domingo, 28 de outubro de 2012

O DILEMA DE FÁTIMA


O DILEMA DE FÁTIMA

Naturalmente bela e brincalhona, Fátima estava se achando feia e ranzinza. A culpa pelo desconforto era daquele praga.
“Aquele praga” era como Fátima se referia ao ex, conquanto ela própria relutasse em se considerar ex, porquanto ficara dependente do praga sedutor. Qualquer sinal de contrariedade e lá estava o solícito aos seus pés. Daí que cinco dias de separação eram insuficientes para vê-lo somente na memória, pela boca do povo, como se diz.
Fátima decidira passar a semana santa na fazenda da avó. Via no sossego do campo emplastros para a inquietude. Encharcara-se com a água da cisterna, vestira uma roupa levíssima,
viera para o alpendre. Acomodou-se na espreguiçadeira da avó. Pensava como passaria o fim de semana sem a companhia do praga. Ouviu um nhenhenhém, fez compreensivo ar de riso, olhou em volta. Era Tonha. Tonha continuava reclamando dela e dos homens da casa.
- Quem já viu tomar banho nos dias grandes, D. Fátima! E vocês, moleques? Deixem para correr atrás dessa maldita bola amanhã. Tenha piedade desses cristãos, Senhor! E a senhora, D. Olívia, ainda fica rindo com a molecada desses moleques? Sostou a senhora.
Fátima tirou a atenção da resposta da avó. Ficara extasiada com o som de “te-vi” que partira bem de sua frente.
A casa da fazenda de D. Olívia, cerca de dois quilômetros da cidade, era verdadeira mansão. Fátima estava na primeira cobertura, a piscina à direita, à esquerda o bar, em frente uma mistura de jardim com fruteiras. O bem-te-vi pousou na goiabeira, olhinho numa goiabinha verde, outro em Fátima, como a temer feminina censura. Convencido da bela cumplicidade, o bem-te-vi reprisou o te-vi por quatro vezes e passou a entoar a completa partitura. Calou-se um tempinho, tornou a bicar a goiabinha, sacudiu o emocional de Fátima com romântico “bem” e voou.
Que delícia, enternecia-se Fátima, quando Tonha a ela se achegava. Desta vez para consolá-la da suposta lamentação:
- Está sofrendo, né, minha filha? Seu coração está em prantos. Percebi logo que chegou, Fafá. Tem homem no meio dessa história, minha filha?
- Deixe-me sozinha, Tonha.
- Oh, Fafá! Confie em mim, querida. Sou macaca velha. Fez bem em vir pra cá. Sabe o que eu fazia, já lavando as fraldas de vocês, a fim de esquecer certos diabos? Vou lhe dar a receita. Banho com incenso, Fafá. Tá muito tarde, mas amanhã eu vou lhe dar um incenso que é tiro e queda para tirar esse peste da mente. Esses danados deixam a inhaca no corpo da gente, minha filha. Enquanto o cheiro ruim está entranhado, a mulher, ou homem, tanto faz, fica sentindo o cheiro bom, entendeu, Fafá?
Agora, Fafá, esse sujeito deve ser um deus, um Adonis, como um de meus safados gostava de dizer. Somente assim eu vou entender você ficar imaginando trocar por ele um monumento de homem tal qual o seu noivo. Uma amizade tão antiga. Mas de sexo entendo eu, você sabe. Nada me surpreende, querida. Saiu quantas vezes com esse Adonis?
- Tá por fora, Tonha! Nunca trairei meu noivo, Tonha. O deus de quem você fala está mais perto de Tanatos do que de Adonis. Ah, Tonha, traga aí... Fátima cortou o pedido. Ia pedir vinho, mas se lembrou de que o praga adorava beber vinho – ou ficar bebendo - com ela. Vinho apenas aumentaria as recordações. Traga um cafezinho, Tonha, completou, meio encabulada. Ou vai ou racha, pensou.
“Nunca? Nossa! Amanhã eu preparo o banho, tá?”, disse Tonha, rindo, afastando-se, parando, pensando, voltando-se:
Esqueceu-se da lição do nunca, né, Fafá? O café já tá no fogo. Café torrado no caco, querida, do jeito que você gosta. Tonha foi à cozinha, Fafá foi à memória.
Tonha é sabida, gaba-se de ter lido Sócrates e uma tal de Tereza Filósofa. Mas o conservadorismo religioso continua, riu Fátima. A religiosidade empurrou Fátima para 15 anos atrás. Empurrou-a e imediatamente a içou, porquanto a angústia de hoje tinha tudo a ver com aqueles fatos:
Fátima e os irmãos foram para a festa da padroeira. Tinha 15 anos incompletos. Juntou-se com as colegas, fofocaram, brincaram, curtiram. Bebeu, fumou, amassou – e foi amassada – tudo pela primeira vez. Chegou em casa, tomou um banho de meia hora, deitou-se.
Leve toc-toc na porta, a clássica “quem é”, o tradicional “sou eu”, e Fátima abre a porta:
- Oh, Fafá. Aconteceu alguma coisa com você, minha menina? Algum menino machucou seu coraçãozinho, foi?
Era assim. Bastava perceber algo estranho com Fátima e os irmãos que Tonha batia em cima. Concordava, discordava, aconselhava-os. Explicava-lhes tudo sobre sexo, pois, segundo ela, sexo era a chave da vida. Conversava mais com eles do que a própria mãe dos meninos.
Daí a preocupação daquela época.
- Nadica de nada aconteceu, Tonha. Tem nada a ver com menino. Tá tudo bem.
- Tá tudo bem, tá tudo bem! Então por que seus olhos brilhavam tanto quando você chegou? E porque passou um século no banheiro? Se quiser ficar calada é um direito seu, Fafá, mas...
- Ah, Tonha, aconteceu um bocado de coisas pela primeira vez. Conheci um menino, diverti-me à beça, mas ficou tudo bem, entendeu? Sabe, Tonha, nunca vou esconder nada de você. Sempre vou lhe dizer a verdade.
- Nunca, sempre, verdade. Evite essas palavras, D. Fátima. Como pode garantir que nunca... Será que sempre... E você sabe qual é a verdade? Boa-noite e durma bem, querida.
O cheirinho de café intrometeu-se nas recordações dos 15 anos. Fátima voltou os pensamentos para a casa da avó, olhou o tempo, agora nublado. Num ato de vassalagem, o sol reverenciava os bocejos das nuvens. Fátima fechou os olhos, reviveu um dos lances da festa, irritou-se. Por causa daquele lance é que até agora estava sofrendo. Pelo rápido escurecimento, as nuvens haviam acabado o bocejo e estavam se espreguiçando. A chuva os visitaria em minutos.
Fátima levantou-se da espreguiçadeira. Tonha vinha chegando com um bule de café, acompanhado duma bandeja de queijo com broa e sequilho, especialidades dela. Os meninos também chegavam correndo da chuva. Por último, e em fila, chegaram relâmpago, trovão e chuva.
Que cenário, meu Deus, pensou Fátima, desconfiando de que sua pretensão iria por água a baixo. Sob os risonhos protestos de Tonha, os meninos amundiçaram logo a bandeja. Menos o noivo de Fátima, o Cazuza, que se postou às costas dela e a beijou no pescoço, deixando-a arrepiada. Todinha.
Ali, Fátima teve a certeza de que iria capitular. Adorava o noivo, derretia-se de paixão. Ainda mais ele suado, alvoroçado, tronco desnudo, cheiro bom de macho a invadi-la. Com os aplausos da imaginação, visíveis pelinhos se levantaram e ouviram atentamente o discurso dos invisíveis. 
Tudo conspirava contra si e a favor da droga do cigarro. O peste que fumara pela primeira vez, quinze anos atrás, na droga daquela festa, e que, havia cinco dias, ela tentava largar, mas que agora a atormentava.
Sem saída, só coube a Fátima se valer do irmão, o Fabinho, único fumante da turma, e render-se ao praga do cigarro:
- Fabinho, meu filho, você acende a praga dum cigarro pra mim?

Abraços desfumaçados
Tião