segunda-feira, 27 de agosto de 2012

MINHA ÚLTIMA VEZ


MINHA ÚLTIMA VEZ

Já falei aqui acerca das lorotas de um amigo leitor. De quando em quando, mas normalmente aos sábados, a gente se encontra a fim de jogar conversa fora, molhar o bico e dar uma corujada em certos cenários. Por vezes ficamos chumbados, porque de ferro não somos, não é, gente? Sábado agora, em meio a levantamentos de copo, pitacos no danado do mensalão, imaginações nas vizinhas de mesa, o debochado chutou este aspeado:
“E aí, Tião. Li teu texto intitulado de Minha Primeira Vez. (http://www.pocilgadeouro.com/2012/08/minha-primeira-vez.html) Sabe o que acontece, bicho, estás ficando extremamente previsível com as pegadinhas sem graça. As buchudas literatices já deram o que tinham de dá, meu. De mais a mais – expressão que é a tua cara, Tião -, as barrigudas imagens nos dizem que o autor está acima do peso literário. Mas deixa isso pra lá. Vamos beber.”
O debochado respeitou
a conclusiva pausa e sapecou: “Risível. Hei de admitir, Tião. Tua prosa está risível paca.”
Ainda bem que você classificou de bem-humorado o texto, disse, displicentemente -inocentemente, porque o “hei de admitir” autorizava-me esse juízo, não é certo, leitor? Em relação ao estilo presunçoso e gorduroso, continuei, não cabe a mim contradizê-lo, meu nobre, pois tal opinião é contrapeso de sua bagagem literária. Agora...
Falei e olhei o focinho do aporcalhado com o intuito de dizer que muitos leitores me viam magrinho, à Neymar, capaz, portanto, de certas firulas linguísticas. Olhei e vi as ventas do quadrúpede soltando labaredas de ironia e os olhos cuspindo excrementos de sacanagem. O idiota estava mangando de mim, pessoal. O risível era sinônimo de ridículo. A opinião do peste era de sebo estragado, não de sadios contrapesos.
Levantei-me disposto a tudo. Antes do tudo, porém, pretendia lhe dizer que se submetesse a uma lipoaspiração a fim de limpar as gorduras da ignorância. Somente assim ele distinguiria literatice de literariedade e pegadinhas de contextualização. Tencionava enfurecê-lo com o “de mais a mais” para avisar que ele tinha a opção de não me ler. Seguiria à risca o que reza a lei da intriga. Mas, por sorte, a Miraia chegou e jogou um pano branco no chão riscado.
A ruiva Miraia, mulheríssima e linda, é a terceira ex do safadão. Passaram dois anos se amando e arengando. Hoje são amigos. Deixaram de arengar, mas de tempo em tempo se arengam, suponho.
Bem, com a Mirainha na área, ficamos a levantar bolinhas de amenidade. Treinamos cerca de 50 minutos, ao cabo do qual nossa craque disse que ia embora. Meu crítico ofereceu-lhe carona, piscou-me, pagou a conta. Miraia beijou-me o ego e desafiou-me com a sarcástica sugestão:
“Ah, Tião, amei a sua primeira vez. Gostei muito do verbo poetar. Crônica da melhor qualidade, amigo velho. E aí, já escreveu sobre sua última vez?”
Passei horas pensando na direta indireta da amiga. Indireta direta, sim, leitor. Senão, a meiga voz da Mirainha e a provocante expressão corporal não teriam me nocauteado na fortaleza machista.
Descrever nossa primeira vez é moleza, visto a perspectiva da repetição deixar na memória o logotipo de datas e circunstâncias. Difícil é expor a última vez. Até porque, a rigor, a última vez é prerrogativa da morte. Algumas coisas vão escasseando à medida que vislumbramos o poente, verdade seja dita, mas só quando o enxergamos por inteiro é que a escassez se materializa. Mas aí, a menos que o fato tenha sido extraordinário, a relação factual e a data da primeira vez já foram pro beleléu.
No meu caso, 62 graus tortos pro crepúsculo, ainda me sinto à vontade para trepar na bicicleta de minha primeira vez, vejo-me confortável para montar na jumenta da puberdade, considero-me capaz de subir no coqueiro da juventude.
Pensava nessas coisas numa tentativa de enganá-lo, leitor, e fugir do desafio proposto pela Mirainha. Mas não seria justo com você, admito. Tenho uma última vez, não nego. E a Mirainha foi privilegiadíssima testemunha do caso. Daí, peço-lhe atrasadas vênias (mensalão, seu danado) por causa desta pobre digressão.
Do que agora vou lhe fazer ciente já entrou na casa dos dois anos. Servidores federais estavam em campanha salarial na capital do país (eta governo cruel). Estávamos hospedados no mesmo hotel, em apartamentos triplos. Encerrada a convenção, a turma foi se dispersando, viajando. Destino Natal, eu e a Mirainha regressaríamos na manhã seguinte. Grana curtinha, ela liberal assumida, eu roceiro todo, fechamos a conta, pegamos uma carona e pernoitamos num hotel próximo ao aeroporto.
Convém informar que, ao conversar com a Mirainha, homem algum sai do papo sem imaginá-la. Nunca fui homem algum, de sorte que há tempos eu a imaginava. O apartamento comum me pôs em parafuso, embora, repito, embora, minha matutice tenha feito jura de não lhe soltar o menor cabimento.
Jantamos, deitamo-nos e ficamos assistindo à novela. Cada um na sua. Cama, evidentemente. Receoso de me trair, os olhos grudavam na TV. Terminada a novela:
“Vixe como você está tenso, Tião. Vou tomar banho. Vai agora não?”
Olho-a e vejo-a a desprender dois pontiagudos pecados. Ela olha e me vê pecador. Então nos olhamos. Bom, acho melhor livrá-los dos detalhes sórdidos, não?
“Vixe como você está tenso, Tião”, repetiu a Mirainha, tempo depois, acariciando-me o braço.
Estava realmente nervoso. Jamais ficara assim em situação semelhante. Relaxe, homem, dizia a Mirainha, sentada coladinha a mim. Não tinha jeito, amigo. A mente começava a encher-me de maus pressentimentos.
Esteja onde estiver, tenha muito cuidado, leitor ou leitora, com os pensamentos que põe na cachola. Se do bem, cultive-os; se do mal, expulse-os imediatamente. Coisa ruim quer apenas um pé para se estabelecer. Em segundos, o pestinha lhe deixa no estado mental de frustração. Assim eu me encontrava, pra baixo mesmo.
O terrível presságio foi me invadindo, mas perfeitamente administrável durante os procedimentos preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um foguete. Mas antes de estabilizar deu uma balançada ameaçadora e passou uns dez segundos descendo. Nossa!, Mirainha, exclamei, depois de, com cara de choro, tê-la abraçada fortemente.
“Tenha calma, relaxe. Isso é normal, vai passar, homem. É a primeira vez que você fica assim, Tião?” Não tive coragem de fitá-la. Simplesmente balancei o sim de cabeça. Sentia-me um lixo, impotente pra tudo. As lágrimas chegaram e me murcharam de vez. Voltara a ser criança. Tão criança, que a Mirainha julgou necessário me aninhar em seus peitos, ficar massageando-me o pixaim e repetir o “tenha calma, isso vai passar”. Mas não havia massagem, física ou mental, que fizesse minha moral sorrir. Verde, amarelo, abestalhado. Amarelasse legal, Tião, confessou-me mais tarde a Mirainha.
Disse a você, meu nobre, que a Mirainha é ruiva. Não a decompus por não querer alargar o texto. E não torná-lo erótico. Você, logicamente. Mas a Mirainha é aquele tipo de mulher a quem chamamos de avião, entendeu? Pois foi no aconchego mamário daquelas asas que fui indo, fui indo e terminei pegando uma madorna.
Um solavanquinho, certamente o destrave do trem de pouso, pôs-me em alerta. O bicho estava baixinho. Estávamos chegando a Natal. O pressentimento estava indo embora. Eu nunca tivera tanto medo de morrer.
O avião aterrissou numa boa. Descemos. Pedi desculpa a Mirainha em razão do constrangimento e roguei-lhe segredo sobre a situação. Já imaginaram se os colegas soubessem que, com medo de o avião cair, chorei nos braços de belíssima mulher. Que sarro, hein!
“Essa foi minha última viagem de avião, Mirainha”, disse-lhe.
“Nossa, Tião. Pois adorei tua fobia. Não existe nada mais lindo para uma mulher do que ver um homem chorar em seus seios. Teus uis e ais deixaram-me irrigada do mais primitivo prazer e lembraram-me antiga promessa: ser aviadora. Achas que sou capaz de fazer subir um avião? A gente se vê. Tchau.”

Bons voos pra vocês e até outro dia,
Tião