quarta-feira, 2 de maio de 2012

CIUMEIRA




CIUMEIRA

            É, D. Totinha, tudo chega ao fim. Prematuro, algumas vezes, é verdade, e, também verdade, sem culpa de quem opta por esse fim, como acabo de optar. Mas isso não quer dizer que você seja culpada, Totinha. Espero que entenda as minhas figas para a tentação de trair as matutas origens, daí eu viver livre de remorsos, da mesma forma que a entendo quando vê no remorso tão somente um sentimentalismo barato. Os recheios da modernidade, Totinha, não serão capazes de diluir-me a naturalidade, de afastar-me das raízes da autenticidade. Para você, contudo, são nesses fermentos que uma relação sobrevive. Fazer o quê? Pontos de vistas diferentes não devem condenar ninguém, não é certo?
Tem culpa você se minha teimosia em mudar-me fê-la abusar de mim? Dez mil vezes não, Totinha. Mas sentir-se enfarosa
é uma coisa. É um direito seu. Ser desrespeitosa é outra coisa. É um defeito seu. Se não lhe dou mais prazer, por que então continuar a me acolher, a comprar-me no balcão dos velhos sentimentos? “O que não traz prazer não dá proveito”, dizia o velho dramaturgo inglês, o Chicopires. Você pegou carona no aforismo do mestre e vem me tascando indiferença, como a dizer que o que não dá proveito dá indiferença. Ainda que verdade, esse permanente pouco-caso constitui tremenda chicotada em meu lombo. Minha autoestima anda comparando a sua repulsa àquela dor que sentimos quando o cotovelo bate num objeto duro. Estou me sentindo o mais desprezível dos seres inanimados, Totinha.
Olhe só como se comportou hoje, Totinha, na boquinha da noite. Estávamos sozinhos em casa. Você, lindíssima, destoalhada, pingando lascivos mormaços, saía do banheiro. Usava volúpia em cima, no meio trajava luxúria, embaixo vestia sensualidade. Pena que a água tenha lhe despido das boas maneiras, pois você fez de conta que não me viu. Cadê o olhar de êxtase? Por onde andam aquelas mãos que acariciavam e me fatiavam em benefício de seu arreganhado? De olhos, não é Totinha? E os lábios, a boca, os dentes, a língua. Em suma, cadê a mordidinha básica e o “hum!” de satisfação?
Sumiu tudo, não foi? Você, Totinha, abandonou-me na mesa, deixou-me na esperança de ao menos um olhar de desprezo e pôs-se a andar dum lado pro outro, celular nas ouças, falando pelos cotovelos. Um olhar de desprezo é dez mil vezes melhor do que ser desprezado por esse olhar. O seu gesto de não gesto foi extremamente desumano, Totinha.
Não me entenda mal, mulher. Longe de mim pechinchar gratidão, esmolar carinho, mendigar amor. Isso é o cúmulo da estupidez. Agora, respeito é bom e eu gosto, Totinha.
Bem, telefone ao ouvido, você falava com uma amiga:
“E é, Tortímila? Acabei de sair do banho. Vou me arrumar e correr praí. Qual é o piso mesmo? Tá, tá, entendi. Pois diga! Não é isso! A mulherada adivinha essas coisas, sente o cheiro, Tortímila. A entrada é livre, não é? E é? Francesa e alemã?”
Nesse ponto da conversa, Totinha, parece que vocês se deram conta de um equívoco no endereço, visto você ter se expressado assim:
“Ah, tá. Pois eu ia pro Natal Chópin, Tortímila. Não vejo a hora de lhes dar uma abocanhadinha. Terceiro piso do Miduei, não é?”
Essa abocanhadinha no Miduei me doeu, Totinha. Sabe você que não tenho preconceito com certas atitudes. Cada pessoa age como bem lhe aprouver. Mas sua gulodice internacional foi demais. Então você fora incapaz de me dar bucólica lambiscada, mas alimentava o sonho de debicar francesinhas e alemãs. Que ridículo, matutei. Ninguém merece!
Bom, você vestiu-se rápido e saiu. Esqueceu-se até de desligar a TV. Fiquei pensando no canto de carroceria que acabara de levar. Totinha não quer mais saber de mim. Enjoou-me, enojou-se, enfastiou-se. Não me acha mais gostoso. Não quer me comer mais.
Nisso, a TV entra ao vivo, do chópin. Vejo você lá, Totinha, rodeada de mulheres, um homem de branco a lhes servir as tais tortas francesas e alemãs.
Tem gosto pra tudo, pensei. Como é que uma criatura deixa de comer um bolo de batata, verdadeiro, naturalíssimo, pra comer um melado seboso desses, meu Deus do céu? Saiba você, minha nobre, que, no mais das vezes, o tanto de quanto e o quanto de tanto com que é feito seu ilusório eretismo provêm das mais autênticas milacrias deste mundo cheio de falsidade.
Daí, Totinha, eu ter escrito esta carta de rompimento. Vou para outros braços. Ou para outras bocas. Não contarei a quem me beliscar que sou um bolo traído. “De aniversário”, direi a quem me sorrir; “feito de fidelidade”, falarei para os meus provadores; “assado na gratidão”, direi a todos.
Foi bom enquanto durou, Totinha. Até o dia do juízo final.
Fui!

Batatais Sirva
Obs. Entenda o contexto. O pessoal que trabalha comigo sabe de minha “aversão” acerca desses tradicionais bolos de aniversário. Então empurro bolo de batata neles. A condição para saboreá-lo é a leitura de um texto. O deste ano foi esse que você acabou de ler.