juro que não sei do que a ríamos mais. Se das gaitadas do risador, se das gargalhadas da Edvânia, se da cara de satisfação do Francisco e do China.
Então aconteceu! Aconteceu, minhas nobres. Escutamos um rangido daqueles fedorentos, tá ligado? Só vi neguinho tampando o nariz e correndo pra rua. Nisso, certa pessoa cujo nome tem “a” entrou de casa adentro com as passadas bem miudinhas, segurando a coisa. Entrou, mas o rasto ficou. Ficou, mas certo “cheirinho” permaneceu. Não só o "cheirinho”, mas também o tirinete de som.
Também tampando o nariz, fiquei falando para os meus botões: se eu morresse hoje não sabia que risada emite esse tipo de som. Nem sempre o riso é o melhor remédio, pensei.
“Que coisa!”
Ouvi essa exclamação. Juro que ouvi. E era uma voz feminina. Só não deu pra saber se vinha de dentro ou de fora da casa. Mas que a voz estava com a gente antes do festival de puns, ah, isso é certo.

Um 2012 perfumado, de muitos cheiros, de centena de risos, de milhares de sorrisos, de milhões de gargalhadas. Isso é o que desejo a todos vocês.

Um abraço silencioso, cheiroso e risonho,
Tião