terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

MAS HOMEM!


MAS HOMEM!


“É um assalto. Fique quieto. Não olhe pra mim. Quero ver o saldo! Quanto é o saldo! O saldo, cara! Logo! Vai! Depressa! A repetição: o saldo, cara! Logo! Vai! Depressa!”
Ante meu nervosismo, revelado em três infrutíferas tentativas de achar no painel do terminal o botão do saldo, o marginal, coladinho a mim, um trezoitão espetando a minha costela, falou assim, deixando-me a parede e meia da morte:
“Tu quer levar um tiro, é cara? Faz o seguinte. Bota saque! Saque! Quinhentos reais. Agora cuidado! Se tu errar, eu te dou um tiro. Vamos! Depressa.”
Saque efetuado, meu celular no bolso do bandido, vem a ordem final:
“Vou sair. Não sai daí. Não olhe pra porta. Não se vire.
Se tu se virar, eu te derrubo com um tiro.”
            Isso aconteceu às 19h18 de 4/8/09, dentro da agência do Banco do Brasil do Alecrim, Natal-RN. A vítima? Euzinho aqui, meus nobres.
            Sabem por que estou lhes dizendo isso? Porque... Bom, pelo que acabo de ler agora, às 19h47, em O Jornal de Hoje, de hoje, de 6/2/12. Na página 6, desdobrando uma manchete sobre a fuga dum centro de detenção, o repórter dá o nome dos fugitivos e escreve: “Todos os quatro estavam presos na unidade pelo crime de assalto a mão armada, o que deixa em alerta a polícia, tendo em vista que a possibilidade de eles voltarem a praticar o mesmo tipo de crime é alta”.
            Bota alta nisso! Ela é tão alta quanto se queira (alguém aí conhece o Siqueira?). Meterem uma pistola no espinhaço dos indefesos é a mais verdadeira das verdades, comentei com os meus botões, descendo da tipoia, tirando a camisa, visto a onda calorenta que de mim começava a se desprender, pois a notícia jogou-me na mente o calor do assalto de que fora vítima.
            Jantei, estirei os cambitos numa preguiçosa e tinha três opções de leitura. O jornal, a Superinteressante e um livro, Sexo e Espiritualidade.
Achei de pegar logo o Jornal e de dar uma olhadela no meio da estimulante reportagem. Bisbilhoteiro, botei os olhos no início da matéria: “A fuga aconteceu por volta das três horas, quando apenas um agente penitenciário e dois policiais militares faziam a guarda de quase noventa homens”.
“Caramba!”, exclamaram os meus amigos botões, tentando me abanar por causa do insuportável ardor.
Continuei lendo. Lá pras tantas, o jornalista se reporta assim ao secretário de Justiça e Cidadania: “Ele lembrou que a governadora Rosalba Ciarlini determinou a nomeação imediata de mais quatro agentes penitenciários, que serão enviados para a penitenciária de Alcaçuz, de onde fugiram mais de 50 presos somente neste mês de janeiro”.
“Calma aí, homem! Veja a coisa pelo lado otimista. Quatro é melhor que dois. Já pensou se tivessem sido nomeados apenas dois?”, meus parceiros disseram isso, sérios, tornaram a me ventilar, mas juro que pressenti uma nesgazinha de ironia na expressão dos safados.
Abandonei o jornal e fiquei matutando (matuto adora matutar). Matutando, matutando, tive uma belíssima ideia, modéstia à parte. E se os presos ficassem presos? Já teríamos um estrondoso avanço na segurança pública, não acham, minhas nobres?
Matutando, matutando, lembrei-me de Chico Cabeludo, colega de copo. Diz ele: “Tem que aumentar o risco pro bandido, Bastião. Os caras não tão nem aí pra polícia. Tão assaltando de cara limpa, num querem nem saber de câmara, metem bala e saem chupando o dedo. Só tem um jeito, Bastião, mas se a gente der esse jeito os ‘direitozumano’ cai de pau em cima da gente”.
Qual, Chico? Matar?
“Não. Que é isso, Bastião!”
Prender e botar os meliantes pra arrancar toco?
“Não!”
Então qual é o jeito, Chico Cabeludo?
“É o jeito, né, Bastião!”
Espichei mais as pernas e tome matutação, mormaço e balançada de rede por contas dos solidários botões. Matutando, matutando, saí da Segurança, passei na Educação, parei na Saúde. Como costuma dizer o Chico, estamos pebados. Nenhum sistema desses funciona. Pagamos impostos federais, estaduais, municipais, escambais e nadica de nada de retorno. Precisamos fazer alguma coisa. O quê? Sei lá! Mas vocês sabem, não sabem, meus nobres?
           Onde os desalmados governante enfurnam tanta mufufa, se a Educação é completamente analfabeta, dizendo-se “menas” favorecida, e anda gritando epa? Escola até que existe, mas o nível de ensino, ó! Será que os carinhas desconhecem que tudo começa com a educação?
Acordem, governantes! Mexam-se, mexam-se!
       Onde os desalmados governantes enfurnam tanto dinheiro, se a Segurança é completamente vulnerável, dizendo-se desprotegida, e caminha com as mãos pra cima? Policiais até que existem, mas o nível de organização, ó! Será que os carinhas desconhecem que o combate ao crime começa quando se aumenta o risco para o infrator?
            Acordem, governantes! Mexam-se, mexam-se!
         Onde os desalmados governantes enfurnam tanta grana, se a Saúde é completamente esquelética, dizendo-se mortiça, e perambula aos tombos? Hospitais públicos insuficientes, daí o nível de atendimento, ó! Será que os carinhas desconhecem que tudo termina quando a saúde vai para o brejo?
            Acordem, governantes! Mexam-se, mexam-se!
Ajudado pelos botões, levanto-me da rede e apanho o jornal, os olhos em cima de uma notícia de ladroagem. Isso é fichinha, matutei. Ladrão é o que não falta neste país. Dou uma senhora espreguiçada, imaginando ir ao computador a fim de pagar a fatura do Híper. Mas não dava mais tempo. Pago amanhã, o juro não deve ser essa coisa toda, pensei, olhando a percentual. Como assim? 16,96% ao mês, 572,93% ao ano?
          Foi isso, Senhor. Esse é o relatório.
Muito bem. Aí o senhor viu a taxa de juros, seus botões o abanaram, mas aí o senhor não aguentou a pressão e veio me visitar. Lembra de mais alguma coisa, Seu Bastos?
        Da troca de pneus, Senhor. Antes de chegar ao hospital, o carro caiu duas vezes nuns buraquinhos, por isso, o motorista teve de trocar duas vezes o pneu. Lembro também, Senhor, dos gemidos de meus companheiros, que, assim como eu, ficaram acomodados, por quase cinco horas, no corredor do hospital.
            Muito bem. Então, Seu Bastos, o senhor acha que morreu de indignação?
            Sim! O Senhor também não acha?
            Acho, não. Tenho certeza. Por isso o senhor vai voltar pro meio de seu povinho. Só os covardes, coisa que o senhor não é, Seu Bastos, morrem de indignação. Vai! Vaza! Pegue o beco!
            Mas, homem! Pelo amor de... do Senhor, não faça isso não, homem de Deus, digo do Senhor. Deixe-me aqui.
            Não, Seu Bastos. Seu lugar é lá. Volte!
            Vote? O Senhor disse votar, foi?
            Disse volte, Seu Bastos. Votar é problema do senhor, de seu livre-arbrítio, entendeu?
            Mas Homem!

            Um abraço desassombrado,
            Tião