quinta-feira, 1 de março de 2012

O DIA DELAS E A SENHORA DOIS



O DIA DELAS E A SENHORA DOIS

Sabem vocês que mantenho o tolo costume de escrever sobre certos simbolismos. Servem de exemplos: Dia Internacional da Mulher, Dia das Mães, Dia Mundial do Idiota. Os dois últimos podem até ser esquecidos. Mas se nada redigir acerca do Dia Internacional da Mulher, a porca torce o rabo. Não só a porca, tampouco apenas o rabo. Caso deixe o DIM passar em branco, gente, Zizi e Zazá, o indicador e o maior de todos, meus dedos prosistas, ficam emburrados, torcem o nariz, tornam-se avermelhados e ficam pretos de tanto me coçar. Pouco lhes importa se eu não estiver inspirado. Tenho de transpirar a mil, como agora, e prosear qualquer besteirinha a fim de sossegá-los. A primeira vez - e última - que os contrariei, fui tachado de idiota.
A propósito,
talvez vocês desconheçam, mas o Dia Mundial do Idiota, sete de março, foi criado em minha distinção. Nesse dia, há 22 anos, recusei-me a historiar a data seguinte, o DIM. Praquê? Em solidariedade às mulheres, Zizi e Zazá ficaram eretos, estiraram-se em obsceno gesto, mancomunaram-se com os colegas internacionais e escancararam mundo afora a minha extrema idiotice.
A propósito de novo, vocês têm conhecimento de como foi criado o Dia Internacional da Mulher? Não? Então leiam o texto CRÔNICOS ASSALTOS E O ASSALTO DA CRÔNICA, postado em janeiro, e divulgado também no Canto do Escritor.
Mas, voltando à vaca fria da não inspiração, a internet, minhas nobres, vive grávida de textos em tributo à mulher. Poderia muito bem acariciá-la, faria uma cesariana, extrairia uns aforismos, copiar-los-ia aqui (que coisa!), daria uma de galanteador pra cima da mulherada e ainda acalmaria os meus dedinhos. Mas detesto as pieguices da Rede. A maioria das condecorações é mais ou menos assim: “A mulher é a flor no jardim da existência humana. Mulher, palavra mais mística não há. Existem atributos tão imaginativos quanto o charme e a beleza feminina?” Quanta verdade, mas quanta babaquice! Ainda que belas, mas não são molengas, pessoal, essas frases? Afrescalhadas, diria eu, com licença da palavra.
Daí, colegas, que vou me valer de o “A Senhora Dois e o Senhor Dois”, romance que li na semana passada, a fim de transcrever uma cena contextualizada para o Dia Internacional da Mulher. Na cena, Miraia, carregada de ciúme, cheia de ironia, transbordante de verdade, diz ao Simas, um cara porreta:
“Sabe, Simas, você gosta muito de falar do ‘dois’. Amor e ódio, saúde e doença, sorte e azar. Nosso dia a dia oscila entre tais grandezas. Algumas perseguimos; de outras fugimos, afirma você, numa irritante lengalenga. Contudo, amor, há um ‘dois’ que é a sua cara, mas você não cita: galo e galinha. Isso é o que você é, seu sonso. Chego a pensar que sinto ódio de você, Simas. E o que falar de surdez e de eloquência? Eis aí, meu anjo, outro ‘dois’ de presença garantida em seu comportamento. Há um ‘dois’ que lhe faz falta, Simas. Sabe qual é? O correspondente à lembrança, meu aluadinho.
- Pelo amor de Deus, Miraia. Você está me ofendendo, menina. O que tenho de fazer para tirar tamanha amargura do coração da mais linda mulher de Cristal? Já sei, vamos sair. Comemoraremos o Dia Internacional da Mulher.
“Tá vendo só! Cadê que me convidou antes! A verdade destravou sua língua, não foi? Passou ligeirinho da mouquidão para o falatório, hein! Não quero apenas festa, Simas. Quero que respeite minhas atitudes e me dê o devido apoio, mesmo quando julgá-las contraditórias. Quero que me proteja, ainda que tal proteção eu não peça, por me fazer de durona. Enfim, quero que entenda minhas decisões, compreenda minhas escolhas, acate meus princípios, embora a sequência se mostre redundante.”
- Seu querer será uma ordem, Miraia. Explique-me tão somente esse negócio de galo e galinha. Não entendi. Juro!
“Brincadeirinha, amor! Do galinha, até que desconfio, porém não ouso afirmar. Do galo, contudo, tenho certeza. Não pelo anedotário popular, e sim pela imponência do animal. Amo você, Simas. Vamos ou não vamos jantar em comemoração ao Dia Internacional da Mulher?”
- Vamos, Senhora Dois. Brindaremos o charme e a beleza da mulher andirobense.
“Senhora Dois?!”
- Sim, Miraia. Você me espinafra por conta da história do “dois”, mas é uma gatíssima Senhora Dois. Acabou de provar que você não é seu comportamento, nem seu comportamento é você. Você é oscilatória. Você é simplesmente seu estado mental em determinado momento. Senão, por que me odiava há dois minutinhos e agora diz que me ama? Por isso não me aborreço com certas zangas. Sei lá se a fúria não é produto de momentâneo estado mental de desconforto? Estou certo, querida? Depois de jantarmos, à luz de velas, você me responde. Necessito saber qual dos dois sentimentos, o de carinho ou o de carão, vai prevalecer. Está certo, Senhora Dois?
“Está certo, Senhor Dois. Mas, depois de tão romântico jantar, facílimo saber em qual estado mental eu vou me encontrar, não?”
E o Simas soube, mesmo! E comprovou, sim!


Sintam-se abraçadas, reverenciadas, homenageadas e demais “adas” que signifiquem amadas.
Natal, tarde abrasadora de 1º de março de 2012, mormaço só comparável ao caliente calor proporcionado pelas mulheres.

Tião Carneiro