quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PALAVRAS ENVERGONHADAS


PALAVRAS ENVERGONHADAS

             Há quem diga que palavras matam e curam. Discordo. Quem mata e cura são indivíduos. Palavras acionam ordens acomodadas na mente, cuja instalação se deu por meio da comunicação interna de cada humano. Agora, que certas palavras são envergonhadas, isso é fato. E, a depender do contexto, concordo com elas em gênero, número e grau. Concordo, porquanto no menos das vezes também sinto vergonha. No mais do menos, não damos a cara nem à base de sal grosso no lombo. Digo mais. Não tenho a menor vergonha de dizer que sinto vergonha. Reconheço que é cultura fora de moda, adubada tão somente pelos roceiros, mas não abro mão de aguá-la toda manhã.
Esse brega e prolixo prelúdio foi para dizer que há dias tento localizar algumas palavras e não consigo. Palavras que expressassem indignação

terça-feira, 20 de novembro de 2012

VERBORRAGIA


VERBORRAGIA

             Esta é minha primeira postagem de novembro. O motivo? Preguiça mental. Mas uma preguiça contraditória e safada, porquanto a gozadora ficava morrendo de rir quando me via pensando. Passei esses dias pensando em três verbos: começar, parar e continuar. Parecia praga, gente. Começava a pensar, dava uma paradinha, mas dali a instantes continuava, os pestes me perturbando. Vivemos sujeitos ao humor dos três danadinhos. Cheguei a tal conclusão não faz cinco minutos. Por causa da óbvia conclusão, você pode imitar a preguiça, rir à vontade e me ver o descobridor da pólvora. Mas pouco me importa o seu escárnio.
O óbvio precisa ser falado, do contrário corremos o risco de esquecê-lo. E, no mais das vezes, esquecer o óbvio faz o indivíduo se sentir superior. A ti, a todos e a tudo, como dizia minha avó. Superiores, tendemos a quebrar regras. E regras quebradas é um pulo só para a queda. É tiro e queda. Às vezes juntos, mas o primeiro na frente. Assistam aos noticiosos da tevê e vejam se eu não tenho razão. Então se quer livrar-se de quedas - sejam físicas, sejam éticas -, ligue-se no óbvio.
Bom, talvez o “vivemos sujeitos ao humor...” seja inadequado para você. Mas não para mim. Estou sempre querendo começar algo ou parar alguma coisa. Aí surge o verbo mais insolente do trio. O teimoso do continuar. E tudo continua como dantes.
Desconheço se o Philip Roth passou por esse dilema quando disse que estava parando de escrever. Certo é que parou. Certo também é que se você me leu até aqui é porque começou o que comecei e acabei continuando.
Então! Vai continuar, se for o caso?
Eu, para ser sincero, quero parar.
Naturalmente que não me refiro a parar de escrever, a exemplo do Philip Roth. Até porque o Roth escrevia textos, eu faço rabiscos. Reporto-me a algo que comecei há anos, há meses penso em parar e que neste momento estou doido para continuar.
Alguém aí me dá um cigarro?

Valeu!
Tião Carneiro

domingo, 28 de outubro de 2012

O DILEMA DE FÁTIMA


O DILEMA DE FÁTIMA

Naturalmente bela e brincalhona, Fátima estava se achando feia e ranzinza. A culpa pelo desconforto era daquele praga.
“Aquele praga” era como Fátima se referia ao ex, conquanto ela própria relutasse em se considerar ex, porquanto ficara dependente do praga sedutor. Qualquer sinal de contrariedade e lá estava o solícito aos seus pés. Daí que cinco dias de separação eram insuficientes para vê-lo somente na memória, pela boca do povo, como se diz.
Fátima decidira passar a semana santa na fazenda da avó. Via no sossego do campo emplastros para a inquietude. Encharcara-se com a água da cisterna, vestira uma roupa levíssima,

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

PRISÕES


PRISÕES
(Por Tião Carneiro)

      O rapaz não dormia direito, alimentava-se mal, vivia nervoso. Mas era uma inquietação do bem, porquanto o induzia a visualizar momentos do primitivo prazer. O pensamento único teve início depois de quase atropelar uma moça. Arranhou-se, o guidom da bicicleta ficou torto, porém a moça não se feriu. O rapaz sorriu,

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

RINHA LITERÁRIA E A LITERATICE DA ANINHA


RINHA LITERÁRIA E A LITERATICE DA ANINHA

“Beleza, Bião? Só assim você conhece a Aninha, a nova secretária da editora”, disse o Zé Alves, rindo descaradamente.
Despediu-se dessa forma o meu inimigo íntimo, o Zé Alves, na noite de ontem. Agora eu me encontrava em pé, cara a cara com a Aninha, na recepção da famosa editora do Zé, a Atoidi. Ela repetia anrã ao telefone, e eu ficava repetindo “minha nossa” e me perguntando onde o Zé arrumara aquela mulher. Cansei-me do anrã e fui com o “minha nossa” me sentar numa poltrona, cerca de cinco metros do birô.
O anrã era o desfecho do diálogo, posto que dali a dois minutos a Aninha pôs o sem-fio de lado e olhou pra mim.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

SIMPLESMENTE MULHER


Olá, pessoal,
Vivo apanhando da internet. Não sei o que diabo fiz, mas o certo é que algumas postagens foram pro espaço. Como as tenho no word, e como gosto muito desta, porque em homenagem a minha mãe, vou postá-la novamente.
Valeu!

SIMPLESMENTE MULHER


Bezerra ficou olhando os quatros cantos da piscina a fim de ver em qual deles a mulher ia aparecer, mas na expectativa de que ela surgisse na quina da churrasqueira. Dificilmente o Bezerra errava o local onde ela aparecia. Tinha o faro muito bom pra essas coisas. Dessa vez Bezerra errou feio: Minervina saiu exatamente no ponto em que mergulhara. “Pelo jeitão de desapontado, peguei você, não peguei, nobre Bezerra?”, gritou a Minervina, sorrindo. Sorriu, dirigiu-se à mesinha do pé de palmeira, ligou um sonsinho de rádio, beijou o buquê que o marido aninhara-lhe nos seios de manhãzinha, pegou uma maçã e começou a mordê-la. Mastigava a maçã e mordiscava a imaginação, distraída.
Bezerra deu uma coçadinha básica na cabeça, estirou-lhe carinhosamente a língua e ficou a admirá-la. Ainda quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse algum papo, ela teria vindo a ele.
O ser humano é muito esquisito,

domingo, 16 de setembro de 2012

CANGUEIROS E CANGUEIRICES


CANGUEIROS E CANGUEIRICES

           Talvez outro motorista ficasse apoquentado. Mas só fiz rir. Juro. Foi assim. Ontem, 15 do nove, trafegava pela Presidente Bandeira, principal avenida do Alecrim, bairro desta Natal, antigamente cheirosa, quando o carrão da frente freou de forma brusca. Por causa das crateras, enfileirávamos em marcha lenta. Numa boa, brecamos, eu e meus seguidores. Eu tinha percebido a montanha de lixo obstruindo um pedaço da rua, mas o carrão, não.
Distração acontece, entendo. Agora o que não deu para entender foi a luta do luxuoso a fim de livra-se do lixo. Entre mim e o importadão havia um espaço da bexiga. No mínimo dois metros. A luz da ré acendia, mas o bonitão mal rabiscava o chão. Minha carona, uma amiga, exasperou-se: “Que porra é! Que mengado é um, Tião! Vai terminar...”
Bom, depois de as buzinas atrás da gente começarem a xingar, de minhas mãos se fadigarem de falar “venha mais”, da amiga ameaçar descer do carro, o danadão conseguiu sair. Saiu, mas ainda desmanchou uma sacola de imundice.
“Vão com Deus, cangueiras”, foi

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

JANTAR EM FAMÍLIA


JANTAR EM FAMÍLIA

            A conversa estava animada. Tomavam vinho, bebiam sorrisos, sorviam prazer. Faziam hora pro jantar. Glorinha chega, troca a toalha da mesa vizinha, pede licença:
             - Trago logo o salmão ou a sopa, Dr. Paulo?
           “O salmão na mão esquerda, a sopa na direita, minha filha”, respondeu Dr. Paulo, liberando simpatia.
          Glorinha sorriu e afastou-se. Mas ficaram o viço da idade, o frescor do banho e o cheiro da colônia.
         Essa garota não aprende nunca; só não mando ela embora porque cozinha muito bem; de honestidade a toda prova; gente boa demais. Esses foram os comentários que vaquejaram até a cozinha o rebolado da gloriosa Glorinha.
         Daí a segundos, sem mais nem menos, Paulinha beijou a mãe, cochichou algo, levantou-se, deu solene boa-noite e subiu para os aposentos. Em silêncio, Bezerra (conheça o Bezerra depois) a acompanhou, mas ficou na soleira, porquanto Paulinha fez de conta que não o viu e bateu a porta na fuça dele. Pai e mãe se entreolharam. Passavam poucos minutos das sete horas daquele domingo.
Cedo demais para se recolher, interrogavam-se todos.
“Caramba! O que deu nela?”, especulou o irmão gêmeo, Paulinho, olhando para os parentes e beijando o pescoço da namorada, Rita.
“Coisa de mulher”, respondeu Dr. Paulo, o pai dos gêmeos.
“Por que de mulher? Só mulher se sente indisposta, por acaso? Que coisa!”, irritou-se D. Paula, tomando as dores da filha.
“Calma, mulher. Fiz tão somente um comentário. Que coisa!”, estendeu a bandeira branca Dr. Paulo, mas com um bastãozinho de riso.
Se por causa do risinho safado, se

sábado, 1 de setembro de 2012

COSTURAS ÍNTIMAS - UMA OBRA DE ARTE


COSTURAS ÍNTIMAS – UMA OBRA DE ARTE


Olá, gente,
Há anos, leio um cronista daqui de Natal. O cara escreve para as meninas ver. Fiz um comentário acerca de uma crônica dele (Da Carne). O texto se refere ao modismo feminino de ter “vaginas mais elegantes, sedutoras”. Abaixo, o meu comentário e a prosa do Serejo, identificada com o Aqui.

Nobre Serejo,
Meu primeiro ato ao receber o Jornal de Hoje é dá uma espiada na chamada de seu texto e no de Rubens Lemos. De lá me mando para a página treze ou dezesseis. Ontem, trinta e um do oito do doze, Rubens falava duma fotografia; você, duma vagina. Não tive dúvida: larguei a capa e corri pro treze, pra sua vagina. Aqui.
            Como sempre faço com a prosa de vocês dois, fiquei lendo devagarzinho, saboreando as palavras. Há escritos que não lemos (nada a ver com o Lemos do Rubens) simplesmente os comemos, há de admitir o senhor, caro cronista. Sou vulgar, daí nunca ter cometido o erro de desconhecer o corpo e, dele, o prazer da carne. Quando li esse enunciado a fome apertou. Apertou, mas, paradoxalmente, comecei a comer pelas beiradas, sem pressa, a exemplo do mingau, no mais das vezes de leite de cabra, que D. Minervina, minha mãe, esfregava-me nos beiços, depois de assoprá-lo, invariavelmente com o indicador. É evidente que o sopro era com a boca, pois a missão do dedo era tão somente me servir o unguento. Uma delícia!
Pois muito bem, com a boca cheia d’água, fui me enfronhando no vaginal texto. Vi-me, senhor cronista, folheando sua apologia do corpo, surpreendi-me balançando o sim de cabeça ao ler “O corpo, por maiores que sejam os pecados da carne, é coisa de Deus”, flagrei-me matutando acerca das “estratégias e invenções sobre o corpo”.
Agora, senhor cronista,

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

MINHA ÚLTIMA VEZ


MINHA ÚLTIMA VEZ

Já falei aqui acerca das lorotas de um amigo leitor. De quando em quando, mas normalmente aos sábados, a gente se encontra a fim de jogar conversa fora, molhar o bico e dar uma corujada em certos cenários. Por vezes ficamos chumbados, porque de ferro não somos, não é, gente? Sábado agora, em meio a levantamentos de copo, pitacos no danado do mensalão, imaginações nas vizinhas de mesa, o debochado chutou este aspeado:
“E aí, Tião. Li teu texto intitulado de Minha Primeira Vez. (http://www.pocilgadeouro.com/2012/08/minha-primeira-vez.html) Sabe o que acontece, bicho, estás ficando extremamente previsível com as pegadinhas sem graça. As buchudas literatices já deram o que tinham de dá, meu. De mais a mais – expressão que é a tua cara, Tião -, as barrigudas imagens nos dizem que o autor está acima do peso literário. Mas deixa isso pra lá. Vamos beber.”
O debochado respeitou

domingo, 19 de agosto de 2012

TIRANDO ONDA, FAZENDO HORA


MICROCONTOS


Como sabemos, microconto é um conto ameninado (acabo de descobrir a pólvora), embora a teoria literária não o reconheça como neto, filhote que é do conto adulto. No micro, mais importante que mostrar é sugerir, pois cabe ao leitor a tarefa de "preencher" as elipses narrativas a fim de entender a história por trás da história escrita.

Bom, escrito o desnecessário, e como forma de fazer hora para assistir à (   ) do Flamengo, já que o FLU (sacou?), vou tomar uma gela (força de expressão, é claro) e dar  umas arrotadinhas aqui embaixo. Beleza?

 

JULGAMENTO

Sentenças em fatias na bancada do imenso salão. En(gulas) ou se engasguem. Cumpra-se.
Veja mais em http://www.pocilgadeouro.com/2012/08/mensalao-seu-danado.html

TRANSPARÊNCIA
Mascarado atira no espelho quando vítima responde que a grana da internet tá com o Bill Gates.
Veja mais em http://www.pocilgadeouro.com/2012/07/a-transparencia-sob-angulos-diferentes.html

 

OLIMPÍADAS

Foi só abrirem os olhos, e os ouros desapareceram. Voltaram a dormir. Muiiiito!!!

LITERATURA

Na Livraria Empáfia. “Novidade. Temos bombas de inflar, de arrogar e de engordar reis de barriga”. Arre ego! Eu, hein!

PEGADINHA

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

MINHA PRIMEIRA VEZ


MINHA PRIMEIRA VEZ

Acabei de ler uma prosa supimpa, cujo autor nos deixa de água na boca ao relembrar os alfenins saboreados na meninice. Uma doçura, pessoal. O doce do texto - e o texto do doce, naturalmente. Li, tomei água, naturalmente gelada, e danei-me para a minha meninez.
Ponho-me a matutar acerca de meus ameninados doces. Quero datas, mas de mim elas tentam fugir, como a brincar de esconde-esconde. Imaginam que minha mãe rebolou no paul do Araçá os chipes alfinetados nas fraldas de algodão. As fraldas do corpo, feitas de saco de açúcar, o futuro abandonou; os chipes da memória, produzidos de batata e caldo de cana, o presente aninhou.
Volto já ao assunto datas. Vou abrir alguns parágrafos a fim de explicar uma coisinha aos amigos do além mar. Esta pocilga é internacional, gente. Pensando o quê? Os brasucas podem pular os sete recuados seguintes, tá legal?
Pelo contexto, vocês, americanos e alemães, já notaram que sou da roça, caipiramente matuto. Resta-me apenas falar do Araçá, o interior onde nasci. Caipira, roça, matuto, batata, caldo de cana, alfenim, essas coisas o Dr. Gugo lhes explicará numa boa. Beleza?
Araçá, meus nobres, é distrito de Extremoz, cidade olho no olho com Natal.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

BEM, O AMADO


BEM, O AMADO

          Tenho alguns amigos pra lá de esquisitos. Essa esquisitice, aliás, é tão somente o troco passado a mim em razão de minha crônica excentricidade. Excêntrico dum lado, esquisito do outro, seguimos o dia a dia numa boa. Até porque se o cara não relevar certas coisinhas do amigo, amigo não é. Não é, amigo? Você não está abonando este texto sem futuro? Então!
Existe condenável bizarrice que não me larga o pé. A danada prende-me os pés e priva-me de visitar os amigos. Raramente os visito, apenas quando me dá na veneta, entenderam? Para você ter ideia, publiquei um livro, escrevi uma dedicatória ao amigo Canindé, mas cadê encontrá-lo a fim de lhe dar o mimo? Não sei onde o 365 (nº dele no Exército) está morando. Não nos vemos bote aí uns 15 anos.
Ao contrário de mim e, porque não, de Canindé, há um amigo, comum, por sinal, que me visita todos os dias. Muitas vezes, na hora mais inconveniente. Cinco horas da manhã e o cara, o Bem, já fica a me chamar. Bem é como o azoreta me trata. Não só a mim, mas também a todos que têm a graça de escutá-lo. Dia desses, discutimos feio. Tudo porque o magricela passou vários dias me chamando na base da cantoria. Com olhos remelados, levantei-me e lhe disse poucas e boas. Mas terminamos na paz, é evidente.
Outra maluqueira do avoado é dizer que viu a gente. Quando menos esperamos, ele chega de mansinho e diz que nos viu, como se tivéssemos algo a esconder dele.
Agora mesmo, 10 e 12 da manhã, acabo de digitar a expressão “esconder dele”, o amarelado de sobrancelha branca pousa no portão da área, lembra-se do dia anterior, ri pra mim e tasca:

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

MENSALÃO, SEU DANADO!


 MENSALÃO, SEU DANADO!

              O homem ajeita a gravata, a mulher dá uma mexidinha nos óculos. Repórteres se concentram, julgadores meditam. Esperam o presidente da corte. Nos lares, os homens dão aquela coçadinha básica, as mulheres ajeitam algo. Vai começar o julgamento do século. “O maior escândalo da história”, na avaliação de reconhecida autoridade republicana.
11 magistrados julgarão 38 pessoas.
O Mensalão é notícia internacional. Ousadia teve de sobra na praia da devassidão ética. Certeza da impunidade despiu das acusadas o senso moral. Banhavam-se sem o mínimo de pudor nas águas da desfaçatez. O poder de polícia foi corrompido por meio de depósitos mensais de ajuda financeira. Dinheiro vindo de maracutaias, afirma a acusação. Mentira, diz a defesa: recursos vieram de sobras de mesadas.
Tudo veio à tona com a Comissão Puritana de Investigação – CPI - dos 6 centímetros. Apurou-se que as 38 acusadas usavam saias com mais de 6 centímetros acima do joelho, coisa proibida por lei. Deitavam e rolavam nas areias de 1922. Puta patifaria pornográfica.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

E(LEITOR), SEU DANADO - QUER UM LIVRO DE PRESENTE?


E(LEITOR), SEU DANADO!- QUER UM LIVRO DE PRESENTE?

“Foi, Galego”, disse Assis de Maria de Paulo, entrando na conversa que estava alvoroçando São Mateus, cidade interiorana do Rio Pequeno do Norte, estado situado no nordeste de Andiroba, país beijoqueiro do Brasil.
“Pede um guizadinho com cuscuz pra mim, Galego”.
Galego gritou o pedido e voltou-se para Assis.
    Como foi isso, Assis? Mataram Pedrão de emboscada, foi?
    Homem, tu não sabe de nada mesmo, não é, Galego?    
-  Sei não, porra. Tô por fora de tudo.
— Pois diga! Então se segure na cela. Não mataram só Pedrão, não, rapaz. Mataram também Bastos de seu Luís Gabrié e a mulher dele.
— Minha Nossa Senhora! Foi mesmo, Assis? Eles tavam juntos, era? A mulher de seu Luís Gabrié tinha uns oitenta ano, não tinha? De que hora que foi isso, Assis?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

SISTEMA, SEU DANADO!


SISTEMA, SEU DANADO!

Sabem vocês qual é a palavra mais poderosa da língua portuguesa? Não? Não é Comunicação, como sempre imaginei. Chama-se sistema, pessoal. Mas sistema faz parte do Sistema comunicativo, dirão, e com razão, os senhores. É verdade. Mas o que quero dizer é que Sistema é o mandachuva da comunicação, o único representante dela que tem a coragem de mostrar a cara, de quem muitos se aproveitam, e bote muito nesse muito, para justificar as safadezas, desculpar-se das incompetências, eximir-se das imoralidades.
Sistema corta dos dois lados,

domingo, 1 de julho de 2012

JESUS, SEU DANADO DO CONTRA!


JESUS, SEU DANADO DO CONTRA!

Calma, meus nobres! Não estou a falar de Jesus, o filho do Homem, o nome central do cristianismo, o nascido em Belém, província romana da Judeia, e sim de outro amigo Jesus, o nascido aqui mesmo, filho de outro homem, o Sr. Silva, em Extremoz, província brasileira do Rio Grande do Norte. E, evidentemente, o danado do título acima não tem nada a ver com o rabudo, mas sim com aquele sujeito impetuoso, traquino, inteligente.
Jesus não era danado no nosso tempo de vendedor de grude. Ou melhor, danado era, mas

sexta-feira, 22 de junho de 2012

SABUGOS DA CRISTAL+ 5



“Foi um desastre, Sr. Porquinho”, disse a representante da Organização Sim Governamental – OSG – Cristal Suja. “Até que a coisa corria mais ou menos, então chegaram esses dois e embaralharam o meio de campo todo. Daí que...”
- Desculpe, senhora. Embaralharam o meio de campo? E a Cristal+5 não era para desembaralhar o meio ambiente, não? Aliás, achava eu que esses dois gostassem mesmo era de um vinhozinho e de uma pinguinha, não de baralho. Não entendi, desculpe.
- O senhor está de gozação, não é, Sr. Porquinho? Meio de campo é força de expressão, seu entrevistador meia-tijela. De mais a mais, o senhor

sábado, 9 de junho de 2012

JORNAL DO PORCO - EDIÇÃO ESPECIAL

JORNAL DO PORCO – EDIÇÃO ESPECIAL

Bom-dia a todos.
Antes das palavras do Dr. Bião, gostaria de prestar alguns esclarecimentos. É, é... O som está me parecendo imperfeito. Por favor, peço ao encarregado...
“O som está cortando, doutora. Tá chegando pra gente de carroça, bêbado todo. Estiquei o pescoço prum lado, mas mesmo assim não compreendi bem o que a doutora disse. Aqui atrás só vai entender a senhora quem tiver as ouças de tuberculoso. A doutora estava lamentando a ausência da prefeita, não era isso?”
É claro que a risadeira foi geral. É claro também que geral significa os escritores que estavam próximos à mestra de cerimônias, visto os que estavam no fundo da sala terem entendido exatamente o que o reclamante dissera.
Antecipando-me aos tais esclarecimentos, convém explicar:
Quem quer dar as informações é a educadora

segunda-feira, 4 de junho de 2012

PROSINHA EMBRIAGADA


Escrevi este texto ontem à noite, depois do jogo do Brasil. Relutei em publicá-lo, pois o danado está cambaleante de erros. Mas terminei cedendo à minha carraspana. Conto com a compreensão de vocês, meus nobres.
Se quiserem uma prosa melhor, leiam o CHICO, aqui embaixo.
É isso!

PROSINHA EMBRIAGADA

Não nego a nego nenhum: gosto de degustar uma gela, gente. Uma uma porra! Duas. Não duas diuturnamente, digamos. Mas, serei sincero, semanalmente sim. Hoje, todavia, tomei todas. Me melei, meus! Fiquei mais melado do que mau de malinheiro. Aí cuidei de caçoar com os senhores e com as senhoras.
A enganação é estar escrevendo embriagado este embuste de escrito. Com a canalha condição de conservar o contexto começado. Quero perceber, pessoal, como fica uma prosa parida dum pensamento procedente

sábado, 2 de junho de 2012

CHICO


CHICO

Gorete não se conformava com o tom de desprezo da voz da secretária atendente:
“Acontece, D. Gorete, que o Chico não pode falar com a senhora. Nem agora nem nunca. Que coisa! Desculpe, mas vou desligar”.
E desligou. Na cara da Gorete.
            Cabelos engolindo o vento, dentes se alimentando de unhas, corpo maleitado, voz arremedando varas verdes, Gorete pegou ar, tornou a ligar e soltou o verbo:
            “Como assim nem agora nem nunca, sinha abusada! Tá maluca! Chame...”
            Nova desligada na cara da Gorete.
            Gorete sorveu o ar puro da praia, olhou a hora: 7 e 34 da noite.

sábado, 26 de maio de 2012

A MARCHA DAS VADIAS E A COMUNICAÇÃO


A MARCHA DAS VADIAS E A COMUNICAÇÃO


Este escrito, nobres leitores, certamente será classificado de demasiadamente óbvio. Como a obviedade é isenta de punição física, continuarei a aborrecê-los. Comunicação é o vocábulo chateador. Talvez vocês discordem, mas, em sentido oceânico, comunicação é a palavra mais importante do idioma universal. Referi-me a abarcamento oceânico, visto o riacho do dizer verbal, o Amazonas da expressão gestual, o mar do discurso mental, tudo, mas tudo mesmo, desaguar na convivência humana. Se caudalosa ou serena tal convivência vai depender do sentido da comunicação. Não é isso óbvio? Então por que o descuido com a qualidade do que comunicamos parece-me de torrencial burrice?
E qual é a relação do vadear dessas esqueléticas metáforas com as Vadias da titulação acima? Vadearemos ao Canadá e veremos.

domingo, 20 de maio de 2012

O GRUDE DA CARMINHA E A VÍRGULA SAFADINHA


O GRUDE DA CARMINHA E A VÍRGULA SAFADINHA

            - Rosinha, mulher, mande-me, pelo cobrador da besta, dois pacotes de grude pra eu mandar para o meu namorado que está em estremoz. Capriche naquele negocinho, viu?
Vocês não imaginam o quiproquó que deu esse simples pedido. Vou explicar.
O pedido foi feito num papo de computador, pela professora Carminha, amicíssima da grudeira Rosinha. Rosinha mora em Extremoz, cidade a um salto de pulga de Natal-RN e conhecida por produzir grudes deliciosos. Carminha reside em Natal, cidade conhecida... Bom, não interessa. O que interessa é a resposta da Rosinha:
- Quem é esse namorado, mulher, que tu nunca me falasse dele? Eu, hein! Outra coisa. Se ele mora aqui em Extremoz, por que cargas d’água o grude precisa ir aí pra Natal e depois voltar pra cá?
Cabem agora duas explicações: o grude e Extremoz.
O grude é gostosa guloseima feita com goma de mandioca mole, enrolada na folha de bananeira

quinta-feira, 17 de maio de 2012

AS BESTEIRAS DO BIÃO




Olá, gente,

Apresento-lhes o Intuitor Bião. Ele está doidinho para bater um papo com vocês. Vejam o cachê. No endereço http://www.protexto.com.br/livraria.php ele cobra cinquenta e oito reais mais o frete. No meu endereço, tcarneirosilva@gmail.com, com autógrafo, entrega em casa e tudo mais, ele fica por cinquenta paus. Apressem-se, pois a tiragem já está se esgotando. Os incautos cultos já adquiriram doze elevado ao quadrado, menos a camisa do Pelé multiplicada pela do Garrincha, menos o número do PT, menos os sapatos de Iracema, menos o coelho no jogo do bicho. Estão pensando que isso é conta de mentiroso, é?
Você ainda pode marcar encontro pelo 8741-1610. Ou nos comentários desta postagem. Levarei o Bião aonde pedirem, podem confiar. Sou um homem de palavra. Beleza, então?

É isso, meus nobres. A galera do exterior também pode pedir.

Valeu!

Tião Carneiro

quinta-feira, 10 de maio de 2012

LEITORES E CRÍTICA


LEITORES E CRÍTICA

              Tenho dois leitores especialíssimos. O de fala grossa é um chato de sapatilha cimentada. A de voz amena é uma simpatia de meias aveludadas. Em comum nos dois a inoxidável franqueza. Em comum para ambos a férrea amizade deste brejeiro escrevente.
 “Não entendi nada daquele texto. Estava profundo demais, meu caro”, costuma me dizer o feioso de fala grossa. No texto seguinte: “Muito banal a postagem de hoje. De linguagem arranca toco, sem uma pataca de valor literário, meu”.
Falo grosso, digo que não preciso da leitura dele, sugiro-lhe o Machado e o Tchékhov, e...Vamos logo procurar um barzinho.
“Faz uma semana que não acesso seu blogue, Tião. Mas, como de hábito, adorei a última postagem que li”, é assim que a bonitona de voz amena começa um papo literário. Faço um riso maroto, ela percebe que estou percebendo o embuste, então, também marota, se sai assim: “Você tem razão. Há um tempão não entro em seu blogue. A última leitura foi A REVISTA DA CLÍNICA, texto publicado em janeiro, se não me engano. Aliás, achei a crônica meio, como é que se diz, meio assim, sabe?”
Falo sorridente, digo que preciso da crítica dela, sugiro-lhe as postagens recentes, e... Às vezes ela encerra a ligação; outras, fecha a mensagem virtual; mas, no mais das vezes, liga o carro e vai embora. Eu vou logo procurar um barzinho. Sozinho, evidentemente.
            Vou logo, não. Vim logo, sim. Estou aqui a matutar, notebuque nas pernas, sobre essa loucura de escrever. Mas, como prova da doideira, escrevendo. Pela amostra dessa dupla se nota o masoquismo de quem escreve. Vejam só:
            O coxa cabeluda condena as duas leituras, ora cafona, ora erudita, diz ele, embora o estilo tenha sido idêntico.
            A coxa lisinha diz adorar o estilo do autor, ainda que a última crônica tenha lhe parecido meio assim, assim, mas fica quatro meses sem lê-lo.
            Diga aí? Eu, que proseio duas, quatro vezes ao mês passo por essas, imagine o escritor, escritor mesmo. É fingido e masoquista ou não é o azoreta que se mete a escrever?
            A propósito desse cata-sofrimento, vou fazer um copiar/colar dum fragmento de meu novo romance, o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. No trecho, o Bião (escritor/intuitor) conversa com o Marcão (revisor da última obra do Bião) sobre literatura. Podem me tachar de fingido e oportunista, meus nobres. Entendê-los-ei numa boa. De boçal e de língua enrolada também. Continuarei os entendendo.
            Vamos ouvir o Bião?

            ... Falar em crítica, esse é outro ponto chatinho. Penso assim, Marcão. Todo escritor tem uma vertente ficcional. O texto do Saulo Marreco cativou o povão, embora algumas pessoas julguem carente de valor a literatura dele. É precipitado afirmar, Marcão, que escrito tal não tem importância literária.  Esse valor é muito escorregadio, entendes?
            Já me disseram que a literatura vive estirando a língua para as minhas prosas, que os meus romances são amazonicamente informais, que o vocabulário é chulo, que desrespeito a norma culta do idioma, que os diálogos são cansativos, que engordo a obscenidade e por aí vai a fila de quês. Não dou a mínima. Literatura ficcional é lazer e instrução, Marcão. Mas, a meu juízo, o entretenimento está em primeiro lugar.
            Escrevo, crio realidades paralelas e convido o leitor para compartilhar essas vivências. Exibo-me, desnudo-me e exponho o dito leitor quando ele concorda comigo. Mas acredite, Marcão, no fundo, no íntimo mesmo, a ideia é me divertir, cara. Dou escandalosas risadas ao criar certas loucuras. Loucuras analgésicas da insatisfação, curativas da angústia, emplastros da solidão. Como te falei, não preciso da grana de literatura, mas não serei hipócrita de dizer que desdenho os trocados caídos na minha conta. Também não serei cínico de negar a vaidade. Sou vaidoso, sim. Comentários elogiosos deixam-me de ego cansado de tanto pular, bicho.
            Permita-me uma confissão, cara. Um amigo do peito, baluarte da literatura brasileira, expressou-se desta forma, não faz um ano, quando lhe disse que aqui em Andiroba os críticos me tacham de informal, beirando ao chulo. Bom, esse amigo se dirigiu a mim nestes termos, Marcão:
            “Os andirobenses estão sendo generosos, meu caro Bião. Avaliam-no apenas pelo conjunto externo de sua prosa, que, no fundo, é um conjunto vazio. Se externamente a sua prosa é vazia e mais um pouco, internamente então... Você se perde, Bião, ao querer transformar em humor o nefasto conjunto. Seria aceitável se essa transformação resultasse em fino humor. O problema é que o humor é fino mesmo. É esqueleticamente pobre, Bião. Mas você permanece rascunhando do mesmo jeitinho, não traceja o menor esforço de mudança. Já falei sobre isto, mas não custa repetir: aconselhe-se com as obras clássicas, espelhe-se nos torneios verbais dos brasileiros, mire-se no ecletismo de seus conterrâneos. Mude o estilo, homem. Deixe a prosa cabocla de lado e invista em textos inteligentes. Dê consistência interna a seus escritos, Bião.
            “Você diz que escreve a fim de se divertir e espera que o leitor também se divirta. A intenção é boa, porém secundária. O divertimento deve surgir como sobejo, não como o maná da mesa. No banquete literário não pode faltar informação, reflexão, sabedoria. A literatura precisa ser posta à mesa com estilo, postura, decência. Desse estiloso cardápio provém os pratos que saciam o leitor e o deixa babando no aguardo das refeições seguintes. Entretanto, Bião, sua ficção, de tão caipira, assemelha-se mais a um café sossega-tripa servido numa mesinha de plástico.
            “Garçons de tais banquetes, Bião, comovem, incitam, desafiam; fazem chorar, rir, pensar. Com os seus garçons, ao contrário, os comensais sentem-se... Desculpem os que continuam lendo você, mas esses comensais se abatem, se acabrunham, se desiludem. Ficam chorosos, risonhos, pensativos.
            “Seus tradutores, Bião, são excelentes profissionais. Essa é a explicação para você ser tão bem vendido no exterior e vender apenas o razoável nos países de língua portuguesa. Mas, nos dois horizontes, o original de suas prosas permanece vazio. É digno de admiração...”
            Puxa, Bião, esse amigo é amigo mesmo, cara, falei, cortando-lhe a corrente elogiosa. O que dissesse ao mui amigo?
            — Ora, Marcão, disse o que deveria ser dito. Mandei o bossal tomar naquele canto, levantei-me e fui embora. Da porta, gritei:
            “Às favas seu discurso afetado, às favas suas imagens imbecilizadas, às favas seus paralelismos ginasianos, às favas suas metáforas camponesas. Prefiro comer batata doce com tripa assada, servidas com a verdade dos roceiros, mesmo em mesinha de plástico, a saborear o manjar dos deuses, mas servido com a patranha de certos guapos, mesmo em mesonas de mármore.
            “Tem mais, ilustre profitente. Não preciso das comidas artificiais de seu maldito e estiloso cardápio. Meu sabor está na ponta da língua, enraizado pela naturalidade dos autênticos. Esqueça meu conjunto vazio, empanturre-se de erudição e soque seus conselhos bem no centro de seu tônico, monossilábico e biunívoco conjunto. Depois se divirta com o sobejo de tudo.
            “Escreva como lhe convier. É direito seu. Mas reserve-me o direito de ser como sou, tá legal? Não sou escritor, seu doutorzinho e literato de merda. Sou intuitor. Intuitor! Intuitor! Ouviu bem? Escritor apenas flerta com a intuição. Intuitor é com ela amigado. Sacou, meu?”
                     Bião, amigo velho, pegasse pesado com o amigo. Desconhecia essa história. Vou contá-la ao Mestre Simas. Ou o Mestre já conhece?
            — Como deveria me comportar, Marcão? Quer dizer que o cara me esculhamba, pede-me que copie o estilo dos famosos, classifica-me de rascunhador de prosas, e eu, só porque o peste é influente jornalista, crítico literário, colunista cultural, devo ficar com a cara mexendo, é? Não tenho sangue de barata não, meu amigo. Desconheces a história porque não costumo dar publicidade aos acontecimentos negativos. Falei isso agora devido ao contexto. Simas conhece o episódio, sim, seu lambe-botas...
           
            Quer conhecer melhor o Bião? Ele mora aqui: tcarneirosilva@gmail.com
                       
Tião Carneiro

quarta-feira, 2 de maio de 2012

CIUMEIRA




CIUMEIRA

            É, D. Totinha, tudo chega ao fim. Prematuro, algumas vezes, é verdade, e, também verdade, sem culpa de quem opta por esse fim, como acabo de optar. Mas isso não quer dizer que você seja culpada, Totinha. Espero que entenda as minhas figas para a tentação de trair as matutas origens, daí eu viver livre de remorsos, da mesma forma que a entendo quando vê no remorso tão somente um sentimentalismo barato. Os recheios da modernidade, Totinha, não serão capazes de diluir-me a naturalidade, de afastar-me das raízes da autenticidade. Para você, contudo, são nesses fermentos que uma relação sobrevive. Fazer o quê? Pontos de vistas diferentes não devem condenar ninguém, não é certo?
Tem culpa você se minha teimosia em mudar-me fê-la abusar de mim? Dez mil vezes não, Totinha. Mas sentir-se enfarosa

segunda-feira, 30 de abril de 2012

SOBREVIVÊNCIA


SOBREVIVÊNCIA

Aquela impressão o tornava tão... Ui!

“Nossa! Venha cá, Miguel. Rápido, rápido”, alarma-se o Fernando, enquanto põe as orelhas do velho nas pernas, beija-lhe a face e abana-lhe o dorso com um jornal amarelado.
“Que foi, que foi, Fernando? Meu Deus! Não podemos deixá-lo morrer. O que faremos, meu mano?”, diz o Miguel, martirizado com a cena.
Nisso, chegam a Lia, o Tói, o Cascudo e a Lice, os irmãos que se encontravam em casa.
“Vá chamar a mãe, Lia. Pare de choramingar, Tói! E você, Cascudo, vê se apaga esse maldito charuto”, ordena o Fernando, assumindo o comando da situação, já que era o irmão mais velho.
- Mãe tá num congresso, Fernando. Vou chamar a vovó. Ela tá batendo roupa no rio.
- Então vá logo, mulher de Nossa Senhora. Peça que a vovó traga uma meizinha pra ele, viu? Oh, Lice! Não chore, minha irmã. Vá com a Lia, vá!
- Mesinha? Pra que mesinha, Fernando?
“Que mesinha que nada, sinha tonta. Meizinha, chá, remédio caseiro”, esclarece o Cascudo.
Enquanto esperam as mulheres, os irmãos ficam na cabeceira do velho e danam-se a bramir contra os tempos modernos. O Tói se afasta e volta com uma vela no preciso momento em que as netas retornam com a avó:
 - Que é isso, que é isso! Guarde essa vela, Seu Tói. Saiam de perto dele. Não veem que tal comportamento só o deixa mais capiongo? E que é exatamente isso que os magnatas querem. Alegrem-se! Esse velho não vai morrer nunca, meus netinhos. Ainda vai prosear muito. Para um bocado de gente, ele pode até ficar deitado, mas aqueles de sensibilidade haverão de mantê-lo em pé.
Alguém me diz como aconteceu o chilique?
- Ele estava na internet, vó, a ler um relatório numérico, aí...
- Basta, Fernando. Já entendi. O dissimulado está tão somente desempenhando o papel dele. Agora me deixem passar essa misturinha na careta enrugada desse sonso.
A senhora embebe a mistura num chumaço de algodão, começa a passar no rosto do velho, mas se volta para o Miguel:
- Que groló é esse, vozinha?
- É água benta com azeite, meu neto.
O Miguel bolina o queixo, revira os olhos, emprenha a bochecha, começa parindo um risinho, torna-o escandalosamente adulto e, quando se dão conta, todos estão numa risadeira só, conquanto apenas o Miguel soubesse da causa. Ele explica, gaguejando:
- Água meus netinhos, azeite senhora vó!
A risadaria dobra, agora com a adesão do antes moribundo Sr. Livro. Abraçados, o Sr. Livro, D. Literatura e os netos fazem uma dança de roda e tome comemoração.
“Entrou por uma perna de pato e saiu por uma perna de pinto”, repetiam, adoidados.
Foi assim, sim!

Tião Carneiro

sexta-feira, 27 de abril de 2012

INTUITOR BIÃO - UM HOMEM DE PALAVRA


Olá, colegas,
Em algumas postagens no http://www.pocilgadeouro.com/, tenho me reportado ao meu segundo livro, o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. Pois não é que o bicho acabou de sair? Ou melhor, de entrar? Ele está aqui, ó: http://www.protexto.com.br/livro.php?livro=425.
Se quiser comprá-lo, sinta-se à vontade. Caso prefira, pode adquiri-lo de mim. Mande um imeio para tcarneirosilva@gmail.com ou ligue 8741-1610. Beleza? Pela editora, o livro sai por R$ 73,00, considerando o frete. Comigo, o danadão fica por R$ 50,00, já que estou repassando o desconto que  a editora me dá. Mas fique à vontade. Inclusive pra não comprar. Devo receber o romance daqui pro dia 10 de maio. Reserve logo seu exemplar, visto o best-seller estar bombando (tá rindo de quê?). A primeira edição esgotou-se antes de chegar à rua, acreditam?
Não farei lançamento, pois não quero que se veja obrigado a ir ao evento apenas porque é meu amigo. Livrarias? Por enquanto, não. A editora tem um programa de “Livrarias Parceiras”. Estamos tentando viabilizar esse projeto. O certo é que queremos fugir da humilhante consignação imposta ao autor por essa modalidade de venda.

Leiam as orelhas do livro e em seguida uns trechinhos das idiotices literárias.

“Palimpsesto é um texto sobre o qual se descobrem escritas anteriores. Neste livro, o escrevinhador Tião Carneiro nos presenteia, com grande maestria, algumas cartas e mensagens que podemos considerar como um palimpsesto, pois cada palavra tem um significado diferente, escondido. Ao longo da história, certos personagens, exímios usuários da intuição racional, irão desvendar as reais intenções de seus autores, o que irá fascinar quem estiver saboreando este livro.
Os acontecimentos se sucedem no meio deste século, em 2049, e predizem um futuro incerto para a humanidade. Quem viver, verá!”

Fernando Carlos Daiha Nunes da Silva
Escritor


“Tião Carneiro é homem de palavra. Fruto da sua fluência verbo-gráfica, e passando bem longe da verborragia, não há, aqui, “palavrinhas inúteis, perdidas”. As palavras caem nas páginas deste livro como água em cachoeira, levando o leitor, em imersões literárias, compulsórias no início, a pescar, numa bela manobra romanesca, episódios presentes no livro A Senhora 2 e o Senhor 2, do mesmo autor. Passada a aprazível turbulência, os mergulhos serão espontâneos, conduzidos pelos intuitores Bião e Simas, que esclarecem verdades escondidas nas entrelinhas do texto. Não há palavras perdidas. Mesmo a brincadeira com o nome de personagens e de lugares não é sem propósito: traz à tona uma contundente crítica social, protagonizada pela personificada D. Internete. A cada mergulho, o leitor é fisgado por uma surpresa. É mesmo surpreendente. Haja fôlego, mas vale a pena. Muito.”

João Felipe Filho
Escritor


Agora vou lhe apresentar um dos principais personagens, o Bião.

Bião tem um metro e quarenta e oito centímetros, pesa 45 quilos, usa cabelos compridos, encaracolados. Os olhos são amarelados. As pernas. Ah, as pernas! Bião tem pernas de sibite. São tão grossas que as dos pardais daqui do Arruda ganham de goleada das dele.
O desgraçado do Bião não joga sequer um grama de disfarce na genética feiura. Pelo contrário, levanta toneladas de esquisitices para se tornar mais feio. Ninguém o vê sem uma camisa compridona, quadriculada, tipo toalha de mesa, bastante comum na roça de antigamente. As bermudas do espantalho são todas coloridas, cada uma com no mínimo oito bolsos. Outro acessório do qual o Bião não se separa são os óculos. O galã adora óculos escuros.


Leia o que o Bião disse a um de seus interlocutores.

“Escreva como lhe convier. É um direito seu. Mas reserve-me o direito de ser como sou, tá legal? Não sou escritor, seu doutorzinho e literato de merda. Sou intuitor! Intuitor! Intuitor! Ouviu bem? Escritor apenas flerta com a intuição. Intuitor é amigado com a intuição. Sacou, meu?”

Veja uma partezinha erótica do livro

Tudo bem até aqui, Simas? Vamos adiante. Na véspera de o Simas depor na CPI, ele e a Carlinda chegam ao apartamento onde o Simas está hospedado. Preparam-se para dormir. Carlinda retira um terno azul da bolsa, deixa-o sobre a cama e começa a se despir. Carlinda está usando, Marcão, assim o Simas me disse, um vestido longo, sensualíssimo, verdinho.
Ela começa a se desfazer do vestido, mostrando, aos pouquinhos, a estrutura da devassidão. Depois se desfaz do sutiã, também verdinho, mas amarelinho de inutilidade, já que os avermelhados biquinhos, de tão róseas e rochosas tetas, não acusam necessidade de suporte algum. Por último ela tira as meias, branquinhas, tão imaculadas quantas as imaculadas, lisinhas e adoráveis coxas. Simas deve ter se enganado com a sequência dos colíricos atos, meu amigo Marcão, visto o glorioso espetáculo sempre começar pelo abandono das meias. Em seguida...

Quer mais? Então...

Um abração, gente,
Tião Carneiro

domingo, 15 de abril de 2012

DE OLHAR


DE OLHAR

Há poucos dias escrevi um texto sobre implicância. Implicava com os capacetes usados por políticos e administradores em visitas a determinadas obras. Não sei se aí onde você mora é assim, meu nobre, mas aqui em Natal, por conta da Copa, todo o santo dia os jornais escancaram fotos de políticos e afins a fim de mostrar serviço com capacete no quengo. Em alguns até que a couraça assenta legal, visto guardar perfeita sintonia com a cara de pau do dono da cachola. Mas isso é outra história. O motor de minha implicância se baseava... Quer saber, se quiserem conhecer os motivos “capacateiem” aqui, na velha IMPLICÂNCIA.
Minha implicância agora segue o mesmo diapasão dos capacetes (diapasão, que bela palavra, hein!). Ou seja, fotografias. Passo horas aqui em meu cantinho a folhear revistas e jornais a procura de fotos. De gente, sim, porque de cachorros e gatos, pela sinceridade exposta, não têm graça alguma. Bons mesmos são os retratos dos humanos.
Convido-a, minha nobre, para apreciar as colunas sociais dos jornais de sua cidade. Comece pelo arreganhado dos dentes. Evidentemente que dos fotografados - os seus somente serão mostrados se conseguir rir depois de analisar a pouse dos pousados. Dos dentes, passe para os olhos. Feito isso, dente por dente,

segunda-feira, 2 de abril de 2012

QUE COISA!



Pensava em dedogitar uma crônica sobre aniversário. Comecei com o “Batista estava”, mas vi logo que a crônica ia furar quando reli o primeiro parágrafo. Em vez de recomeçar, danei-me a viajar. Viajando, viajando, saiu este mostrengo. Não sei classificar este texto, gente. Talvez passe de raspão num continho, tire fino num romacinho, beije um personagem de alguma novelinha. Mas crônica certamente não é.
Quiçá uma besterinha? Ou besteirona? 14.534 caracteres. Quem se habilita? Aguardo resposta.

QUE COISA!

Batista estava completando quinze anos naquele dia. Acordou com o carinho materno: “Meus parabéns, filho. À noite tem um bolinho, viu?” Batista sentiu o beijo, abriu os olhos, balançou a cabeça, percebeu as lágrimas da mãe, apertou-lhe o braço. Remexeu-se. No beliche e na mente:
Dormira mal. Pegara um cochilo quando os galos iniciaram a cantoria, como se deles tivesse apanhado o sobejo do sono. Batista andava meio inquieto ultimamente. Mas perder o sono fora a primeira vez. Tudo por causa da lourinha. Depois daquele encontro, Batista começou a sentir aquelas sensações ruins. Ruins, porém boas. Ruins, porquanto se tornava secretamente nervoso. Boas, posto que de extrema satisfação o formigamento que lhe impunha o nervosismo.
Simples gesto, seguido de peculiar agradecimento, escoltado

sábado, 24 de março de 2012

CHICOTADAS NA - E DA - PROFESSORA


CHICOTADAS NA - E DA - PROFESSORA

“C, h, e... Che; c, h, e... Che; c, h, i... Chi; c,h, i... Chi”.
Apurei as ouças e parei. Ficara seduzido pelo charme daquela voz. Tão limpa e feminina, sensual, até, estava por ver. Ou por escutar. Escutar, porque... Bem, vou explicar.
Moro parede e meia com um colégio estadual. Ontem à noite, estava sozinho em casa, silêncio completo, vou à garagem apanhar um livro que deixara no carro, então ouço aquele galante som professoral. Escoro-me no capô do carro e fico assistindo à aula. Aula de alfabetização, deduzi pelo che e chi. De adultos, percebi pelo timbre de voz dos alunos. De adulto cabido, um deles, ao menos, concluí ao perceber a capciosidade de certas perguntas.
Embevecido com a aula-palestra, pois agora os assuntos estavam transitando por diversas matérias, abasteço-me com caprichada dose de uísque, puxo uma cadeira, sento-me e fico gravando a aula.
“Professora Salomé, a senhora...”
Não escutei a pergunta do aluno atirado,

domingo, 18 de março de 2012

IMPLICÂNCIA


Implicância

            Não atino por que a pestinha da implicância vive a chicotear nossa mente. Só sei que ela chega de fininho, faz-se de brincalhona e tome ferroada. Quando percebemos, lá estamos a implicar com as mais tolas situações. Não me refiro à intolerância depressiva, irracional, mas à birra burlesca, controlável. Se bem que o sujeito precisa estar atento a fim de que a implicância não o contamine em áreas vitais, a exemplo do que aprontou com um amigo. Contou-me ele:
- Tião, cara, preciso de uma porçãozinha de autocontrole.
- Por que, meu nobre?
           - Porque... Veja, estava num evento literário, conheci uma escritora, começamos a papear, saímos para um barzinho. Tião, bicho, a mulher, liberadíssima, um boeing de feminilidade, está entendendo?

quinta-feira, 15 de março de 2012

SIMPLESMENTE LUNA


SIMPLESMENTE LUNA

          Luna não tirava a vista da piscina – tampouco do Bezerra. Da piscina, para ver em que local a Minervina ia aparecer. Do Bezerra, a fim de observar a reação dele quando a Minervina aparecesse. Luna era vizinha da Minervina. As casas se comunicavam por uma passagem localizada perto do bar da piscina. Protegida por um portão de madeira, a abertura encontrava-se livre naquela manhã. O duplo desleixo - da empregada, que a deixara fugir, e dos adultos que deixaram o portão aberto – proporcionou à Luna o interesse pela aventura: chegara à piscina bem na hora do mergulho da Minervina. Quis mergulhar também, foi ao local donde a Minervina pulara, olhou o azulão, balançou-se e... Ouviu o latido do Bezerra.
Bezerra pensa que sou besta. Pensou que eu ia pular. Sou novinha, tô ficando velha, mas doida não, Bezerra.
Ah, a Minervina saiu perto da churrasqueira. Pelo rosnado,

sexta-feira, 9 de março de 2012

BOLO LITERÁRIO


Tenho o costume de levar um bolinho de batata (uma delícia, gente. Encheu a boca d’água, não?) para os colegas de trabalho. O bolo vai sempre acompanhado de um texto, cuja leitura é o ingresso para saborear o bolo. Os avessos a leituras me dão um quinal e comem a guloseima de graça, mas isso é outra história.
Bom, veremos o que escrevi ontem, Dia Internacional da Mulher. Não significa homenagem a elas. São simples e descontraídos microcontos com incursões no universo feminino. Em apologia DELAS, há alguns textos aqui em embaixo. Sugiro CRÔNICOS ASSALTOS E O ASSALTO DA CRÔNICA.
Vejamos agora a brincadeira:

Olá, minhas nobres,
Como sabemos, microconto é uma espécie de conto muito pequeno. Embora a teoria literária ainda não o reconheça como um gênero literário à parte, fica evidente que as características do MICRO são diferentes das de um pequeno conto. Naquele, muito mais importante que mostrar é sugerir, instigar e deixar com o leitor a tarefa de preencher as elipses narrativas e entender a história por trás da história escrita.
Augusto Monterroso, guatemalteco, é apontado como autor do mais famoso microconto, escrito com apenas trinta e sete letras: Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.
O estadunidense Ernest Hemingway é autor de outro famoso microconto. Com apenas vinte e seis letras, ele nos faz pensar numa trágica história familiar: Vende-se: sapatos de bebê, sem uso.
Então! Vamos de bolo literário? Boas mordidas e boa leitura.

1. Pecador – Fizeram tudo no dia 8, em 8 minutos, no maior blá-blá-blá, rindo. Do amor bolaram a paixão, jogaram um balde daquela calda quente em cima de nós e se danaram a rir. Senhor – Vocês não falaram nada? Como? Imobilizados pela chave de braço, pelo mata-leão, pelo jogo de pernas, pela falta de ar? Só nos restava gemer: Ai... Ai... Ai... (Guerra dos sexos, Tião).

2. Cheirosíssima, ameninada, fez um risinho, babou-se, não resistiu... Tascou na boca... Mordeu.  – Ui! Nossa!! E aí? Gostou? – Pois diga! Cadê os dentes? Fez uma careta, todos riram, a mãe beijou-a, botou-a no colo e comeu o pedacinho do bolo. (Reunião de família, Tião).

3. O capim jaz solitário. O pé de Gabiroba olha de soslaio: “caraio!” Por pouco não foi pro balaio. Foice. (Foi-se, Sandra, Recanto das Letras)

4. Lembrou-se da noite anterior, lembrou-se que ele se foi  e disse pra imagem refletida: o amor acabou... Então, pensou... Às favas com ele!   Eu me sou e eu me basto. Pensou mais um pouquinho e resmungou... Só falta eu me convencer disto. E começou a escovar os dentes. (Olhou-se no espelho, Zélia Maria Freire, Recanto das Letras).

5. Santa mãe! Até que enfim! Que solzão é um, meu Deus! Será que as cotoveladas valerão a pena? Espero não me arrepender. Droga! Já? (Abençoada e uterina disputa, Tião).

6. Brigaram tanto que morreram ensanguentados, porém abraçados. – Verdade? - Mentira, meu! Tás nessa! Daí a um tempinho voltaram pro agarra-agarra. (Briga de gente grande, Tião)

7. Casal assistia "Estômago". Ao final, o homem: - A mulher passou o filme comendo e sendo comida. A acompanhante: - Achei que apenas ela comia. (Comida, Luzia, Canto do Escritor).


 8. Senhor, o exame exige imobilidade total. Sua sogra é capaz de ficar sem se mexer? Claro! Ela só mexe a boca quando quer encher o saco. (Exame, Rubo Medina, Recanto das Letras).


9. A coitada se achava... Posava de superior achando que era amada. Mal sabia que a educação que não tinha, os outros usavam para suportá-la. (Pontos de vista, Leila, Canto do Escritor).

Parabéns e beijos pras meninas, as lindas e as extremamente lindas, internacionalmente homenageadas no dia de hoje. Até pela belíssima LUA, já notaram? (Pros marmanchos nem água, ou melhor, só bolo, embora eu não seja machista),

8/3/2012,
Tião
uas




quinta-feira, 1 de março de 2012

O DIA DELAS E A SENHORA DOIS



O DIA DELAS E A SENHORA DOIS

Sabem vocês que mantenho o tolo costume de escrever sobre certos simbolismos. Servem de exemplos: Dia Internacional da Mulher, Dia das Mães, Dia Mundial do Idiota. Os dois últimos podem até ser esquecidos. Mas se nada redigir acerca do Dia Internacional da Mulher, a porca torce o rabo. Não só a porca, tampouco apenas o rabo. Caso deixe o DIM passar em branco, gente, Zizi e Zazá, o indicador e o maior de todos, meus dedos prosistas, ficam emburrados, torcem o nariz, tornam-se avermelhados e ficam pretos de tanto me coçar. Pouco lhes importa se eu não estiver inspirado. Tenho de transpirar a mil, como agora, e prosear qualquer besteirinha a fim de sossegá-los. A primeira vez - e última - que os contrariei, fui tachado de idiota.
A propósito,

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O FIM


O FIM

           Já falei e repito: escrever é o pior vício que existe. Não gostou da palavra “vício”? Então tá! Hábito, pois. Veja por que estou afirmando isso. Acabado o carnaval, cheguei da praia e fui dar uma olhadinha no blogue pra ver se alguém o tinha acessado. Difícil, pensei. Se praticamente não há consulta nos dias normais, imagine nesse feriadão. Dito e feito: nada de acesso.
Vou desligar o computador, então me chega da rua uma voz, pelo tropeço nas palavras, bêbada: “Acabou. Carnaval já era. Chegou ao fim.” Bastaram essas palavras para os dedos viciados deste rascunhador se alvoroçarem. Nada, do blogue; fim, do carnaval. Nada e fim. Pense em duas palavrinhas opostas. Não contei conversa e... Bom, você está me lendo, não? Hábito? Costume? vício?
Sobre o vazio do “nada” fiz uma postagem em dezembro do ano passado. Falei inclusive do conchavo dele com o zero. Agora do “fim” nunca escrevi nada. “Nunca escrevi nada do fim”. Que sentença mais oca, mais sem finalidade, não?
Nada, gente, é uma palavra completamente sem substância. Vá ao fundo da imaginação e procure o nada. Você se sente meio desnorteado, confuso, sem ter em que se agarrar, não é verdade? Falta-lhe apoio, confesse.
Fim, não. Essa é uma palavrinha forte. Aproveite aquela viaje ao fundo da imaginação para dar uma passadinha no fim. Viu conteúdo ou não viu? No fim, você pressente logo algo se acabando. No nada, você pressente o quê? Nada, é evidente.
O fim é tão potente que não só expressa o ponto em que se interrompe alguma coisa, mas também desencadeia o início de novo processo. Por exemplo. O fim de um relacionamento, seja amoroso, seja o que for, sinaliza o começo de outros relacionamentos. Até o fim definitivo é o recomeço de outras vidas, assim apregoam algumas crenças. Por falar nesse tipo de fim, daqui a 10 meses, 21 de dezembro, ocorrerá o fim do mundo, estão dizendo por aí. Preparado, meu nobre? Tenho uma teoria acerca dessa data, mas de falar dela não estou a fim.
Era isso, afinal o que eu queria dizer sobre o molenga do nada e o resoluto do fim. Só não sei se os meus nobres concordam comigo.
Concordam? Pois peguei-os na armadilha, meus! O poderoso supremo, o maioral maior, é o nosso amigo Nada, gente. Veja bem. O fim de algo é o começo de outro algo, nisso concordamos, beleza? Agora, eu pergunto. Esse procedimento é instantâneo, é pei-bufo, como diz minha turma do interior? Não, definitivamente não, meus nobres. Entre determinado fim e o consequente início existe sempre um tempinho, um vácuo, um espaço onde nada está acontecendo. E como é o nome dessas coisas. Nada, naturalmente. Nada acontecendo já diz tudo, certo? Daí que o nada delimita o fim do fim, ao mesmo tempo em que demarca o início do início. Com dupla função, o nada termina ganhando do fim, não é isso?
Em resumo. Nada é mais festejado do que certos fins (fim dum assalto, por exemplo), mas também nada é mais dolorido do que outros fins (fim dum relacionamento amoroso, por exemplo). Em ambos os casos, o nada, o meio de campo, foi o bicho, foi o sujeito. Foi ou não foi?
  Se você chegou ao fim deste texto deve estar igualmente festejando, não? Deve estar dizendo: “Ufa, até que enfim”.

FIM
Abraços finais,
Tião