quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

RABUDA BEM-ESTAR – PROSA PARA ADULTO


RABUDA BEM-ESTAR – PROSA PARA ADULTO

       Dr. Arimã Abadom sentou-se e deu sonoro bom-dia. Estava em majestoso conjunto arquitetônico no centro de Cristal, capital do Rio Pequeno do Norte, nordeste de Andiroba, país parede e meia com o Brasil. Dr. Arimã tem trinta anos, é bonito, simpático quando lhe convém, cruel por natureza. Esperto tal qual o capeta, é dono da Rabuda Bem-estar S/A. Tão esperto que, com vinte e cinco anos, aproveitou crônico equívoco dos governantes andirobenses e fundou a Rabuda. Começou na área de educação,
segundo ele, a pedra angular (o doutor adora essa expressão) da sociedade. Da Educação para a Segurança foi um pulo. Há dois anos, a Rabuda entrou no setor Saúde. A Rabuda Bem-estar arrecada 18% da renda dos contribuintes. 10% a título de segurança, 5% destinados à Saúde e 3% direcionados à Educação.
     Dr. Arimã é proprietário de grande parte do Estado andirobense. É o cão de sabido.
     Em relação à Saúde, o doutor, quando de pileque, ainda zomba das autoridades: “Não entendo o pouco caso dos governantes. Deixam a população morrer por falta de assistência médica, cujo custo é irrisório ao ser comparado ao retorno. Gastamos, em média, 1% dos 5% arrecadados. E ninguém fica nos corredores a mendigar socorro”.
    “Vamos começar a reunião”, disse Dr. Arimã, após sorrir para a secretária, a linda e diabólica Luciafé.
Espero que não tenham ficado acomodados com o resultado do biênio 2019/2020. Foi bom, é certo, mas poderia ter sido melhor. Deter-me-ei, senhores, tão somente a questões pontuais. Antes, quero anunciar estratégica decisão para o biênio 2021/2022. Vejam. No biênio 19/20, a carga tributária do Estado andirobense ficou em 39%, contra 18% de nossa taxa de Contribuição Voluntária. Vamos deixar o Governo maluco e baixar a CV para 16%. Essa medida aliviará o bolso do meliante operário e servirá de argumento para trazer o restante dos marginais trabalhadores, cerca de 30%, para nossa proteção. Muito bem. Vejamos as questões pontuais.
Persuasão - Alguns colaboradores teimam em ir à casa dos adeptos do aparelho estatal - os autodenominados cidadãos - sem a devida identificação. Precisamos usar o crachá da Rabuda Bem-estar S/A, senhores. Outra coisa. Providenciem evidência maior para nosso slogan. Estão praticamente invisíveis. Notadamente o dos prédios. É importantíssima a visibilidade do “Perdeu, boy”. Temos de mostrar força ao suposto cidadão, pessoal. Pra isso, nada melhor que a combinação pistola/distintivo/legenda da instituição. Caso o conjunto não convença o recalcitrante, ponha-lhe a pistola na cabeça e o leve a um hospital do Estado. Depois o leve a uma de nossas casas de saúde.
Educação – Fiquei estarrecido com o que vi numa escola do centro. Quatro alunos não souberam definir falcatrua, caixa dois, estelionato. Duas estudantes não sabiam ocultar um sujeito, identificar um agente da passiva, conjugar o verbo prostituir na variante pronominal. Outros permanecem apegados a desvalores arcaicos, a exemplo de honestidade, ética, cidadania. Cuidem disso, por favor. Se for o caso, demitam os professores. Tenho até alguns nomes que dariam excelentes mestres.
Sonegação – Precisamos combater a sonegação, senhores. Não podemos dar trégua ao sonegador. Esse é a praga do Rabuda Bem-estar S/A. Os coletores não devem esquecer de que o fato gerador do sistema Rabuda é a renda familiar e não apenas o ganho de um dos trabalhadores. Some-se a renda de todos, aplique-se os 15% e emita-se a notificação em nome do desgraçado chefe de família. Não tem essa de rendimento informal. Flagrado no ilícito, lavremos a ata de transgressão e joguemos o cabeça da prole em nossas cadeias.
É isso, senhores. Como de costume, gostaria de encerrar a reunião com a advertência sobre o binômio comodismo/risco. Urge conquistar os 30% que estão fora do sistema Rabuda. Mais importante, porém, é não perdemos os 70% conquistados. Em hipótese alguma podemos nos acomodar, pessoal.
Acomodem-se e vejam esta desastrosa sequência. Os 70% se juntarão aos 30%, começarão a ver debilidade em nossas normas, criarão uma cultura coletiva e arriscarão restabelecer a tal ordem republicana. Tentarão regressar ao comodismo de que vieram, entenderam?
Toda a atenção é pouca à variável risco. Sabem os senhores que a Rabuda Bem-estar S/A só existe por causa de autoridades que não souberam avaliar riscos como os da sonegação e os da violência.
Nosso protegido tem consciência de que irá para a cadeia ao menor indício de sonegação. Então! O risco, extremo, é aliado da gente. Diminua-lhe o risco e veja se logo, logo não quebraremos, pois ele se aventurará voltar à zona de conforto em que estava habituado.
 Nosso protegido tem consciência de que pode assaltar, sequestrar, desfalcar, conquanto somente dos rebeldes 30%, que nada lhe acontecerá. De mais a mais, também estar consciente de que irá imediatamente para a cadeia se cometer tais atos contra um confrade. Então! O risco, extremo, é aliado da gente. Reduza-lhe o risco e veja se logo, logo ele não estará assaltando aliados a torto e a direito, prestes a retornar ao ambiente da impunidade.
Está encerrada a reunião. Obrigado a todos.

Concordo com o Dr. Arimã. Em relação ao conceito de risco, não é, gente? Que isso fique bem claro, meu.
Ah, você discorda, é? Então por que o infeliz o assalta e sai chupando o dedo? Por que, então, o peste chega de moto, mete-lhe bala e vai embora assobiando? E por que comete as mais cabeludas tramóias e vai se empanturrar de importados vinhos nos chiques restaurantes? Por que, hein?
O você dos exemplos é só um exemplo mesmo. Não é você, é claro. Entenda-me, por favor.
O risco é a bússola do procedimento. Do namorar ao delinquir. Aliás, a vida é eterno risco, disseram. Só não me perguntem quem disse. Procede-se assim ou assado, seja o risco avaliado assado ou assim. Agora, há riscos e riscos. Nem quero saber o risco que estou correndo ao ter escrito essas besteiras.


Até mais ver e um abraço,
Tião