quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A REVISTA DA CLÍNICA



MICROCONTOS

Soltava os seus pensamentos, que de tão libertinos a si própria espantavam (Libertinos, Zélia Oliveira, Recanto das Letras)

Olha lá! Que lindos! O que é? Não vês? São pensamentos se esfregando no vento (Tião)

Oi, pessoal,
Na última postagem, falei do contágio do riso. Volto ao tema. Abro o post com a mesma frase da outra, mas espero que não riam da falta de criatividade, ok?


A REVISTA DA CLÍNICA


             Esse negócio de rir é engraçado. Desculpem a impropriedade vocabular, ou o trocadilho da sentença. Saiu sem eu querer, meu nobre. Por que não a deletei, se precisei me desculpar? Porque sinto enorme dificuldade em abrir um texto. Então, quando algo me vem à cabeça, procuro logo trancafiá-lo na prisão do word. Algo é escorregadio demais, gente. De mais a mais é titubeante. “Algo me diz” não dá garantia alguma de que o que o bexiguento está a nos dizer seja verdade, não é certo?
Bom, a sessão de riso ocorreu numa clínica. Sessão dupla, verão vocês, minhas nobres. Cheguei à clínica,
apanhei um jornal e fiquei lendo a lista dos 10 mais. Todo fim de ano o pessoal elabora essas listas. Os 10 melhores filmes, os 10 melhores livros e por aí vai. Também faço as minhas. Só que prefiro a relação dos piores. Os 10 piores blogues, os 10 piores corruptos (há corrupto bom?) e por aí também vai.
“Tás aonde, hôme?” Minha atenção se volta para essa interrogação, vinda do fim da fila das cadeiras. Não sei aí onde vocês moram, meus nobres, mas aqui em Natal, 10 em cada 10 início de conversa por celular começa com essa irritante pergunta. Vejo na indagação tremenda invasão de privacidade. Além de que, a resposta, na maioria das vezes, não traz o selo da autenticidade. Não faz três dias, estou num barzinho, meu vizinho de mesa fala desta forma ao celular: “Tô chegando, querida. Tô passando na ponte.” Falou, bebeu uma copada de cerveja, apertou uma tecla do aparelho e indagou de alguém: (Tás aonde, menina?)
Não só a minha atenção, mas a de todos ali se volta para a raivosa indagação feminina. É que a voz da senhora é muito alta, gente. “Ora quem é? É a Maria da Penha, seu desgraçado. Tás se fazendo de doido, é?”, diz a mulher, aos gritos. “Venha logo me apanhar aqui onde me deixou, seu infeliz da costa oca.”
A moça ao meu lado foi quem puxou a risada. Quando nos demos conta, estávamos todos na maior risadeira do mundo. Todos, vírgula: o rapaz sentado na minha frente, sério estava, sério permaneceu. A mulher saiu de fininho e foi terminar o amistoso diálogo do lado de fora da clínica.
Abandono as listas e pego uma revista. Vou passando as páginas, desinteressado todo, mas uma galhofeira prosa ativou-me a coceira da curiosidade. A comichão transformou-se em riso, sorriso, gargalhada. Maluquice completa, minhas nobres.
“Tá lendo o que, meu amigo, pra rir desse jeito. Tá rindo de que agora?”, indagou-me o rapaz sentado de frente pra mim, que, pelo visto, não gostava de rir. Nem de quem ria. De paletó nas costas, ajeitando a gravata, espantoso crachá dependurado no pescoço, de óculos escuros (ele, não o crachá, é lógico), o sujeito parecia ser um daqueles.
“Desculpe, amigo. Descontrolei-me com uma crônica que tem aqui. Desculpe se perturbei o senhor.”
“Deve ser um texto de muito bom humor, não?”
“É.”
Juro que me deu vontade de dizer “Não. O texto é sangrento, moço. Reporta-se à ruma de gente que neste instante está gemendo nos corredores do Walfredo Gurgel.” Respondi o é e voltei para a leitura:
“É sobre o quê?”
Porra! É claro que em respeito ao ambiente não soltei a obscenidade. Mas bem que o cara merecia.
“É sobre um jumento imbecil. Aliás, o dono do jumento é que é imbecil.”
“Ah, jumento. Andei muito de jumento. Sabe, amigo...”, animou-se o engomadinho, mudando de lugar, sentando-se ao meu lado, batendo em meu ombro.
“Sabe, amigo, andei muito de jumento. Sempre gostei de história de jumento...”
Olhei pra recepcionista e perguntei se a minha vez ainda ia demorar. O inconveniente não se mancou e tome conversa de jumento. Fiquei me coçando, doido pra meter umas porradas verbais no idiota conversador. Mas ponderei e sugeri.
“Quer ler a prosa, amigo? Tome a revista.”
“Não posso. Tô com os olhos que não aguento. Parece que é conjuntivite. O senhor bem que podia ler pra mim e pro resto do pessoal. Ficar-lhe-ia muitíssimo grato.”
Puta que pariu. Pensei no palavrão – no meu e no dele - fiquei olhando pro sujeito, comecei a rir da idiotice do mauricinho, os vizinhos também, a recepcionista foi no embalo. Zorra total. Só o cara ficou sério, acreditam, meus nobres! Aí, sabem o que fiz? Abri a revista e comecei a ler:

&&&

Meu jumento, o Sabido, passou quinze dias comendo a rama daquele jerimum. Sabido pastava pela manhã e à tardinha. Ele comia, comia e a rama não acabava.
Sabes, né, Simas, que existe jerimum cuja ramagem mede 10, 15 metros. Pois então. Mião descreve a cena assim:
Até que lá pelo dezesseis, dezessete dias, o Sabido acabou a rama. Comeu a rama todinha. Aí o cabeça de vento não teve o que fazer e socou-se dentro do jerimum. Sabido ficou de bucho tão cheio que terminou pegando no sono dentro do jerimum. Foi preciso cinco homens pra arrancar o Sabido de dentro.
Chegamos à vila e fomos direto tomar uma bicada na venda do Chicão. Quando contamos a história, o delegado Silva quis botar a gente no xilindró. Cambada de mentiroso, disse ele. Vão ver o sol nascer quadrado que é pra aprenderem a mentir. Nossa sorte foi o compadre do delegado, o Tico de Seu Zé do Varão, está com a gente.
Tico de Seu Zé do Varão foi em casa... Tico da Varinha, fazendo um parêntesis, sempre foi um sujeito prevenido. Ele procura arrumar uma prova em tudo que faz. Então a gente tinha botado quatro sementes do jerimum na carroça de Sião de Seu Kião e deixado na casa do Tico da Varinha. Esse costume começou quando o Tico tava no cabaré e as primas começaram uma discussão com o intuito de saber se o apelido Tico da Varinha tinha nascido do fato de...
Bom, o Tico da Varinha falou assim pro delegado Silva:
“Com todo respeito meu cumpadre Sirva, mas a gente num somo de mentira não. Espere um tempinho que vou em casa que é pra trazer a prova.”
O delegado balançou a cabeça, e nosso amigo Tico da Varinha saiu acompanhado do Pedro do Zé Buchudo e do Gonçalo do Luiz Gordo. Daí a pouquinho eles chegaram com quatro sementes do jerimum e jogaram na calçado do biongo, nos pés do delegado. O delegado deu um pulo, mas não teve jeito: acabou machucando o pé direito com uma das sementes.
A gente deve esse grande favor ao Tico da Varinha.
Foi isso.

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Terminei de ler a vara e a remo. As partes de baixo eram uma gafubira só. Por sorte, a atendente me chamou:
“Sua vez, Sr. Tião.”
Constrangido, visto todos olharem para a minha chanha, levantei-me e me encaminhei para o consultório. Ou melhor, tentei caminhar, pois tive que me voltar e responder ao aloprado, que me perguntava alto e bom som:
“É chato, é seu Tião?”
Aí, puto da vida com a sarna e com a impertinência do imbecil, olhei bem pro crachá do infeliz, decorei o nome, pensando em pô-lo na listinha que faço todo fim de ano, dei uma coçada daquelas e silabicamente respondi:

É por-ra! Não tá se ven-do não, por-ra?

Tião Carneiro