domingo, 18 de março de 2012

IMPLICÂNCIA


Implicância

            Não atino por que a pestinha da implicância vive a chicotear nossa mente. Só sei que ela chega de fininho, faz-se de brincalhona e tome ferroada. Quando percebemos, lá estamos a implicar com as mais tolas situações. Não me refiro à intolerância depressiva, irracional, mas à birra burlesca, controlável. Se bem que o sujeito precisa estar atento a fim de que a implicância não o contamine em áreas vitais, a exemplo do que aprontou com um amigo. Contou-me ele:
- Tião, cara, preciso de uma porçãozinha de autocontrole.
- Por que, meu nobre?
           - Porque... Veja, estava num evento literário, conheci uma escritora, começamos a papear, saímos para um barzinho. Tião, bicho, a mulher, liberadíssima, um boeing de feminilidade, está entendendo?
Pintou o clima da imaginação erótica, cara. Lá pras tantas, a charmosa olhou o relógio. Eu, mal-intencionado todo, perguntei-lhe se queria levantar acampamento. A lindona sorriu e pôs a mão direita no meu joelho:
           - Sim. Até cupido tem os seus acampamentos, não?
           - Verdade, minha nobre. Amanhã não seremos o que fomos nem o que somos.
         “Concordo plenamente. Convido-o, então, para continuarmos citando Ovídio, o poeta do amor, em meu apartamento”, disse a assanhadinha, tremendo-se de tanto rir.
         Bom, pra resumir a história, caro Tião, estamos lá, horizontalmente febris, salivas misturadas, ofegando na mesma passada, equipamentos testados e aprovados, aguardando tão somente a sirene do Ovídio para explodirmos, e eis que a poetisa levanta-se e começa a declamar, não sem antes comunicar que os versos seriam dela:
           “Um delírio divino, uma dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave, uma ondulação interminável através do qual os corpos fazem apenas o que deve ser feito um para ou outro, levando-os além da fronteira do êxtase na direção do plano sutil da multifacetada experiência mística.”
         Tião, bicho, pulei da cama, comecei a me vestir, e a esperada explosão surgiu em forma de desaforo:
Sabe de uma coisa, D. Ovídia, pegue o seu enviesado através, cubra a multifacetada de sua multifacetada, fique se multifacetando sozinha, se preferir, pois o Ovídio aqui vai embora.
         Bati a porta e saí, Tião. Com dois minutos estava arrependido, é certo, mas...
        Implico demais com o tal do através e da multifacetada. Ô duas palavrinhas chatas! Preciso me livrar dessa besteira, amigo. Como agravante, a faceteira ainda jogou as duas indecentes na boca do Platão. Esse poema é dele, Tião. A embusteira disse que o poema do Platão era dela e ainda introduziu duas palavras que o Platão jamais pronunciaria. Pode um negócio desse, Tião?
       Devidamente consolado, o amigo me deu o celular da beldade a fim de que eu a ela justificasse a causa de sua potente disfunção semântica.
       Liguei, marcamos um encontro, disse-lhe que meu amigo ficava brocoió ao ouvir as duas palavrinhas etc. etc. etc.. A bela poetisa mostrou-se compreensiva, revelou que recitar o poema naqueles momentos era implicante exigência da libido e que não esperava tamanha patada de meu amigo. Sorrimos e confessei que também tinha minhas implicâncias. Gostava, sobretudo, de ouvir o através e o multifacetado em dados momentos. Implicava com certas libidos quando não ouvia tão amorosas palavras. Sorrimos de novo e...Senti-me nas alturas quando escutei as duas inocentes.
Daí, meus nobres, que devemos ter cuidado para não cair na esparrela da implicação. Dou-me como exemplo. De há muito a literatura implica comigo. Provoca-me até nos momentos de lazer, como três horas atrás.
Estou esparramado na rede, folheando um jornal, deparo-me com uma matéria sobre o Arena das Dunas, o estádio que Natal está construindo para a Copa de 14. Ao lado da notícia, uma foto de autoridades ligadas ao acontecimento. Em comum no retrato a minha recente implicação: o capacete. Todas tinham um capacete na cabeça. O “na cabeça” é importante porque minha cisma não é com o protetor em si, mas com o conjunto da obra. A obra, no caso, não tem nada a ver com a construção, e sim com “autoridade com capacete na cabeça em determinados locais”.
A literatura implica porque não escrevo sobre a implicação com o capacete, pois peguei a mania de fazer uma caretinha quando vejo tais fotos. Entenderam a implicação da amiga implicância? Acho engraçado, leitor, a ruma de poderosos com aqueles capacetes. Sei que precaução e caldo de caridade não fazem mal a ninguém, mas sobre esse tema não escreverei uma linha. Que se dane a implicação.
Discordo de meus fofoqueiros botões. Segundo eles, os botões, eles, os poderosos, usam capacete por temerem que algum peão lhes jogue um seixo no quengo: “Só pode ser por isso, seu Tião, já que a obra fica parada no local onde esse pessoal está passando. Não há a menor possibilidade de acontecer um acidente nessas horas, seu Tião”.
Divirjo dos botões e argumento, ainda que deixe o assunto guardado na cachola. A troco de que a piãozada se comportaria raivosa, já que os vistoriadores pensam apenas no bem-estar coletivo? A verdade, digo-lhes, é que os capacetes simbolizam uma proteção mental contra nuances delituosas, visto que obras tão gigantescas sempre despertam tentações não republicanas. Então, eles, os governantes autoridades, valem-se dos bichos exatamente para evitar o pecaminoso desejo. Sei disso muito bem, mas assim mesmo a implicância permanece e caio na risada quando vejo os danadinhos na cabeça dessa gente.
Tenho vontade de perguntar a meus botões se eles sabem que aquelas armaduras são revestidas de cidadania, mas entendo inútil tal pergunta. Por que lhes perguntaria, se a resposta seria escandalosa risada, pois meus botões vivem nas casas da ignorância, abotoados de ideias preconcebidas, algumas delas de colete marrom, verde, bege, vermelho?
É claro que os capacetes cidadãos não eliminam a vontade de fazer profanas carícias financeiras. Não serei ingênuo de tal coisa afirmar. Há exceções, naturalmente. Mais são exceções  infrequentes, transordinárias, raríssimas, incomuns, entenderam? Até porque, o indivíduo que se aventurar nesse campo, o da falcatrua, estará correndo o risco de ser severamente punido, porquanto ser bastante sumário o rito processual desses casos.
Olhei a fotografia mais uma vez, detive-me num especial capacete, a literatura voltou a implicar. Fiquei propenso a ceder e escrever sobre os capacetinhos, mas, por sorte, escutei a voz da gerente do boteco da Marluce. Botei o jornal debaixo do sovaco, atravessei a rua e pra lá me dirigi.
No barraco da Marluce, sabe quem costuma me ler, é servida a melhor cerveja de Natal, embora a Marluce fique fula da vida com o carinhoso termo barraco. Somos cinco clientes, atendidos pela gentil gerente, a Cíntya. Danado é que só vamos ao biongo à noite. E a Marluce é assim, ó, de amarrada: prefere ler o horóscopo (por isso levei o jornal) na turva iluminação da rua a ligar o único bico de luz do ambiente.
Somos clientes preocupadíssimos com os problemas brasileiros. Depois da terceira cerveja, sempre encontramos solução para cada um. No comando da seleção brasileira, já acertamos a substituição do Mano Menezes pelo Felipão. Na CBF, a saída do Teixeira foi por nós antecipada. Na política, acabamos de saber quem será o prefeito de Natal, ou pelos menos quem não será, e por aí vai.
Estávamos na quinta cerveja, quando a nossa cidade, Natal, entrou na conversa. Diniz, grande geógrafo, dizia que Natal era a cidade mais bem cuidada do Brasil, quiçá do mundo, posto que desconhecia cidade que não ficasse intransitável com 42 milímetros de chuva em duas horas. Concordamos, evidentemente. “Graças à inexistência de buracos”, reforçou o Francisco. Ainda com o nosso aval, Kerginaldo lembrou que no quesito limpeza pública também Natal estava entre as primeiras do mundo. Renato começou a falar da segurança, mas logo mudamos a vista para um tropel que vinha da rua.
Fiquei de boca aberta, juro. Eram três policiais a cavalo. Caramba! Aqui! Sem mais nem menos! Numa rua dessas! Cheia de carro e de gente! Um dos cavalos soltou montanhosa desperfumada mesmo na frente do boteco, como se tivesse a desaprovar meus pensamentos.
Em silêncio, mão no queixo, pensativo, vendo os animais se afastarem, matutei:
Acho que vou implicar com esses cavalos. Olhei novamente para os bichos e só então percebi que os policiais estavam de capacete.

Até mais ver,
Tião