terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O PODER DE UMA PULSEIRINHA


O Poder de uma pulseirinha

          Vicente beijou a mulher e saiu para o segundo trabalho. Passavam poucos minutos das dez horas quando chegou à Lotérica Sorte Boa. Ficou um tempinho, deu uma geral no ambiente, pegou a moto e foi para outro bairro. Parou no Banco de Andiroba, sondou o movimento e decidiu ir ao centro da cidade. Passava defronte da Caixa Econômica de Andiroba, então resolveu ficar uns minutinhos por lá. Deixou a moto um pouco distante da Caixa, pegou uma pasta dessas de transportar documentos, deu breve ajeitada no visual e entrou no estabelecimento.
Vicente, leitor, não é detetive, tampouco segurança de nenhuma empresa. Vicente é garçom de carteira assinada e tudo. O segundo trabalho do Vicente é assaltar. Leva carteira e tudo que o assaltado tiver no momento. Vicente é ladrão de primeira. Quer dizer, de segunda. Segunda ocupação, é claro.
Vaidoso, gosta de andar bem vestido,
frequenta academia, visita salões de beleza (para cuidar das unhas, evidentemente), cuida da pele, toma complexos vitamínicos. Vicente é metrossexual.  A vaidade, a propósito, deu um empurrãozinho na inclinação delituosa do Vicente. Na verdade, as duas, a vaidade e a inclinação. Ajudadas, naturalmente, pela insegurança pública que desprotege o cidadão. Com o aval, diga-se, da complacência das leis penais andirobenses.
Vicente tem 25 anos. Curte um baseadinho. De leve, mas curte. Também de leve, mas cheira. De leve, porque os proibitivos jamais foram empecilhos para o Vicente arrumar emprego.
“Tu só arruma emprego bosta, Vicente. Tu precisa estudar, cumpade. Tás dando uma de mané, meu! Tu gosta de andar maneiro, tem uma mulher bonita pra caramba. Então! A Lucinha tem de viver legal, senão ela pode desbandeirar pra coisa ruim, entendeu, cumpade? Além disso, os bagulhos tão ficando caro, bicho. Daqui a pouco, o teu salário não vai dar nem pra sustentar vocês. Aí, se tu entrar no pendura, a tendência é formiga, cumpade. Daí, meu camarada, tu tem de escolher. Suspender tudo e começar a estudar pra ver se consegue uma coisa melhor, que é o meu conselho, ou fazer umas paradas por aí. Digo isso, cumpade, porque tu é meu amigo de fé, amigo de infância e...”
Essa ladainha se repetia frequentemente. Burrego, o cheiroso fornecedor do Vicente, era cobra criada. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, o Vicente estaria no time do fedor. Aquela conversa do conselho de estudar era só conversa mesmo. Aliás, Burrego até sabia como pôr o Vicente no time. Estava esperando apenas ele pedir alguma coisa e dizer que pagava depois.
Até que num sábado ocorreu o pedido do Vicente. Burrego repetiu o discurso do emprego bosta e deu-lhe o xeque-mate:
“Tu tem medo, Vicente, mas, com um pouquinho de cuidado, o risco é zero, meu camarada. Tu não sabe, mas sabe quantos camaradinhas aqui do bairro entrou na parada de cinco mês pra cá? 8, cumpade! E ninguém foi preso até aqui. Mas se alguém for, não passa mais de cinco dias que a gente arruma um jeito de soltar.”
Aí o Burrego começou a dar lição ao Vicente e a lhe explicar os procedimentos.
Certo é que o Vicente estava no ramo havia quase dois anos. Nunca foi preso. Sempre pegava umas aulas com o Burrego: “Esqueça a polícia, trabalhe só, vá decidido. O risco é quase zero, pois ninguém é doido pra reagir quando sente um trabuco nas costelas. O risco se torna zero se você não der bobeira, não for displicente. A casa só cai se tu der muito azar, cumpade”.
E assim o Vicente fazia. Continuou servindo os clientes do bar e começou a se servir como cliente do alheio. Toda semana fazia uma parada. O dinheiro do fim de semana era garantido, tão rendosa era a atividade. Para trabalhar, nem do cheiro ou do fumo precisava mais. Fazia tudo no automático.
Pois então! Vicente pôs-se de frente a um balcãozinho da Caixa, pegou um envelope de depósito, abriu a pastinha de documentos e danou-se a mexer em contas de luz, água e outros documentos. Mexia nos papéis e mexia os olhos na direção de quem sacava dinheiro. Especialmente os idosos. Especialmente, não. Exclusivamente, pra dizer a verdade. Exclusivamente, sim, mas não naquela manhã. Não havia idosos sacando. Vicente olhou as horas: 11h18. Iria a outro local. Será que ia passar batido logo numa sexta-feira? Tinha que estar no bar às duas horas da tarde. Se até o meio dia não desse nada, iria pra casa, almoçaria e deixaria para arrumar o dinheiro do fim de semana à noite, em algum posto de gasolina.
Vicente arrumou a pasta, caminhou para uma máquina de depósito, retrocedeu, como se tivesse esquecido algo, e viu uma moça botando umas notas de cem cruéis dentro duma bolsa pequena e jogando a bolsa pequena numa bolsa a tira-colo. Parecia nervosa. Passou um tempão olhando a tela do terminal.
Essa aí tá amedrontada toda pra reagir. Já que só tem tu, vai tu mesmo, pensou o Vicente, saindo, esperando a jovem na rua. Uma chuvinha fez a mulher abrir a sombrinha. Longe de atrapalhar, a chuva só fez ajudar o Vicente.
“Chuva fininha, mas molha pra burro”, disse o Vicente tentando se amparar na sombrinha. A moça deu um risinho amarelo, Vicente encostou-se nela e anunciou o assalto. Caminharam por uns dois minutos, a bolsa pequena e o celular da moça já no bolso do Vicente, quando apareceu uma viatura quase na frente deles. Vicente exigiu que a jovem o abraçasse pela cintura e repetiu o gesto com ela. “Quero sentir a sua mão no meu cinto que é pra ter certeza que não tá fazendo sinal pra polícia”, disse o peste. Passaram numa boa pelos policiais. Vicente deu as devidas instruções à assaltada e reprisou a ameaça de praxe: “Se olhar pra mim ou gritar eu atiro.”
Bom, o Vicente apanha a moto e para num barzinho. Sempre toma duas doses de uísque depois de fazer uma parada. Conta a mufufa, 500 cruéis, e dá uma olhadela na identidade da moça. Lucila Maria Silva, filha de... Caralho, a bonitona é minha cunhada. Que diabo ela está fazendo aqui em Cristal? Se a Lucinha diz que ela mora no Brasil, no Rio de Janeiro? Ela saiu daqui eu nem namorava com a Lucinha, há quatro anos atrás. Porra! Ainda bem que a gente não se conhece. Mas ela não se parece nada com a Lucinha. Pode ser apenas coincidência do nome da mãe. Quer saber? Vou fazer o migué.
Vicente ligou para a mulher, a Lucinha:
“E aí, amor, tudo bem? Ainda tem queijo?”
“Tem. De quem é esse celular que você tá ligando?”
Lucinha fez a pergunta, mas nem esperou a resposta, tão feliz estava:
“Escuta só, amor. Sabe a minha irmã que mora no Rio, a Lucilinha, pois ela está aqui, amor. Quando você saiu, ela chegou. Foi na Caixa pegar um dinheiro. Não faz uma hora que ela ligou querendo saber o seu número de camisa. Ela é doida pra lhe conhecer. Pediu até que não ligasse pra você, porque queria fazer uma surpresa”.
Vicente deu uma bela desconversada, mas destilou um puto do “puta que pariu”, tão logo encerrou a ligação. No descontrole da descoberta, Vicente ligara do celular da moça. Por sorte, a Lucinha não percebeu que a ligação da irmã e a minha são do mesmo número. Assim que chegar em casa, tenho que dar um jeito de apagar a minha ligação do celular dela, pensou o Vicente. Porra!
Vicente tomou outra dose de uísque, repassou o assalto e ficou aliviado. Os conselhos do Burrego nunca foram tão úteis, matutou. Não dei oportunidade dela olhar pra mim em hora nenhuma. Minha voz também ela não vai conhecer, pois eu nunca uso a minha voz nesse trabalho. A camisa que vestia por cima da outra também já tirei. É só eu apagar o número do celular e pronto.
Menos chateado com a displicência, o Vicente foi pra casa.
Lucila, coitada, tristonha toda, estava contando a história do assalto pra Lucinha quando o Vicente chegou. Mesmo assim, sorriu pro Vicente e o abraçou, contente por conhecer o cunhado. Conversaram um pouquinho, o Vicente disse que ia tomar banho, pois ainda ia trabalhar, mas o que ele queria mesmo era pegar o celular da mulher a fim de apagar a ligação.
“Além de queda, coice, Vicente. Além de assaltada, a Lucila ainda perdeu uma pulseirinha que eu dei de presente a ela faz um tempão”, comentou a Lucinha.
“Isso foi o que mais senti, Vicente”, disse a Lucila.
“O sentimental não tem preço, Lucila”, concordou o Vicente, tirando a camisa pra ir tomar banho. Tirou a camisa, mas certa pulseirinha ficou segura no cinto da calça. Vicente notou, quis encobri-la, mas era tarde demais:
“Minha pulseira! Minha pulseira! Ficou presa no seu cinto, Vicente, quando o abracei a fim de que a polícia não desconfiasse de você. Sabia que meu marido é policial, Vicente? Ele anda com cada pulseirinha!”


Até mais ver,

Tião Carneiro