sábado, 26 de maio de 2012

A MARCHA DAS VADIAS E A COMUNICAÇÃO


A MARCHA DAS VADIAS E A COMUNICAÇÃO


Este escrito, nobres leitores, certamente será classificado de demasiadamente óbvio. Como a obviedade é isenta de punição física, continuarei a aborrecê-los. Comunicação é o vocábulo chateador. Talvez vocês discordem, mas, em sentido oceânico, comunicação é a palavra mais importante do idioma universal. Referi-me a abarcamento oceânico, visto o riacho do dizer verbal, o Amazonas da expressão gestual, o mar do discurso mental, tudo, mas tudo mesmo, desaguar na convivência humana. Se caudalosa ou serena tal convivência vai depender do sentido da comunicação. Não é isso óbvio? Então por que o descuido com a qualidade do que comunicamos parece-me de torrencial burrice?
E qual é a relação do vadear dessas esqueléticas metáforas com as Vadias da titulação acima? Vadearemos ao Canadá e veremos.
Não foi um policial do Canadá que se descuidou da comunicação e disse que as mulheres precisavam se vestir direitinho para não parecer vadias? Então! Então a mulher não pode ser livre? Que coisa!
A comunicação preconceituosa do cara foi um murro na moleira do livre-arbítrio de nossas musas e deu no que deu: descomunal vertente da comunicação saiu do Canadá e, em poucos segundos, atravessou mares e mares, desembocou na mídia, desembarcou nas ruas e originou legítima manifestação, a Marcha das Vadias, contra a fala discriminatória do infame policial.
Contudo, todos sabemos o que o policial acalentava na mente. Porque, fiquem certos, meus nobres, nada é comunicado sem a aceitação mental. Palavras representam tão somente a comunicação mentalizada. Entra aqui mais uma faceta da comunicação, quiçá a mais primitiva. Imaginação versus visualização erótica simboliza tal faceta. “Não despertem abusivamente a imaginação erótica masculina. Por isso, vistam-se assim e não assado”, pensava assim o homem de farda.
Imaginar, gente, é visualizar alguma coisa que nunca vimos. Visualizar, nobríssimos, é imaginar algo que conhecemos. E isso é extremamente verdadeiro no universo sexual. Varia apenas a intensidade do sentimento e ocorre cartesianamente entre macho e fêmea. E, se largarmos a hipocrisia, concluiremos que precisa ser assim, porquanto a espécie humana correria o risco de extinção caso essa comunicação inexistisse. A palavra síntese desse “porquanto” e a segunda mais potente do expressar humano é...
Reticenciei-me, não por artifício literário, e sim por precaução libidinosa. Sei lá se alguém aí não começa a tachar-me de cúmplice do policial, ver-me estuprador e coisas que tais? Ocorre que, simultaneamente à imaginação e à visualização, existem a racionalização e o comedimento. Sentimos o desejo de fazer aquela viagem, pretendemos adquirir aquele carro, temos vontade de assistir àquele filme. Mas, por circunstâncias diversas, a frustração é que nos acolhe. A escandalosa publicidade, a vestimenta a que se reportou o policial, não deve dar motivos para sairmos assaltando a fim de nos satisfazer. Embora, à semelhança do arruaceiro sexual, existam pessoas que assim ajam.
A palavra síntese que deixei em reticência faz parte do contexto sexual, mas não é sexo. Prazer é o nome dela. É o prazer que nos faz procurar as coisas e, mais sintomático ainda, leva-nos à repetição dessas coisas. Antes do prazer vem a imaginação, é claro. Imagina-se o prazer, ou a renovação dele, e procura-se o repeteco do futebol, buscam-se as palavras de um livro e, é lógico, deseja-se o bis do esperneado prazer supremo.
A troco de que assistiríamos a jogos e mais jogos de futebol, se a visão de 22 homens atrás de uma bola é sempre a mesma?
Qual é a graça de ficarmos de cabeça torta a ler um livro, no mais das vezes recheados de sofisticadas mentiras?
Se homens e mulheres são anatomicamente iguais, sem a imaginação do prazer carnal haveria motivo para continuar a se esfregarem?
Será que depois das primeiras cópulas, rolaria alguma pegação caso a galera não ficasse imaginando os momentos do sublime néctar? Duvido dê o dó!
Continuaríamos a procurar o futebol, o livro, o sexo, senão pela renovação do prazer? Existiríamos na ausência de prazeres?
Certo estava o Shakespeare quando afirmou que o que não dá prazer não dá proveito. E eu completo: o que não dá proveito dá indiferença.
Será que o prazer surgiu do nada? Recomendo-lhes o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. Nesse livro, você encontrará o que essa prosinha não me permite dizer. Mais duas palavrinhas, se me permitem a fuga contextual.
A meu ver, o acaso molecular não explica sensações mentais, tais quais o prazer. Emoções só têm sentido se advindas de um sopro amigo, de uma força amorosa que se diverte com a nossa meninice, de um ser que goste de gente, de um sangue bom, afinal.
Ondas de felicidade, sentimentos de compaixão, manifestações de individualidade, por fim, não podem ter explicações similares às que a química nos oferece quando diz como é formada a água. Hidrogênio é muito diferente de sorriso, e oxigênio e afeição não se bicam.
É isso!
Com renovado prazer, vou dar uma força na Marcha das amigas Vadias.
Comunicação e prazer. Pensem em duas palavras potentes!
Agora me diga. Por que vocês acham que vivo escrevendo essas bobagens?

Um prazeroso abraço,
Tião