sábado, 11 de fevereiro de 2012

BENDITOS SEJAM OS GATOS


Os Gatos I

Faz só vinte e quatro horas que os vi.
Ele, na rua, vê o gato branco que, do alvo meio fio, o vê como pai. Ou será uma gata? Meu Deus! É um gato e uma gata. De tão juntos, pensei que fossem só um. Estão rindo, olha lá! Senão, por que a chama nas ventas, o fulgor no olhar, o hirto nos pelos?
Eu, do outro lado da rua, faço do meio fio uma cama, sento e me ponho a chorar.
Ele, pah! Bate duas fotos dos gatos.
Eu, também pah! Bato seis fotos dos gatos. Duas de cada um, pois ele também é um lindo gato.
O gatão não me olha. Sai rindo, andar lesto, senhor de si.
Um dos gatos fica calmo, dá dois cheiros nas patas e pisca pra mim. O outro, a gata, acho, me olha e mia.
Fico triste, se bem que a sorrir, pés presos, a mercê de sonhos.
Tola, tonta, não corro atrás dele. A mente

tira a ação que o corpo requer. A mente me manda pra casa. Não à casa do botão do gato, e sim o teto de meu lar. Sem o roçar de sua linha, mas com o coçar de meu anzol, fico na cama a curtir meus planos, e eles a me fazer gemer.
Qual será o seu nome? Quantos anos terá? Vive de quê?
Não quero saber disso, zombo da fala mental. Quero mesmo é vê-lo de novo, pegar em sua mão, olhar em seus olhos. Falar e ficar muda. Ficar muda e falar. Gritar e calar. Calar e gritar. Rir e chorar. Chorar e rir. São tais verbos que há tempo batem, às vezes de forma sutil, a porta de meu jovem prazer. Às vezes de forma sutil, é certo, porque, na cena dos gatos, eles quase punham a porta no chão.
Nunca vi homem mais homem. Homem mais lindo. Nunca me senti com mais fervor de ser mulher. Mulher mais bife.
Meu Deus, o que estou a pensar? As normas de minha cama põem essas coisas longe de mim. A crença de meus pais veda sonhos tão belos.
Tenho 15 anos, sei da força do sexo, mas não tinha noção de seu belo poder.  Até brinco quando vejo alguém dizer que a paixão não tem hora para surgir. Coisa de gente besta, penso. Mas sinto no vibrar do corpo, na dor da alma e no grito dos pulmões a morte dessa fé.
Olho o olhar dos gatos, que riem à toa, e vou pra casa. Ah se o mundo fosse só meu e de meu mito mortal, de coxas grossas, de bunda balão, de andar viril, de braços fortes, de riso carnal, de... De...
Ah se o mundo fosse só de nós dois. Nós dois? Ah como gosto do “dois”. Farei do “dois” o norte das letras de meu ardor febril.
Meu pai abre o portão. Olho ao redor.
Meus Deus! Que susto! Não fosse o braço de meu pai, a queda... Sabe quem tinha vindo no meu cheiro?
O gatão. O de quatro patas.

Os Gatos II

Venho aqui todos os dias. Aqui, ao lado desta casa de frutas, foi onde, um mês atrás, vi o Fico. Dei-lhe o nome de Fico porque ficar com ele é o sonho de minha vida. Ficar em termos de suar, visto que no sonhar não saio dos braços dele. Nunca tinha visto o Fico, mas foi só o olhar bater no corpo dele para a paixão me picar.
O homem, porém, não anda mais por estes lados. Será que ele me viu? Caso tenha me visto, será que gostou de mim? Se gostou, por que sumiu?
— Quem sumiu, minha filha?
— O Fico. Perdão, Dona. Pensei alto.
— Por favor, meu nome é Gema, moça. Gema da Silva. Não me chame de Dona. Não sou tão velha. Esse tal de Fico é o grande amor de sua vida, não é? Sempre quis saber a causa de tanta dor nesta face tão jovem. Vejo você todos os dias a esmo por estas bandas. Como é seu nome?
— É, Gema, você está certa. O Fico é meu grande amor. Pode me chamar de Dalva. Veja a foto do Fico. Já viu ele por estas bandas?
— Não. Ele é lindo, Dalva. Quer um milho? Quantos anos você tem? Quer me falar desse mal-estar?
— Quinze anos. Quero o milho, sim.
Abri-me com a Gema. Contei tudo, tintim por tintim. Falei do casal de gatos e até mesmo de o gato branco ter ido atrás de mim.
— E o gato está em sua casa?
— Não, Gema. Sumiu também.
            — Ah, minha filha. Os gatos são meus. O gato chama-se Simão e a gata eu a chamo de Mone. O pai deles, Dalva, é tão sagaz quanto o gato que sumiu de sua vida. Brigou com a mãe dos filhos antes de ela parir. Brigou e não deu mais as caras. Nem carta manda. Ao menos um e-mail ele passa, um miau ele mia.
Digo sagaz, Dalva, porque, pode ficar certa, esse gato de seus sonhos também viu você. Ele deve saber de tudo, minha filha. Ele viu a paixão em seus olhos, mas está dando uma de sonso. Homem é bicho tolo, Dalva. Mas um dia ele virá até você.
Certo que ele não sabe onde você mora, Dalva. Mas, sagaz como deve ser, pode muito bem achar você onde a viu no dia dos gatos. Sabe de uma coisa, Dalva? Talvez ele more em outro lugar, em outro país. Já pensou nisso? Será que ele não mora no Brasil? Se assim for, tá até bom, Dalva. Daqui ao Brasil é um pulo. De gato, é claro.
Com uma ponta de dor na alma, ri da prosa de minha guia.      
Gema também riu, porém logo se tornou triste, com ar de santa.
Gema beijou minha testa e ficou a chorar. E eu a rir sem saber o porquê.

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            Essa prosa, gente, faz parte de meu livro, o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. Carlinda, aqui chamada de Dalva, mete-se numa confusão, briga com o amante, aqui chamado de Fico, e foge do país. Ambos são apaixonados pelas palavras e têm blogues de literatura. Carlinda foge gestante, dá à luz gêmeos, arrepende-se da briga, quer dar a notícia ao Fico, o pai das crianças, mas não pode se comunicar diretamente, pois é caçada pela polícia. Então ela posta esse conto no blogue na esperança de que o namorado descubra a boa nova pelas entrelinhas. Diz ela:

            “Faz 24 horas que pari nossos filhos (o gato e gata). Chamam-se Simão e Mone. Sinto a sua falta. Fui tonta quando briguei com você.”
Ela ainda avisa ao Fico que a antiga empregada, a Gema, está cuidando dela. O texto é só entrelinhas, minha nobre. Deixo com você o prazer literário de descobrir os recados e pressentir os sentimentos da apaixonada Dalva.
            Ah, a fuga da Dalva foi consequência de uma tal CPI do Dois. Então, para provar ao amante que o texto era da autoria dela, a Dalva escreveu os Gatos usando apenas monossílabos dissílabos.
           
Com dissilábicos beijos nas gatas e monossilábicos abraços nos gatos (não sou machista, não meu nobre. Isso é só para descontrair, viu?),

Tião