sábado, 2 de junho de 2012

CHICO


CHICO

Gorete não se conformava com o tom de desprezo da voz da secretária atendente:
“Acontece, D. Gorete, que o Chico não pode falar com a senhora. Nem agora nem nunca. Que coisa! Desculpe, mas vou desligar”.
E desligou. Na cara da Gorete.
            Cabelos engolindo o vento, dentes se alimentando de unhas, corpo maleitado, voz arremedando varas verdes, Gorete pegou ar, tornou a ligar e soltou o verbo:
            “Como assim nem agora nem nunca, sinha abusada! Tá maluca! Chame...”
            Nova desligada na cara da Gorete.
            Gorete sorveu o ar puro da praia, olhou a hora: 7 e 34 da noite.
Atravessou a avenida, subiu para o apartamento, esparramou-se na cama. Levantou-se e ficou andando pra cima e pra baixo e de baixo pra cima. Cada passo um enxadeco cavava o paul da depressão, os neurônios enchia de minhocas um caçuá, e a mente se encarregava de trazê-lo para o quengo da coitada. Deitou-se no chão, entre as pernas uma almofada, nas mãos a foto do Chico, na mente o temor de perdê-lo para sempre.
Começara com as amigas, passara pelo emprego, e agora até a família achava que um parafuso se soltara da cachola da Gorete, tão apaixonada ela era pelo Chico. Viviam na cola dela
“Na certa vão me internar. Nunca se apaixonaram. Coitados! Aí como verei o Chico? Minha nossa!”, pensava a Gorete. Pensava e alisava-lhe os pelos, e acariciava-lhe o rosto, e beijava-lhe os verdes olhos.  E assim, alisando, acariciando e beijando a foto do Chico, a Gorete tomou a decisão: sairia de fininho, pegaria um táxi e iria falar logo com o Chico. Depois poderia ser tarde. Aí não adiantava chorar o leite derramado.
Amor vivo a ponto de cegar a razão. Isso é paixão, meus nobres. Profundo entusiasmo por alguma coisa. O nome desse vício dominador é paixão, minhas nobres. Dominado pelo afeto, dedicação emocional violenta, irracionalidade. São sintomas de paixonite, gente. E a Gorete viva bebendo no cálice desses velhos sentimentos, entenderam? Daí a ser tachada de pinel foi um passo só.
Gorete apanhou um táxi e se mandou. Tão estabanada estava que nem percebeu que o irmão conversava com a taxista e logo se afastou quando a viu saindo do prédio. Gorete entrou no táxi e simplesmente falou:
 - Pro Chico.
 - Tá bem. O Chico é um lindo gato, não é, senhora?
 - É, sim. Mas a senhora não o conhece, não é?
 A taxista apenas sorriu. Dez minutos depois parou o táxi na frente da clínica Seu Animal é Você.
“Seu gato está bem, senhora. Tinha somente um probleminha nas cordas miais. Raramente se vê um gato de oito anos com tamanho vigor, D. Gorete. O Chico ainda vai miar muito, viu? Vou dar a alta dele agora, tá certo? Parabéns à senhora pelo gato que cria, e parabéns ao Chico pela gata que dele...”. Ante o olhar reprovador da Gorete, o veterinário cortou o gracejo e a levou até a gaiolinha onde o Chico coçava as patinhas.
Chico viu a Gorete e deu sonoro miado, Gorete derreteu-se toda, sorriu e pôs-se a conversar com ele.

Abraços bichanados,
Tião