quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O FIM


O FIM

           Já falei e repito: escrever é o pior vício que existe. Não gostou da palavra “vício”? Então tá! Hábito, pois. Veja por que estou afirmando isso. Acabado o carnaval, cheguei da praia e fui dar uma olhadinha no blogue pra ver se alguém o tinha acessado. Difícil, pensei. Se praticamente não há consulta nos dias normais, imagine nesse feriadão. Dito e feito: nada de acesso.
Vou desligar o computador, então me chega da rua uma voz, pelo tropeço nas palavras, bêbada: “Acabou. Carnaval já era. Chegou ao fim.” Bastaram essas palavras para os dedos viciados deste rascunhador se alvoroçarem. Nada, do blogue; fim, do carnaval. Nada e fim. Pense em duas palavrinhas opostas. Não contei conversa e... Bom, você está me lendo, não? Hábito? Costume? vício?
Sobre o vazio do “nada” fiz uma postagem em dezembro do ano passado. Falei inclusive do conchavo dele com o zero. Agora do “fim” nunca escrevi nada. “Nunca escrevi nada do fim”. Que sentença mais oca, mais sem finalidade, não?
Nada, gente, é uma palavra completamente sem substância. Vá ao fundo da imaginação e procure o nada. Você se sente meio desnorteado, confuso, sem ter em que se agarrar, não é verdade? Falta-lhe apoio, confesse.
Fim, não. Essa é uma palavrinha forte. Aproveite aquela viaje ao fundo da imaginação para dar uma passadinha no fim. Viu conteúdo ou não viu? No fim, você pressente logo algo se acabando. No nada, você pressente o quê? Nada, é evidente.
O fim é tão potente que não só expressa o ponto em que se interrompe alguma coisa, mas também desencadeia o início de novo processo. Por exemplo. O fim de um relacionamento, seja amoroso, seja o que for, sinaliza o começo de outros relacionamentos. Até o fim definitivo é o recomeço de outras vidas, assim apregoam algumas crenças. Por falar nesse tipo de fim, daqui a 10 meses, 21 de dezembro, ocorrerá o fim do mundo, estão dizendo por aí. Preparado, meu nobre? Tenho uma teoria acerca dessa data, mas de falar dela não estou a fim.
Era isso, afinal o que eu queria dizer sobre o molenga do nada e o resoluto do fim. Só não sei se os meus nobres concordam comigo.
Concordam? Pois peguei-os na armadilha, meus! O poderoso supremo, o maioral maior, é o nosso amigo Nada, gente. Veja bem. O fim de algo é o começo de outro algo, nisso concordamos, beleza? Agora, eu pergunto. Esse procedimento é instantâneo, é pei-bufo, como diz minha turma do interior? Não, definitivamente não, meus nobres. Entre determinado fim e o consequente início existe sempre um tempinho, um vácuo, um espaço onde nada está acontecendo. E como é o nome dessas coisas. Nada, naturalmente. Nada acontecendo já diz tudo, certo? Daí que o nada delimita o fim do fim, ao mesmo tempo em que demarca o início do início. Com dupla função, o nada termina ganhando do fim, não é isso?
Em resumo. Nada é mais festejado do que certos fins (fim dum assalto, por exemplo), mas também nada é mais dolorido do que outros fins (fim dum relacionamento amoroso, por exemplo). Em ambos os casos, o nada, o meio de campo, foi o bicho, foi o sujeito. Foi ou não foi?
  Se você chegou ao fim deste texto deve estar igualmente festejando, não? Deve estar dizendo: “Ufa, até que enfim”.

FIM
Abraços finais,
Tião

sábado, 11 de fevereiro de 2012

BENDITOS SEJAM OS GATOS


Os Gatos I

Faz só vinte e quatro horas que os vi.
Ele, na rua, vê o gato branco que, do alvo meio fio, o vê como pai. Ou será uma gata? Meu Deus! É um gato e uma gata. De tão juntos, pensei que fossem só um. Estão rindo, olha lá! Senão, por que a chama nas ventas, o fulgor no olhar, o hirto nos pelos?
Eu, do outro lado da rua, faço do meio fio uma cama, sento e me ponho a chorar.
Ele, pah! Bate duas fotos dos gatos.
Eu, também pah! Bato seis fotos dos gatos. Duas de cada um, pois ele também é um lindo gato.
O gatão não me olha. Sai rindo, andar lesto, senhor de si.
Um dos gatos fica calmo, dá dois cheiros nas patas e pisca pra mim. O outro, a gata, acho, me olha e mia.
Fico triste, se bem que a sorrir, pés presos, a mercê de sonhos.
Tola, tonta, não corro atrás dele. A mente

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

MAS HOMEM!


MAS HOMEM!


“É um assalto. Fique quieto. Não olhe pra mim. Quero ver o saldo! Quanto é o saldo! O saldo, cara! Logo! Vai! Depressa! A repetição: o saldo, cara! Logo! Vai! Depressa!”
Ante meu nervosismo, revelado em três infrutíferas tentativas de achar no painel do terminal o botão do saldo, o marginal, coladinho a mim, um trezoitão espetando a minha costela, falou assim, deixando-me a parede e meia da morte:
“Tu quer levar um tiro, é cara? Faz o seguinte. Bota saque! Saque! Quinhentos reais. Agora cuidado! Se tu errar, eu te dou um tiro. Vamos! Depressa.”
Saque efetuado, meu celular no bolso do bandido, vem a ordem final:
“Vou sair. Não sai daí. Não olhe pra porta. Não se vire.