domingo, 20 de maio de 2012

O GRUDE DA CARMINHA E A VÍRGULA SAFADINHA


O GRUDE DA CARMINHA E A VÍRGULA SAFADINHA

            - Rosinha, mulher, mande-me, pelo cobrador da besta, dois pacotes de grude pra eu mandar para o meu namorado que está em estremoz. Capriche naquele negocinho, viu?
Vocês não imaginam o quiproquó que deu esse simples pedido. Vou explicar.
O pedido foi feito num papo de computador, pela professora Carminha, amicíssima da grudeira Rosinha. Rosinha mora em Extremoz, cidade a um salto de pulga de Natal-RN e conhecida por produzir grudes deliciosos. Carminha reside em Natal, cidade conhecida... Bom, não interessa. O que interessa é a resposta da Rosinha:
- Quem é esse namorado, mulher, que tu nunca me falasse dele? Eu, hein! Outra coisa. Se ele mora aqui em Extremoz, por que cargas d’água o grude precisa ir aí pra Natal e depois voltar pra cá?
Cabem agora duas explicações: o grude e Extremoz.
O grude é gostosa guloseima feita com goma de mandioca mole, enrolada na folha de bananeira
e assada em forno de casa de farinha. Pelo menos era assim no meu tempo de vendedor de grude. Grude, tapioca e beiju são farinha do mesmo saco, se querem saber. E Extremoz é o maior produtor de grudes do mundo, se querem continuar sabendo. Pertinho do cartório tem até uma estátua dum menino vendendo grude. Dizem que o menino sou eu, mas, fiquem sabendo, é desgrudada mentira, embora eu tenha vendido muito grude naquela região. Tinha uma raiva dos diabos quando os mais velhos me perguntavam se a mulher que havia feito os grudes já tinha ficado boa da ferida:
“Ela num tem bexiga de ferida não, meu senhor”, respondia. Até hoje, juro por tudo que não é sagrado, não sei por que os pestes perguntavam aquilo.
Agora o Estremoz do pedido. Carminha se referia à Estremoz, assim com s, em vez do Extremoz com x. Estremoz com s é uma cidade de Portugal. O namorado da Carminha, o Virgulino, estava trabalhando lá, numa marmoraria. Interessante é que o Extremoz de cá já foi escrito com s, se é que não sabem, assim como o Estremoz de lá era grafado com x, aprendam essa também, caso desconheçam.
Então, cientificada da situação, a nossa amiga Rosinha tratou de fazer os grudes da Carminha. Bom, os bichos chegaram a Natal e de lá, devidamente caprichados no tal “negocinho” recomendado pela Carminha, voaram para o Estremoz português.
O grude de Extremoz, gente, tem alto poder libidinoso. Principalmente os feitos pela Rosinha. O verbo grudar, saibam todos, nasceu do grude de minha terra. Agora, não me perguntem o que a Rosinha põe no manjar dela, pois cristão algum tem a resposta. Conhece-se tão somente o rito operacional da Rosinha. Ela se tranca num cubículo, durante três dias de cada mês, prepara uma substância, joga o unguento numa cuia, mistura-o na goma e pimba: está pronta a massa para 1069 grudes.
Mas a internet é osso, gente. Quinze dias depois de enviada a iguaria, o Virgulino está mexendo na internet, saboreando os deliciosos, quando dá de cara com o diálogo entre a Carminha e a Rosinha. Lê a solicitação da namorada, e a imaginação volumosa que começara a invadi-lo é arrefecida pelo ciúme. Virgulino imprime o pedido, e no dia seguinte pega o primeiro avião para o Brasil. Chega a Natal e vai direto bater boca com a Carminha. Sob o protesto dos efeitos do grude, nem sequer a beija:
“Quantos namorados você tem, afinal de contas”, acusou-a, omitindo o nome da Carminha.
- Que é isso, amor! Você mal chega e, em vez de me beijar, já cospe blasfêmia na minha cara. Só tenho você, Virgulino.
“Blasfêmia uma porra! Você mesma confessou que tem um bocado de macho. Veja o que disse aqui”, rebateu o Virgulino, lendo o pedido da Carminha:
“Rosinha, mulher, mande-me, pelo cobrador da besta, dois pacotes de grude pra eu mandar para o meu namorado que está em estremoz. Capriche naquele negocinho, viu?”
Viu a confissão, D. Carminha? “Mandar para o meu namorado que está em Estremoz”. Eu era o namorado que estava em Estremoz. Em que lugares você tem mais namorados? Aqui em Natal, no Rio de Janeiro, São Paulo, na bexiga taboca, nos quintos dos infernos? Onde? Onde? Se tal coisa tivesse sido escrito por analfabeto, tudo bem. Mas você, professora de português! Foi seu subconsciente que não botou a vírgula depois de namorado. Foi ou não foi? Essa foi de lascar o cano, D. Carminha.
- Oh, amor. Não botei a vírgula de propósito. Tive medo da leitura subliminar. A vírgula, Virgulino, é graficamente flácida, concorda? Então! Ainda quis botar o travessão - sinal subliminarmente apropriado - mas fiquei receosa quanto à estética do período. Entendeu agora, amor? Quis apenas ajudar, querido.
Virgulino ficou de queixo caído, de olhos aboticados, de nariz alevantado. Pensou em fazer uma interrogação, exclamou algo ininteligível, tornou-se reticente, mas pôs um ponto final na conversa.

Moral da história.

Ah, deixo essa parte pra vocês, nobríssimos e nobríssimas.

Abraços disvirgulados,
Tião