quarta-feira, 19 de setembro de 2012

SIMPLESMENTE MULHER


Olá, pessoal,
Vivo apanhando da internet. Não sei o que diabo fiz, mas o certo é que algumas postagens foram pro espaço. Como as tenho no word, e como gosto muito desta, porque em homenagem a minha mãe, vou postá-la novamente.
Valeu!

SIMPLESMENTE MULHER


Bezerra ficou olhando os quatros cantos da piscina a fim de ver em qual deles a mulher ia aparecer, mas na expectativa de que ela surgisse na quina da churrasqueira. Dificilmente o Bezerra errava o local onde ela aparecia. Tinha o faro muito bom pra essas coisas. Dessa vez Bezerra errou feio: Minervina saiu exatamente no ponto em que mergulhara. “Pelo jeitão de desapontado, peguei você, não peguei, nobre Bezerra?”, gritou a Minervina, sorrindo. Sorriu, dirigiu-se à mesinha do pé de palmeira, ligou um sonsinho de rádio, beijou o buquê que o marido aninhara-lhe nos seios de manhãzinha, pegou uma maçã e começou a mordê-la. Mastigava a maçã e mordiscava a imaginação, distraída.
Bezerra deu uma coçadinha básica na cabeça, estirou-lhe carinhosamente a língua e ficou a admirá-la. Ainda quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse algum papo, ela teria vindo a ele.
O ser humano é muito esquisito,
pensava Minervina, referindo-se ao comportamento dela naquele dia, 8 de março, Dia Internacional da Mulher e data de seu aniversário. Todo 8 de março, ela e o marido seguiam o ritual de dormirem até tarde, namorarem como se fosse o último namoro, deixarem enlouquecidas as libidos, desafiarem certos dogmas físicos. Depois, isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, beliscavam petiscos, curtiam músicas clássicas. Desfrutavam-se, enfim.
Mas que é uma esquisitice boa, ah, isso é, sorriu a Minervina. Sorriu e chorou com a mensagem de aniversário pregada nas flores:
Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam.
Porque aconchegado já sou, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.
Parabéns, Minervina. Pelo aniversário e pelo seu dia que é todo seu.
Do todo seu e somente seu.
Minervina queria ter palavras para falar de seu amor pelo marido. Queria escrevê-las, pois a palavra dita pode ser esquecida, conquanto não volte. Mas inexistiam palavras que fizessem linha direta com o coração. Amo-o a mais do que tudo na vida diziam apenas o óbvio. E se de alguma coisa Minervina fugia era da obviedade. Amava o risco, adorava o atípico, apreciava o incomum. Não somente ela, mas também o marido. Pelo que presenciavam nos casais amigos, o óbvio era o culpado de a ardência amorosa ir se amornando. Neles, não: os 45 anos de cada um e os 18 de casados constituíam o zero da prova dos noves da felicidade. Felicidade procedente da mouquidão com que a Minervina escutava algumas “obviedades” das amigas: “Os homens são todos iguais. São águias, cachorros e galinhas, Minervina”, diziam. Minervina ria, não alimentava o papo e punha gelo na fervura da generalização.
“Do todo seu e somente seu” fez a Minervina gargalhar, largar a maçã, espreguiçar-se e mergulhar na água morninha.

Bezerra viu apenas o vulto caminhando para a piscina. Tremenda gazela, grunhiu pra si, depois de nova coçada na cabeça. Ah, se eu soubesse escrever. Droga! Transformar-me-ia em águia da comunicação, buscaria palavras nas profundezas do coração e diria à Minervina, com letras bordadas, que a amo, que a venero, que a idolatro. Que nunca farei cachorrada com ela, que odeio galinhagem, que sou capaz de por ela morrer.
Minervina faz mais do que alimentar o Bezerra com palavras afetuosas. O que deixa o Bezerra extremamente alegre é o sorriso dos olhos, a meiguice do som labial, o zelo como é tratado, enfim. Nada lhe falta. Parece que a Minervina adivinha os mais secretos pensamentos do Bezerra. A maciez das mãos em seu corpo, então! Bezerra tem por ela uma fidelidade canina. Vê em Minervina a verdadeira dona de seu corpo. Ainda que, não poderia mentir, fique um tanto chateado quando sente que a Minervina quer que ele seja exclusivo dela.
Ela confunde fidelidade com exclusividade. Ele é amigo, fiel e exclusivo no instante em que está dando atenção à pessoa, mas os mesmos sentimentos passam para outro indivíduo tão logo a atenção mude de foco. E isso Minervina parece não entender.
Agora, sim, ela saíra no lugar imaginado pelo Bezerra: precisamente no local onde ele estava.
Minervina sentou-se ao lado do Bezerra, ficou a alisar-lhe o focinho, abriu a boca a fim de falar alguma coisa, mas um barulho fez os dois desviarem a atenção para a direção do som.
“Meu gatão”, disse a Minervina, pondo o Felipe, o gato da casa, o dono do barulho, sobre a toalha que lhe cobria as coxas.
Bezerra assistiu à cena, mostrou-se impassível, mas ficou rosnando de ciúme e reavaliando seu conceito de exclusividade. Gostava do Felipe, às vezes até brincavam juntos, mas a histórica rixa entre gato e cachorro se mantinha.
Foi assim que o Euclides, o marido da Minervina, encontrou os três quando chegou do mercadinho: 
 “Uma rosa pra você, amor, um caixa de biscoito pro Felipão e uma ração novinha pro meu caro Bezerra”.
Servidos - de ração e de amor - os quatro passaram o resto do dia a confabular. Cada um a seu modo, evidentemente.


Até mais ver,
Tião Carneiro
  
Em tempo: Minervina nasceu em 8 de março de 1916 e nos deixou saudosos em 21 de novembro de 2009. Euclides Carneiro, luciduzinho da silva, completou 97 anos agora em agosto.
Tião Carneiro, esse...