sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

SEBO - DO LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO E DO BIÃO



Há poucos dias, disse-lhes que iria lhes apresentar um ou dois  microcontos como aperitivo da postagem principal. Então vamos lá:
1.  OLHOU-SE NO ESPELHO...
Lembrou-se da noite anterior, lembrou-se que ele se foi  e disse pra imagem refletida: o amor acabou... Então, pensou... Às favas com ele!   Eu me sou e eu me basto. Pensou mais um pouquinho e resmungou... Só falta eu me convencer disto. E começou a escovar os dentes. (A autora do belo microconto e Zélia Maria Freire, em o Recanto das Letras).
2. Santa mãe! Até que enfim! Que solzão é um, meu Deus! Será que as cotoveladas vão valer a pena? Espero não me arrepender. Droga! Já? (Tião)

O Bião reapareceu, gente. O Bião, vocês sabem, é o doidão que aqui acolá traz umas maluquices para este espaço. Já publiquei dois textos do peste. O  ELA e o BIÃO E A CARTEIRA DE MACHADO DE ASSIS. O danado gosta de pegar no pé de escritores. Depois do Machado, hoje ele achou de mexer com o Sr. Luís Fernando Veríssimo. Trouxe-me o SEBO, gostosa crônica do filho de seu Érico Veríssimo.

A prosa refere-se a um escrevinhador que sai estrangulando quem adquiriu um livro dele. Tudo porque o zeloso escriba não quer que ninguém se depare com um cacófato escancarado no texto. O escritor localiza o comprador do último exemplar do livro e o estrangula. O comprador, naturalmente. Fernando não dá o nome do morto, mas o Bião diz que o adquirente estrangulado é ele, o Bião. Estrangulado, vírgula, já que estrangulado o Bião não foi. “Tô vivinho aqui pra contar a história, Tião”, disse-me o morto vivo. O Bião se diz amigo do Luís Fernando, costumavam tocar saxofone junto, por isso o amigo omitiu-lhe o nome e alterou o desfecho do imbróglio. Não acredito nessa amizade, pois o Bião mente mais do que cachorro de prear.

Bom, vamos à suculenta prosa do Sr. Luís e em seguida às mentiras do Bião.


SEBO

O homem disse o próprio nome e ficou me olhando atentamente. Como alguém que tivesse atirado uma moeda num poço e esperasse o "plim" no fundo.
Repeti o nome algumas vezes e finalmente me lembrei. Plim. Mas claro.
- Comprei um livro seu não faz muito.
Ele sorriu, mas apenas com a boca. Perguntou se podia entrar. Pedi para ele esperar até que eu desengatasse as sete trancas da porta.
- Você compreende - expliquei -, com essa onda de assassinatos...
Ele compreendia. Estranhos assassinatos. Todas as vítimas eram
intelectuais. Ou pelo menos tinham livros em casa. Dezesseis vítimas
até então. Se soubesse que seria a décima sétima eu não teria me
apressado tanto com as correntes.
- Você leu meu livro? - ele perguntou.
- Li!
Essa terrível necessidade de não magoar os outros. Principalmente os autores novos.
- Não leu - disse ele.
- Li. Li!
Essa obscena compulsão de ser amado.
- Leu todo?
- Todo.
Ele ainda me olhava, desconfiado. Elaborei:
- Aliás, peguei e não larguei mais até chegar ao fim.
Ele ficou em silêncio. Elaborei mais:
- Depois li de novo.
Ele nada. Exclamei:
- Uma beleza!
- Onde é que ele está?
Meu Deus, ele queria a prova. Fiz um gesto vago na direção da estante. Felizmente, nunca botei um livro fora na minha vida. Ainda tenho – ainda tinha - o meu Livro do bebê. Com a impressão do meu pé recém-nascido, pobre de mim. Venero livros. Tenho pilhas e pilhas de livros. Gosto do cheiro de livros novos e antigos. Passo dias dentro de livrarias. Gosto de manusear livros, de sentir a textura do papel com os dedos, de sentir seu volume na mão. Me ocupo tanto de livros e quase não me sobra tempo para a leitura.
Ele encontrou seu livro. Nós dois suspiramos, aliviados. Como é fácil
fazer a alegria dos outros, pensei. Com uma pequena mentira eu talvez tivesse dado o empurrão definitivo numa vocação literária que, de outra forma, se frustraria. Num transbordamento de caridade, declarei:
- Que livro! Puxa!
Mas ele não me ouviu. Apertava o livro entre as mãos. Disse:
- O último. Finalmente.
- O quê?
Ele começou a avançar na minha direção. Contou que a tiragem do livro tinha sido pequena. Quinhentos exemplares. Sua mãe comprara 30 e morrera antes de distribuir aos parentes. Ele tinha ficado com 453. Dezessete cópias tinham acabado num sebo que, através dos anos, vendera todos. Ele seguira a pista de 16 dos 17 compradores e os estrangulara. Faltava o décimo sétimo.
- Por quê? - gritei. E acrescentei, anacronicamente: - Homem de Deus?
No livro tinha um cacófato horrível. Ele não podia suportar a idéia de descobrirem seu cacófato.
- Eu não notei! Eu não notei! - protestei.
Não adiantou. Ninguém que tivesse lido o livro podia continuar vivo. Ele queria deixar o mundo tão inédito quanto nascera.
- Mas essas coisas não têm import... - comecei a dizer.
Mas ele me pegou e me estrangulou.
Bem feito! Para eu aprender a não ser bem-educado. Meu consolo é que depois ele descobriria que as páginas do livro não tinham sido abertas e o remorso envenenaria suas noites.
Enfim. É o que dá freqüentar sebos
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Segundo o Bião, a história não acabou assim. Leiamos o Bião:
Sucedeu que o escritor partiu pra cima de mim e tentou me dar um mata-leão. Revirei os olhos, me fiz de morto, ele foi embora. Foi embora, mas deixou-me curioso com o tal cacófato. E quando enrasco com alguma coisa sou igual a burro ruim. Levantei-me, passei a mão na bunda e corri pra porta. Ele ia dobrando a esquina que a minha namorada Silvinha estava dobrando ao contrário (tenho muitas namoradas, sim). Peguei a Silvinha e fomos seguindo o serial, eu lhe contando o entrevero.
O corcunda entrou em casa, nós entramos atrás:
-         Você? Vivo!
-         Eu, sim. Mostre-me e não se fala mais nisso.
-         Não posso. Não mostro meu cacófato nem que a vaca tussa.
- Entendo o senhor. Também escrevo, homem. Estamos em casa. Espalho muito sofrimento por causa de cacófatos e outros bichos. Façamos o seguinte, seu... seu...
-  Sotáfoco. Sotáfoco Silva.
- Então, seu Sotáfoco, já que somos colegas, proponho uma panelinha. O senhor escreve elogiando meus escritos, eu retribuo dizendo que o senhor merece o Nobel. Doravante, só irei a feiras literárias se o senhor também for, tá certo?
Seu Silva coçou a cabeça, mexeu no bigode, abriu um sorriso:
-         Fechado. Só tem uma coisinha. Ninguém afora o senhor, mas ninguém mesmo, pode descobrir o meu cacófato.
-                Fechadíssimo, Seu Sotáfoco. Somos parceiros, o que der pro senhor dar pra mim também. Agora traga o livro pra ver se descubro sozinho o seu cacofotinho, homem de Deus!
Seu Silva me deu o livro e se pôs atrás de mim. Mandei a Silvinha se afastar, comecei a ler. Na página 24 ele fez uma careta, pressenti algo, virei-me. Era o bafo da Silvinha nas costas da gente. Ela vira o cacófato do Sr. Sotáfoco e caíra na gargalhada. Por julgá-lo desprezível, imaginei.
Mas pacto é pacto.
A Silvinha desobedecera as minhas ordens. Ela tinha violado o acordo. Havia dado uma senhora mancada. Daí, por cada risinho irônico e por ter metido como esquecido, termos esmurrado a boca dela.
Eis a verdade, Tião, disse-me o peste do Bião. E arrematou:
Já vou, Tião. Até outro dia.
Até, Bião, respondi, dando graças por ele não ter tido vou me já, Tião.

Até mais ver,
Tião