quinta-feira, 15 de março de 2012

SIMPLESMENTE LUNA


SIMPLESMENTE LUNA

          Luna não tirava a vista da piscina – tampouco do Bezerra. Da piscina, para ver em que local a Minervina ia aparecer. Do Bezerra, a fim de observar a reação dele quando a Minervina aparecesse. Luna era vizinha da Minervina. As casas se comunicavam por uma passagem localizada perto do bar da piscina. Protegida por um portão de madeira, a abertura encontrava-se livre naquela manhã. O duplo desleixo - da empregada, que a deixara fugir, e dos adultos que deixaram o portão aberto – proporcionou à Luna o interesse pela aventura: chegara à piscina bem na hora do mergulho da Minervina. Quis mergulhar também, foi ao local donde a Minervina pulara, olhou o azulão, balançou-se e... Ouviu o latido do Bezerra.
Bezerra pensa que sou besta. Pensou que eu ia pular. Sou novinha, tô ficando velha, mas doida não, Bezerra.
Ah, a Minervina saiu perto da churrasqueira. Pelo rosnado,
o danado do Bezerra errou feio o canto em que a Ina ia sair. Bezerra tem essa mania tola de adivinhar onde os molhados vão botar a cabeça de fora. Sempre que o pessoal está tomando banho ele faz isso. Quando erra, rosna esse palavrão; quando acerta, dá uma coçada no focinho. Droga, Ina quase me via. Se me vir, ela vai logo me pegar, beijar-me e perguntar quem me trouxe aqui.
Luna se escondeu atrás duma palmeira e ficou vendo a Minervina, Ina, na pronúncia dela, saborear uma maçã. Viu a Minervina lendo, rindo, chorando. Pensou em ir lá e indagar por que ela ria e chorava. Pensou, mas preferiu continuar matutando:
Gosto de todo mundo daqui, mas adoro a Ina. Ela é diferente. Não vive gritando comigo e só me chama pelo nome. Do povo de casa eu também gosto, sei que me amam, mas aqui acolá gritam comigo, como se eu fosse criança. Tenho cinco anos, mas não sou nenhum bebê. Adotaram-me, tratam-me como filha, mas fico chateada quando os vejo discutindo. Por qualquer coisinha eles discutem. Menos o Tio Bastos. Tio Bastos é quem me ensina. Conheço o vocabulário dele todinho. Ele diz uma palavra e eu já decoro. Sei tudo o que ele sabe, apenas ele não sabe que sei. Nem ele nem mais ninguém.
Se o povo lá de casa soubesse o que sei, sei não... A empregada, principalmente. Santinha pensa que sou surda, muda e burra e que só aprendo à custa de muita repetição. Uma noite, a Santinha disse ao homem dela que eu era filha de uma tal de Cecília e que tinha um irmão, gago, de nome Meireles. Por conta disso, o namorado e a Santinha brigaram feitos trouxas. Essa aí! Pois diga!, falou a Santinha quando Zezinho pediu que ela não falasse certas coisas ao me ver pertinho. Zezinho viu o escárnio na voz da Santinha e pegue discussão.
Aliás, já percebi que muitas brigas acorrem mais por causa da pressa e da ironia. Os adultos são impacientes demais. Nem deixam alguém terminar de falar, interrompem e haja mal-entendido Apanham duas palavrinhas, não pensam no que ouviram e dão o dito como verdade, quando mentira é, ou veem mentira, quando verdade é. Insensatos é como tio Bastos classifica esse povinho. Pior do que isso é o timbre de voz dos apressados. Irônicos, até memorizei o som de quem puxa briga pela voz. Eles falam assim:
Pois diga! E eu é que sei! Ah, é, é? Por quê? Sei lá!
O pois diga da Santinha, por exemplo, saiu com tanto desprezo que até me deu vontade de dar uma bicada nela. O pois diga do tio Bastos é diferente. Ele fala com tamanha graça que as pessoas caem na risada. Tio Bastos sabe que precisa educar a voz a fim de que não lhe entendam mal. Ele rebate as coisas com classe. Se bem que há gente que fala muita bobagem e merece umas reprimendinhas. A mulher da padaria é uma delas. Mulherzinha chata, aquela.
Todas as tardes, o tio Bastos me bota no ombro e vamos comprar pão e leite na padaria. Quando a gente vai pagar, a mulher diz: Só isso! Só isso! Só isso! De tempos em tempos ela troca o disco e fala: Mais alguma coisa! Mais alguma coisa! Mais alguma coisa! Ora, se o tio quisesse mais alguma coisa teria pegado, não? Tio Bastos apenas rir. Ô homem bom.
Esse povo pensa que por ser novinha não entendo nada. Ledo engano, como costuma dizer o Tio Bastos, embora fique advertindo a namorada para o lugar comum dessa expressão. Agora, existem certas coisas que não compreendo. Nunca vou me esquecer daquela noite do arranco-rabo da Santinha com o Zezinho, do que eles aprontaram depois que fizeram as pazes. Simplesmente se atracaram, numa desavença de língua. Carne de gente deve ser uma delícia, senão o Zezinho não tinha ficado lambendo a Santinha de cima a baixo.
Eu, do alto de meu berço, de olhos entreabertos, mas fingindo dormir, sorria e a tudo assistia. Santinha, na horizontal do sofá, fingindo maleita, de olhos fechados, estremecia e gemia; Zezinho, de joelhos, de olhos arreganhados, passando-se por faminto, sacudia-se e começava. Isso realmente é difícil de compreender...
Luna brecou as lúbricas recordações, pois a Minervina estava no outro lado da piscina com o Felipe no colo e os lábios encostados nos do marido, Bezerra de testemunha. Luna sentia-se mal quando via boca dentro de boca. Mal esquisito, pois sempre queria ver aquilo de perto. Daí ela ter se dirigido para o casal, ainda que meio cabreira com o gato, o Felipe. Tinha os dois como irmãos, mas se dava melhor com o Bezerra.
Bezerra é bonitão, as cachorras devem achar ele um gato. Felipe também é bonito, mas, como todo gato, é folgado e muito senhor de si, além de imprevisível, pensava Luna, enquanto caminhava. Não fazia uma semana, o Felipe viera com cachorrada pra cima dela e lhe ameaçara com uma unhada.
Andar banzeiro, olhando aos lados, a cerca de cinco metros do beijo, a Minervina viu a Luna e exclamou:
Luna, querida, com quem veio pra cá? Cadê a Santinha? Venha! Pegue meu dedo e suba aqui no meu ombro.
A papagaia subiu e gaguejou:
Ina, Ina, língue tem gôs de quê? Tem gôs de senura, é?

Até mais ver,
Tião