terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O COMEÇO


O COMEÇO

O calor braseiro não os impedia de pensar.
O primeiro ponto da nova reticência - embora antiga - começa hoje, pensam a moça e o rapaz.
Pensaram e logo pontuaram o texto mental.  A moça com “vejamos...”, o rapaz com “veremos...”. Pensativos, remexeram-se na cama, abanaram-se, olharam a hora: quatro e doze da manhã do dia inaugural de 2013. Haviam chegado da igreja por volta de meia noite. Abraçaram os amigos, familiares, almejaram-lhes feliz ano novo, cansaram-se do “pra você também”, embora entendessem a intenção, e foram se deitar.
Droga de ar condicionado. Novinho em folha, primeiro noite de uso, e já apresenta defeito. Ligam então o ventilador
velho de guerra, caindo aos pedaços, mas de comprovada eficiência. Eficiência no funcionar, mas insuficiente no refrescar. Ao menos hoje, neste calor de brasa. Não! Não é tão somente o calor climático que lhes causa insônia. Há um pouco do calor carnal. De tudo um pouco e um pouco de tudo, ainda que alguém julgue a sentença prolixa. Ou seria um tanto de quanto e um quanto de tanto? Certo é que se levantam, abrem a janela, olham a lua. Alta, deslumbrante, misteriosa. Coerente, pois, com os altos e baixos da vida.
Voltam para a cama. A moça se abraça com o travesseiro e chora sorrindo. O rapaz também. Ou melhor, o rapaz apenas sorrir. Acha-se machão.
Não, leitor. Não é o que você está pensando. A moça e o rapaz não estão na mesma cama. Nem se conhecem. Nem moram no mesmo país, na verdade. Apenas pensam no calor da existência, visualizam os ardores do dia a dia, imaginam o aquecimento da vida. E se veem em certa e deliciosa combustão, que ninguém é de ferro. Mas como a vida é acaso a caminho do ocaso, a moça e o rapaz nem sequer imaginam que dali a uma semana...
Calma!
Nem sequer imaginam o que iria lhes acontecer dali a uma semana. Afinal, encontram-se apenas renovando o primeiro ponto de majestoso livro, cujas páginas estão repletas de reticências. Passarão ainda por incontáveis exclamações e interrogações até alcançarem o ponto final.

Que você, leitor, renove os pontos de sua reticência com a tinta branca da paz, o verde da esperança, o azul dos sonhos. Ah, e o vermelho da paixão, do amor, da liderança.

Pra você também,
Tião