segunda-feira, 10 de setembro de 2012

JANTAR EM FAMÍLIA


JANTAR EM FAMÍLIA

            A conversa estava animada. Tomavam vinho, bebiam sorrisos, sorviam prazer. Faziam hora pro jantar. Glorinha chega, troca a toalha da mesa vizinha, pede licença:
             - Trago logo o salmão ou a sopa, Dr. Paulo?
           “O salmão na mão esquerda, a sopa na direita, minha filha”, respondeu Dr. Paulo, liberando simpatia.
          Glorinha sorriu e afastou-se. Mas ficaram o viço da idade, o frescor do banho e o cheiro da colônia.
         Essa garota não aprende nunca; só não mando ela embora porque cozinha muito bem; de honestidade a toda prova; gente boa demais. Esses foram os comentários que vaquejaram até a cozinha o rebolado da gloriosa Glorinha.
         Daí a segundos, sem mais nem menos, Paulinha beijou a mãe, cochichou algo, levantou-se, deu solene boa-noite e subiu para os aposentos. Em silêncio, Bezerra (conheça o Bezerra depois) a acompanhou, mas ficou na soleira, porquanto Paulinha fez de conta que não o viu e bateu a porta na fuça dele. Pai e mãe se entreolharam. Passavam poucos minutos das sete horas daquele domingo.
Cedo demais para se recolher, interrogavam-se todos.
“Caramba! O que deu nela?”, especulou o irmão gêmeo, Paulinho, olhando para os parentes e beijando o pescoço da namorada, Rita.
“Coisa de mulher”, respondeu Dr. Paulo, o pai dos gêmeos.
“Por que de mulher? Só mulher se sente indisposta, por acaso? Que coisa!”, irritou-se D. Paula, tomando as dores da filha.
“Calma, mulher. Fiz tão somente um comentário. Que coisa!”, estendeu a bandeira branca Dr. Paulo, mas com um bastãozinho de riso.
Se por causa do risinho safado, se
pela imitativa entonação do que coisa, se em razão das duas coisas, não se sabe. Certo é que D. Paula pegou ar, levantou-se, quase derrubou a nora, deu imponente boa-noite e foi para os aposentos.
“Nossa! Até mãe? Essas mulheres. Sei não, viu, pai?”, brincou Paulinho, beijando o cabelo de Rita.
- Que que tem essas mulheres, Paulinho? O risinho irônico do senhor, Dr. Paulo, expulsou D. Paula. Por pouco ela não me derrubou, viram? Culpa de sua insensibilidade, Dr. Paulo. Os homens deviam prestar mais atenção na forma como se dirigem às mulheres. Não viu você, Paulinho?
- Eu? Agora, sim! O que eu disse demais, amor?
- Pois diga! Essas mulheres. Sei não, viu, pai! Você falou assim, Paulinho. Abarrotado de preconceito, o deboche saindo pelo ladrão.
- Não tive essa intenção, amor. Que implicância (veja do que é capaz a implicância) é uma, querida? O que devo fazer para me redimir?
“Esquece”, disse Rita, levantando-se, dando pomposo boa-noite, abrindo a bolsa, andando pro carro. Paulinho quase caiu, mas conseguiu abrir a porta do automóvel. Saíram, certamente beijando-se ao contrário.
Dr. Paulo ficou sozinho. Olhou pros lados e passou a arranhar o disco do “caramba, como pode, não é possível, não mais de 7 minutos”.
“Ué! Cadê todo mundo, Dr. Paulo?”, quis saber Glorinha, salmão na mão esquerda, sopa na direita, vesga com a surpresa.
“Piraram, Glorinha. Todo mundo pirou. Não vamos jantar. Guarde as coisas e me traga uma garrafa de uísque”, lamentou-se Dr. Paulo, sorrindo sem graça.
Glorinha sorriu de volta, graciosamente, é claro, e afastou-se. Mas ficaram o viço da idade, o frescor do banho e o cheiro da colônia. Quem ficou também foi a certeza de quem era a responsável pelo cancelamento do jantar: Glorinha. Essa foi a conclusão a que chegou Dr. Paulo, enquanto escoltava até a cozinha o cheiroso rebolado da gloriosa Glorinha.
Isso mesmo. Mulher bonita é o cão, matutava Dr. Paulo.
Meu clássico minha filha e o rotineiro gente boa do Paulinho injetaram ciúme nas três mulheres. Brincadeiras que em outros momentos as abraçavam como simples saudações, hoje estenderam a elas a escada da complexa frustração. Será que perceberam tesão em nosso tom de voz? De minha parte, garanto que não saiu o menor traço de desejo. Garanto? Também quem manda Glorinha vir nos servir trajada de erotismo? Terão sido propositais o sonhador aroma da colônia, o imaginativo vestidão soltinho, a enlouquecida voz de cama?
Pode ter sido, sim. Mulher bonita é o cão, continuava matutando Dr. Paulo, quando avistou o tristonho Bezerra, tal qual um cão sem dono, descendo a escada que dava nos aposentos de Paulinha. Dr. Paulo acenou pro Bezerra e passou a recordar a brincalhona conversa interrompida pelo “com licença” de Glorinha:
“São três mentirosas, sim. Em primeiro lugar, você, Paulinha. Já viu atriz não mentir? Em segundo lugar, vocês, Paula e Rita. Caso não mentissem, não seriam boas escritoras, concordam? A diferença entre a mentira de vocês e a nossa, a dos homens, é que mentimos da boca pra fora. E vocês, queridas, já formulam a mentira na mente. A gente improvisa, vocês mentalizam. Mentem em pensamentos”.
“Ah, é? Fique sabendo duma coisa, Dr. Paulo. Não há mentira, pai. A gente acredita no que quer, entendeu?”, zombou do pai a filha.
Há uma coisinha que não bate, voltou à realidade Dr. Paulo. A primeira pessoa a se irritar e levantar-se foi Paulinha. Por que minha filha sentiria ciúme de Glorinha? Estará ela debandando pro outro lado?
Bezerra balançou o rabo, rosnou e latiu bem alto, como a reprovar a ideia do dono.
Dr. Paulo balançou a cabeça, deu um grunhido de insatisfação e soltou estrondoso pqp. Em seguida coçou o queixo, comichou o cabelo, imaginou o modelo. Olhou pra piscina... Então os viu:
Pegos no flagra da observação, Glorinha na frente, a galera correu em algazarra na direção dele. D. Paula o beijou e desmentiu o pobre do marido:
- E aí, querido. Estavas tão distante! Estarias a mentir? No pensamento, Paulo?
 Dr. Paulo não tirava os olhos do zombeteiro olhar da filha.

É isso, gente. Abraços verdadeiros,
Tião