quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PALAVRAS ENVERGONHADAS


PALAVRAS ENVERGONHADAS

             Há quem diga que palavras matam e curam. Discordo. Quem mata e cura são indivíduos. Palavras acionam ordens acomodadas na mente, cuja instalação se deu por meio da comunicação interna de cada humano. Agora, que certas palavras são envergonhadas, isso é fato. E, a depender do contexto, concordo com elas em gênero, número e grau. Concordo, porquanto no menos das vezes também sinto vergonha. No mais do menos, não damos a cara nem à base de sal grosso no lombo. Digo mais. Não tenho a menor vergonha de dizer que sinto vergonha. Reconheço que é cultura fora de moda, adubada tão somente pelos roceiros, mas não abro mão de aguá-la toda manhã.
Esse brega e prolixo prelúdio foi para dizer que há dias tento localizar algumas palavras e não consigo. Palavras que expressassem indignação
quanto ao abandono da segurança publica de meu estado até que achei. Da educação, também encontrei. Mas nadica de nada de localizar as que escancarassem a revolta em relação à saúde pública de minha cidade. Simplesmente puseram um lençol preto no rosto, encolheram-se e quedaram-se emburradas, numa maca de constrangimento, mortas de vergonha. Tenho certeza de que estavam pondo em prática a lição de D. Minervina, a minha saudosa mãe: “Quem tem vergonha não faz vergonha a ninguém, meu filho”.
“Quem tem não faz, meu! Por acaso, queres deixar envergonhado o pessoal da Saúde?”, disse-me a amiga Algo, cochichando, ainda que encapuzada.
Mas aí é que tá. Quem primeiro fez vergonha a quem? Foram eles, minhas nobres. Foram os políticos e administradores públicos da saúde pública quem as deixaram nesse estado.  Mental e geográfico. Lembrem-se disso.
Foram vocês, por acaso, que entupiram de lombrigas a saúde pública, até que, sem o menor pudor, acharem que a solução estaria num purgante, o tal decreto de calamidade pública?
Não? Não ouvi. Não? Então saiam do esconderijo e se apresentem. Crápulas, cafajestes, indecência, patifaria, deboche, bandalheira, meretrício, menosprezo, pouco-caso e colegas dessa estirpe não valem, vou logo dizendo.
Por acaso, serão vocês as sádicas que, decorridos cinco meses de enfiado o tal laxante na goela de nossa amiga, estão batendo palmas para o Sr. Caos, aboletado numa confortável giroflex, a se comprazer com pacientes 120 pacientes soluçando no corredor?
Não? Não entendi, minhas nobres assustadas. Ah, tá! Então se mostrem. Covardia, insensibilidade, bandidagem, descaso, desdém, desprezo, desconsideração, desleixo, preterição, desamor e amontoados assim nem pensar.
Falar em pensar, pensei quão matuto sou eu. Antigamente, calamidade significava destruição, grande perda, catástrofe, aflição. Mas essas coisas só se tornavam calamidade quando decorrentes de fenômenos naturais, infortúnios e coisas que tais. É certo que temos isso e muito mais na saúde pública desta Natal sofrida. Mas naquele tempo, o povo tinha vergonha de pegar capim, arame, misturar com descaso, sacanice etc. etc. etc., deixar o tempo correr e fabricar calamidades. Se tal ocorresse, a galera fechava a cara, dava um murro na mesa e soltava sonoro porra e palavrões desinibidos.
No meu tempo era assim, pessoal. Calamidade era um termo assustador. Nem figurativamente se usava. Hoje, escuta-se a torto e a direito frases assim: “A saúde pública está uma calamidade. Nossos governantes são tremendas calamidades”.
Sabe, gente, vou ficar por aqui, do contrário perco o jantar. As recatadas não vão sair da toca mesmo! Mas se você falar com o Google de D. Internet sobre a saúde pública de Natal, ele lhe mostrará a ruma de perguntas que eu tencionava fazer às amigas envergonhadas.
É isso. Espero que você, caso não resida aqui, tenha mais sorte e encontre palavras que não tenham vergonha de descrever a saúde pública de sua cidade.  Aproveito a prosa cabocla e o convido para o nosso carnaval fora de época, o Carnatal. Não tem máscara, tampouco músicas carnavalescas, menos ainda papangu, mas tem mé que dá no pé da canela. Não se esqueça de botar em dias o seu plano de saúde, viu? Sabe como é que, né? Às vezes, a gente extrapola e...
E enquanto não passar a Copa do Mundo de quatorze, evento no qual seremos sede de quatro jogos - orgulhosamente e com porradas nos peitos, diga-se – não podemos desperdiçar recursos com coisas de somenos importância, tipo segurança e educação. E saúde, é lógico.

Até mais ver,
Tião