quarta-feira, 15 de agosto de 2012

MINHA PRIMEIRA VEZ


MINHA PRIMEIRA VEZ

Acabei de ler uma prosa supimpa, cujo autor nos deixa de água na boca ao relembrar os alfenins saboreados na meninice. Uma doçura, pessoal. O doce do texto - e o texto do doce, naturalmente. Li, tomei água, naturalmente gelada, e danei-me para a minha meninez.
Ponho-me a matutar acerca de meus ameninados doces. Quero datas, mas de mim elas tentam fugir, como a brincar de esconde-esconde. Imaginam que minha mãe rebolou no paul do Araçá os chipes alfinetados nas fraldas de algodão. As fraldas do corpo, feitas de saco de açúcar, o futuro abandonou; os chipes da memória, produzidos de batata e caldo de cana, o presente aninhou.
Volto já ao assunto datas. Vou abrir alguns parágrafos a fim de explicar uma coisinha aos amigos do além mar. Esta pocilga é internacional, gente. Pensando o quê? Os brasucas podem pular os sete recuados seguintes, tá legal?
Pelo contexto, vocês, americanos e alemães, já notaram que sou da roça, caipiramente matuto. Resta-me apenas falar do Araçá, o interior onde nasci. Caipira, roça, matuto, batata, caldo de cana, alfenim, essas coisas o Dr. Gugo lhes explicará numa boa. Beleza?
Araçá, meus nobres, é distrito de Extremoz, cidade olho no olho com Natal.

Natal... Ah, Natal. Natal vocês conhecem, não? Instruídos que são, já devem ter visto nossa poética semelhança com o solo lunar. Aliás, quando disse, lá da lua, que a terra era azul, o Gagarin estava olhando as ruas de Natal. O que o gravador não captou, daí a terra não ter tomado conhecimento, foi o complemento de nosso amigo Yuri: “E igualmente esburacada”. Está soterrado de razão o poeta quando afirma que azul não é cor, e sim distância. Se poeta eu fosse, diria que, ao menos para os meus conterrâneos, azul é prazer. Senão, por que, pra eles, o conceito para os sorrisos da vida é de que está tudo azul?
Perdi, amigos, o jeito de poetar. Na idade do colégio, a depender do cenário e do estímulo das colegas, até que dava umas poetadinhas, mas hoje, a imaginação mal faz jorrar uma prosinha. De mais a mais, confesso, poesia sempre me pareceu algo escorregadio, irreal. Por ser mais pujante, viva, prefiro me agarrar à prosa.
Natal... Ah, Natal. Talvez desconheçam, nobres russos e chineses, que aqui as ambulâncias deixam de socorrer os doentes, visto que, no mais das vezes, as macas, chorosas e enfadadas, deitam-se no corredor do hospital e ficam a fazer as vezes de cama para os pacientes por elas socorridos. Essa é a Natal que beija Extremoz, que cheira Araçá.
Extremoz é conhecida por causa de Genipabu, praia singular, não só pelas gostosuras de ciobas, tainhas e agulhas, mas também pelos camelos habitantes de sua brisa. Dizem até, vejam só, portugueses e holandeses, que será em Genipabu que o camelo vai passar pelo fundo da agulha.
Araçá, disse há pouco, foi onde fui menino. É um sítio simples, simpático. Araçá se pabula de ter memória de elefante. Por isso estufa os peitos e estufa alto bom som o feito. Araçá é, pois, um lugar comum.
Bom, disse-lhes que sou bom de data. Tenho-a na memória todas as primeiras vez (vezes é terrível). Entretanto, os tanto de tanto de tanto, conquanto importantes, tornam-se irrelevantes neste instante. Prefiro rimá-las com os andares da idade e o caminhar da alma.
Tinha doze anos quando andei de bicicleta pela primeira vez. Foi numa merquesuísse amarelinha. Pense num prazer grande! Mas a bicicleta perdeu para a bola de couro. Depois de passar pela de meia e a de borracha, a bola de couro, nº 4, vermelhinha, escorregou legal no campinho de Curral de Baixo, povoado beijoqueiro do da gente. Realizei-me com o gol da vitória. Mas a bola perdeu para a Zefinha, a jumenta lá de casa. Aí eu tinha quinze anos. Vou trepar na Zefinha, disse-me, reinando, e passei-lhe as mãos na garupa. Zefinha não deu sinal de rejeição, mas não murchou as orelhas. Fiquei cabrito, alisei-a novamente e pimba... A danada me deu um coice tão violento que, se pega, sei não, amigos. Meus primos ficaram zoando comigo, e mãe disse que eu precisava ficar amigo da Zefinha, porquanto nem sempre meus irmãos estavam disponíveis para fazer os mandados da casa. Engraçado que com eles, primos e irmãos, a Zefinha era dócil, dócil. Até murchar as orelhas ela murchava. Mas é isso mesmo, nobríssimos. Não é toda vez que somos bem sucedidos na primeira vez.
Agora, primeira vez braba foi a que me tornou homem, na semana seguinte ao coice da Zefinha. Passou-se na tarde de um domingo. Chove não chove, ventinho norte assanhando os cabelos da gente. Ventinho erótico, porque nos assanhava de libertinagem, classifiquei-o, passadas algumas ventanias. Aconteceu assim:
“Venha cá, meu filho. Dê uma voltinha por aí e traga uns gravetos que é pra fazer o fogo da janta. Quando chegar, descasque umas três macaxeiras pra gente jantar com caíco assado. Enquanto isso, vou ajudar comadre Aurora na arrumação da capela. Frei Damião precisa encontrar tudo arrumadinho. A porta da cozinha vai ficar encostada, viu? Vá logo, meu filho”.
Saio resmungando o “tudo é eu, tudo é eu, tudo é eu”. Com meia hora, estou jogando um “móio” de lenha no pé do fogão. Pego uma faca e começo a descascar as macaxeiras. Então me dá uma vontade do diabo de ir à sala. Vou. De macaxeira na mão e tudo.
Gente, ao passar no quarto de mãe, a porta entreaberta, vejo as pernas da cria de D. Conceição estiradas na cama. Dou um empurrãozinho na porta e, estático, duro, fico a contemplá-la. Nossa! Parecia uma santa, que Deus me perdoe. Boto a macaxeira dentro do calção e, trêmulo que só vara verde, sento-me ao lado dela. Aliso-lhe o cós, acaricio os botões, desabotôo-os (podem tirar o circunflexo), como a testá-la, passo o fura-bolo numa preguinha, cheiro a sua braguilha - a dela, é lógico. Tiro o calção...
Aí mãe entra de porta a dentro:
“Pelo menos lave as mãos. Queria mesmo que você provasse pra ver se ficou boa. A vista da Conceição não anda lá essas coisas. Essa calça é de mescla Santa Isabel, meu filho. Custou uma fortuna. Tá contente? Tá um homenzinho, né?”
No Araçá, meus nobres, a passagem de menino pra homem ocorria quando vestíamos calça comprida. Vocês não imaginam os olhares das meninas ao me verem de calça comprida na missão de Frei Damião.
Aquela foi a minha mais marcante primeira vez. Até porque, lá pras tantas, fim do sermão, parque de diversão bombando, olhares se cruzando, tomo o meu primeiro porre e pela primeira vez pergunto a uma menina se posso pegar na mão dela. Dada a permissão, ingresso na confraria de beijados e beijadores e... Levo a primeira surra por ter chegado bêbado em casa.
Aconteceu assim, sim. No meu Araçá, enquanto não usasse calça comprida, menino era menino. Mesmo. Calça comprida faz um mal danado ao homem. Aqui, acolá, penso assim. Juro.

Será que você vai botar este texto no lixo? Pela primeira vez, meu nobre? Mas homem!
Até outro dia,
Tião