sábado, 24 de março de 2012

CHICOTADAS NA - E DA - PROFESSORA


CHICOTADAS NA - E DA - PROFESSORA

“C, h, e... Che; c, h, e... Che; c, h, i... Chi; c,h, i... Chi”.
Apurei as ouças e parei. Ficara seduzido pelo charme daquela voz. Tão limpa e feminina, sensual, até, estava por ver. Ou por escutar. Escutar, porque... Bem, vou explicar.
Moro parede e meia com um colégio estadual. Ontem à noite, estava sozinho em casa, silêncio completo, vou à garagem apanhar um livro que deixara no carro, então ouço aquele galante som professoral. Escoro-me no capô do carro e fico assistindo à aula. Aula de alfabetização, deduzi pelo che e chi. De adultos, percebi pelo timbre de voz dos alunos. De adulto cabido, um deles, ao menos, concluí ao perceber a capciosidade de certas perguntas.
Embevecido com a aula-palestra, pois agora os assuntos estavam transitando por diversas matérias, abasteço-me com caprichada dose de uísque, puxo uma cadeira, sento-me e fico gravando a aula.
“Professora Salomé, a senhora...”
Não escutei a pergunta do aluno atirado,
posto que passava na rua um desses carrinhos, antigamente de sorvete, hoje de música. Às alturas, o indiscreto tocava reboladíssimo sacolejo de um grupo musical daqui de Natal. O refrão era este: “vem de peito, vem de peito, vem de peito, mas se não tiver peito, vem de bunda, vem de bunda, vem de bunda”. Depois o carro começou a se afastar tocando Rio Antigo, com Alcione. Interessante é que a intervenção do assanhado aluno havia sido exatamente sobre o refrão da estimulante música, do contrário a professora não estaria a repreendê-lo:
“Se vou com peito, com bunda ou com outro excitante, não é de sua conta, Seu Orlando. O senhor deve perguntar essas coisas a meu namorado. Ele lhe dirá, após enchê-lo de porradas, que, em nossas degustações, fazemos questão de determinadas companhias. Além dos componentes corporais que citou, sempre nos acompanham a probativa de sabores e os “folheadores” de cardápios. São essas companhias, Seu Orlando, que preparam a deliciosa refeição de todo o santo dia. Sabe, Seu Orlando, suas falas são cheias de lero-leros, tendenciosas, no mais das vezes.”
Caramba! A professorinha botou quente no tal do Orlando. Professora está sujeito a cada uma. O salário, ó! e ainda ter de ouvir certas figuras! Matutava assim e terminei perdendo a pergunta seguinte. Acho que se reportava ao Velho Chico, por isso a professora estava respondendo:
“Por que todo Francisco é Chico, Seu Francisco. Ora bolas! Ele é brasileiríssimo, sim. Nordestino típico, de mais a mais. Canastra é tão somente um nome, mas não nasceu canastrão, Seu Francisco. Pelo contrário, competente, integrador e autêntico é o que sempre foi. Daí a expressão integração nacional.”
“Pena que ele tenha morrido, não é, professora?”
            “Que conversa é uma, Seu Francisco. Não, não morreu, nem morrerá. Ele nunca será um rio que passou em nossas vidas. Será sempre um Vasco da Gama a navegar na memória de cada brasileiro.”
            “Mas se a televisão tá dizendo que ele morreu, professora? Pergunte ao professor Raimundo, então! O professor tava na sala quando a televisão tava dando a notícia. Inclusive...”
            “Mas... mas... mas...”
            Não quis ouvir o gaguejado da professora Salomé. Sabia da doença do Chico. Desliguei o gravador e fui para a internet. Li tudo. Lembrei-me de seus personagens e terminei plagiando o que falou o Drummond quando a Cacilda Becker morreu:
Morreram Chico Anysio.

Abraços enlutados,
Tião