sábado, 26 de maio de 2012

A MARCHA DAS VADIAS E A COMUNICAÇÃO


A MARCHA DAS VADIAS E A COMUNICAÇÃO


Este escrito, nobres leitores, certamente será classificado de demasiadamente óbvio. Como a obviedade é isenta de punição física, continuarei a aborrecê-los. Comunicação é o vocábulo chateador. Talvez vocês discordem, mas, em sentido oceânico, comunicação é a palavra mais importante do idioma universal. Referi-me a abarcamento oceânico, visto o riacho do dizer verbal, o Amazonas da expressão gestual, o mar do discurso mental, tudo, mas tudo mesmo, desaguar na convivência humana. Se caudalosa ou serena tal convivência vai depender do sentido da comunicação. Não é isso óbvio? Então por que o descuido com a qualidade do que comunicamos parece-me de torrencial burrice?
E qual é a relação do vadear dessas esqueléticas metáforas com as Vadias da titulação acima? Vadearemos ao Canadá e veremos.

domingo, 20 de maio de 2012

O GRUDE DA CARMINHA E A VÍRGULA SAFADINHA


O GRUDE DA CARMINHA E A VÍRGULA SAFADINHA

            - Rosinha, mulher, mande-me, pelo cobrador da besta, dois pacotes de grude pra eu mandar para o meu namorado que está em estremoz. Capriche naquele negocinho, viu?
Vocês não imaginam o quiproquó que deu esse simples pedido. Vou explicar.
O pedido foi feito num papo de computador, pela professora Carminha, amicíssima da grudeira Rosinha. Rosinha mora em Extremoz, cidade a um salto de pulga de Natal-RN e conhecida por produzir grudes deliciosos. Carminha reside em Natal, cidade conhecida... Bom, não interessa. O que interessa é a resposta da Rosinha:
- Quem é esse namorado, mulher, que tu nunca me falasse dele? Eu, hein! Outra coisa. Se ele mora aqui em Extremoz, por que cargas d’água o grude precisa ir aí pra Natal e depois voltar pra cá?
Cabem agora duas explicações: o grude e Extremoz.
O grude é gostosa guloseima feita com goma de mandioca mole, enrolada na folha de bananeira

quinta-feira, 17 de maio de 2012

AS BESTEIRAS DO BIÃO




Olá, gente,

Apresento-lhes o Intuitor Bião. Ele está doidinho para bater um papo com vocês. Vejam o cachê. No endereço http://www.protexto.com.br/livraria.php ele cobra cinquenta e oito reais mais o frete. No meu endereço, tcarneirosilva@gmail.com, com autógrafo, entrega em casa e tudo mais, ele fica por cinquenta paus. Apressem-se, pois a tiragem já está se esgotando. Os incautos cultos já adquiriram doze elevado ao quadrado, menos a camisa do Pelé multiplicada pela do Garrincha, menos o número do PT, menos os sapatos de Iracema, menos o coelho no jogo do bicho. Estão pensando que isso é conta de mentiroso, é?
Você ainda pode marcar encontro pelo 8741-1610. Ou nos comentários desta postagem. Levarei o Bião aonde pedirem, podem confiar. Sou um homem de palavra. Beleza, então?

É isso, meus nobres. A galera do exterior também pode pedir.

Valeu!

Tião Carneiro

quinta-feira, 10 de maio de 2012

LEITORES E CRÍTICA


LEITORES E CRÍTICA

              Tenho dois leitores especialíssimos. O de fala grossa é um chato de sapatilha cimentada. A de voz amena é uma simpatia de meias aveludadas. Em comum nos dois a inoxidável franqueza. Em comum para ambos a férrea amizade deste brejeiro escrevente.
 “Não entendi nada daquele texto. Estava profundo demais, meu caro”, costuma me dizer o feioso de fala grossa. No texto seguinte: “Muito banal a postagem de hoje. De linguagem arranca toco, sem uma pataca de valor literário, meu”.
Falo grosso, digo que não preciso da leitura dele, sugiro-lhe o Machado e o Tchékhov, e...Vamos logo procurar um barzinho.
“Faz uma semana que não acesso seu blogue, Tião. Mas, como de hábito, adorei a última postagem que li”, é assim que a bonitona de voz amena começa um papo literário. Faço um riso maroto, ela percebe que estou percebendo o embuste, então, também marota, se sai assim: “Você tem razão. Há um tempão não entro em seu blogue. A última leitura foi A REVISTA DA CLÍNICA, texto publicado em janeiro, se não me engano. Aliás, achei a crônica meio, como é que se diz, meio assim, sabe?”
Falo sorridente, digo que preciso da crítica dela, sugiro-lhe as postagens recentes, e... Às vezes ela encerra a ligação; outras, fecha a mensagem virtual; mas, no mais das vezes, liga o carro e vai embora. Eu vou logo procurar um barzinho. Sozinho, evidentemente.
            Vou logo, não. Vim logo, sim. Estou aqui a matutar, notebuque nas pernas, sobre essa loucura de escrever. Mas, como prova da doideira, escrevendo. Pela amostra dessa dupla se nota o masoquismo de quem escreve. Vejam só:
            O coxa cabeluda condena as duas leituras, ora cafona, ora erudita, diz ele, embora o estilo tenha sido idêntico.
            A coxa lisinha diz adorar o estilo do autor, ainda que a última crônica tenha lhe parecido meio assim, assim, mas fica quatro meses sem lê-lo.
            Diga aí? Eu, que proseio duas, quatro vezes ao mês passo por essas, imagine o escritor, escritor mesmo. É fingido e masoquista ou não é o azoreta que se mete a escrever?
            A propósito desse cata-sofrimento, vou fazer um copiar/colar dum fragmento de meu novo romance, o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. No trecho, o Bião (escritor/intuitor) conversa com o Marcão (revisor da última obra do Bião) sobre literatura. Podem me tachar de fingido e oportunista, meus nobres. Entendê-los-ei numa boa. De boçal e de língua enrolada também. Continuarei os entendendo.
            Vamos ouvir o Bião?

            ... Falar em crítica, esse é outro ponto chatinho. Penso assim, Marcão. Todo escritor tem uma vertente ficcional. O texto do Saulo Marreco cativou o povão, embora algumas pessoas julguem carente de valor a literatura dele. É precipitado afirmar, Marcão, que escrito tal não tem importância literária.  Esse valor é muito escorregadio, entendes?
            Já me disseram que a literatura vive estirando a língua para as minhas prosas, que os meus romances são amazonicamente informais, que o vocabulário é chulo, que desrespeito a norma culta do idioma, que os diálogos são cansativos, que engordo a obscenidade e por aí vai a fila de quês. Não dou a mínima. Literatura ficcional é lazer e instrução, Marcão. Mas, a meu juízo, o entretenimento está em primeiro lugar.
            Escrevo, crio realidades paralelas e convido o leitor para compartilhar essas vivências. Exibo-me, desnudo-me e exponho o dito leitor quando ele concorda comigo. Mas acredite, Marcão, no fundo, no íntimo mesmo, a ideia é me divertir, cara. Dou escandalosas risadas ao criar certas loucuras. Loucuras analgésicas da insatisfação, curativas da angústia, emplastros da solidão. Como te falei, não preciso da grana de literatura, mas não serei hipócrita de dizer que desdenho os trocados caídos na minha conta. Também não serei cínico de negar a vaidade. Sou vaidoso, sim. Comentários elogiosos deixam-me de ego cansado de tanto pular, bicho.
            Permita-me uma confissão, cara. Um amigo do peito, baluarte da literatura brasileira, expressou-se desta forma, não faz um ano, quando lhe disse que aqui em Andiroba os críticos me tacham de informal, beirando ao chulo. Bom, esse amigo se dirigiu a mim nestes termos, Marcão:
            “Os andirobenses estão sendo generosos, meu caro Bião. Avaliam-no apenas pelo conjunto externo de sua prosa, que, no fundo, é um conjunto vazio. Se externamente a sua prosa é vazia e mais um pouco, internamente então... Você se perde, Bião, ao querer transformar em humor o nefasto conjunto. Seria aceitável se essa transformação resultasse em fino humor. O problema é que o humor é fino mesmo. É esqueleticamente pobre, Bião. Mas você permanece rascunhando do mesmo jeitinho, não traceja o menor esforço de mudança. Já falei sobre isto, mas não custa repetir: aconselhe-se com as obras clássicas, espelhe-se nos torneios verbais dos brasileiros, mire-se no ecletismo de seus conterrâneos. Mude o estilo, homem. Deixe a prosa cabocla de lado e invista em textos inteligentes. Dê consistência interna a seus escritos, Bião.
            “Você diz que escreve a fim de se divertir e espera que o leitor também se divirta. A intenção é boa, porém secundária. O divertimento deve surgir como sobejo, não como o maná da mesa. No banquete literário não pode faltar informação, reflexão, sabedoria. A literatura precisa ser posta à mesa com estilo, postura, decência. Desse estiloso cardápio provém os pratos que saciam o leitor e o deixa babando no aguardo das refeições seguintes. Entretanto, Bião, sua ficção, de tão caipira, assemelha-se mais a um café sossega-tripa servido numa mesinha de plástico.
            “Garçons de tais banquetes, Bião, comovem, incitam, desafiam; fazem chorar, rir, pensar. Com os seus garçons, ao contrário, os comensais sentem-se... Desculpem os que continuam lendo você, mas esses comensais se abatem, se acabrunham, se desiludem. Ficam chorosos, risonhos, pensativos.
            “Seus tradutores, Bião, são excelentes profissionais. Essa é a explicação para você ser tão bem vendido no exterior e vender apenas o razoável nos países de língua portuguesa. Mas, nos dois horizontes, o original de suas prosas permanece vazio. É digno de admiração...”
            Puxa, Bião, esse amigo é amigo mesmo, cara, falei, cortando-lhe a corrente elogiosa. O que dissesse ao mui amigo?
            — Ora, Marcão, disse o que deveria ser dito. Mandei o bossal tomar naquele canto, levantei-me e fui embora. Da porta, gritei:
            “Às favas seu discurso afetado, às favas suas imagens imbecilizadas, às favas seus paralelismos ginasianos, às favas suas metáforas camponesas. Prefiro comer batata doce com tripa assada, servidas com a verdade dos roceiros, mesmo em mesinha de plástico, a saborear o manjar dos deuses, mas servido com a patranha de certos guapos, mesmo em mesonas de mármore.
            “Tem mais, ilustre profitente. Não preciso das comidas artificiais de seu maldito e estiloso cardápio. Meu sabor está na ponta da língua, enraizado pela naturalidade dos autênticos. Esqueça meu conjunto vazio, empanturre-se de erudição e soque seus conselhos bem no centro de seu tônico, monossilábico e biunívoco conjunto. Depois se divirta com o sobejo de tudo.
            “Escreva como lhe convier. É direito seu. Mas reserve-me o direito de ser como sou, tá legal? Não sou escritor, seu doutorzinho e literato de merda. Sou intuitor. Intuitor! Intuitor! Ouviu bem? Escritor apenas flerta com a intuição. Intuitor é com ela amigado. Sacou, meu?”
                     Bião, amigo velho, pegasse pesado com o amigo. Desconhecia essa história. Vou contá-la ao Mestre Simas. Ou o Mestre já conhece?
            — Como deveria me comportar, Marcão? Quer dizer que o cara me esculhamba, pede-me que copie o estilo dos famosos, classifica-me de rascunhador de prosas, e eu, só porque o peste é influente jornalista, crítico literário, colunista cultural, devo ficar com a cara mexendo, é? Não tenho sangue de barata não, meu amigo. Desconheces a história porque não costumo dar publicidade aos acontecimentos negativos. Falei isso agora devido ao contexto. Simas conhece o episódio, sim, seu lambe-botas...
           
            Quer conhecer melhor o Bião? Ele mora aqui: tcarneirosilva@gmail.com
                       
Tião Carneiro

quarta-feira, 2 de maio de 2012

CIUMEIRA




CIUMEIRA

            É, D. Totinha, tudo chega ao fim. Prematuro, algumas vezes, é verdade, e, também verdade, sem culpa de quem opta por esse fim, como acabo de optar. Mas isso não quer dizer que você seja culpada, Totinha. Espero que entenda as minhas figas para a tentação de trair as matutas origens, daí eu viver livre de remorsos, da mesma forma que a entendo quando vê no remorso tão somente um sentimentalismo barato. Os recheios da modernidade, Totinha, não serão capazes de diluir-me a naturalidade, de afastar-me das raízes da autenticidade. Para você, contudo, são nesses fermentos que uma relação sobrevive. Fazer o quê? Pontos de vistas diferentes não devem condenar ninguém, não é certo?
Tem culpa você se minha teimosia em mudar-me fê-la abusar de mim? Dez mil vezes não, Totinha. Mas sentir-se enfarosa