sexta-feira, 29 de março de 2013

JÚLIA, A DANADA


JÚLIA, A DANADA

            Deu mais uma olhada no espelho, aprovou-se bonito, acariciou o serradão da barba, desceu para a recepção do hotel. Fez uma cerinha, mandou a recepcionista solicitar um táxi, sentou-se e ficou esperando, de minuto em minuto dando uma corujada na jovem.
Felipe é bonitão, que o diga o olhar lânguido da atendente, e está viajando a serviço. Felipe adora essas viagens, porquanto tem a oportunidade de exercitar o lado boêmio. Boemia impensável na pequena cidade onde mora e que encontra o pico numa suíte de motel.
Nosso amigo é casado, diz amar a esposa, mas... Enfim...
Felipe é esquisitão. Não adianta a mulher assediá-lo - a exemplo da recepcionista e da moça com quem compartilhou o café da manhã - que se faz de desentendido. O negócio dele é garota de programa. Chega ao hotel, pega o jornal e haja telefonema. Hoje marcara encontro com Júlia, a tesudona, segundo o jornal, no Opinião Bar:
“Seu táxi, senhor. Tenha uma boa noite”, disse a atendente, aprimorando o sorriso e
caprichando no boa-noite.
O luxuoso Opinião Bar é altamente democrático. Percebe-se pela vestimenta da clientela: de chiques paletós a rústicos calções, de esmerados longos a singelas bermudas. Majestoso, assim o classificou Felipe. Mas alguém o acha modesto; outros, cafona. Alguns não o adjetiva... Mas... Enfim...
O traje da moça batia com a descrição virtual. Não pode, pensou Felipe, admirado com tamanha beleza. Nossa! É linda demais. Demais, não tem pinta alguma de garota de programa. Felipe chegara dez minutos atrasado e a observava sem que Júlia percebesse. Essa era a percepção de Felipe até o celular vibrar:
- Tô vendo você. Não veio com as vestes combinadas, mas o reconheci, gatão. Tô na quinta mesa depois do piano, amor.
- Quê?!
- Quinta mesa depois do piano. Mas vou apanhá-lo antes que mude de opinião. Trouxe o negócio?
- Quê?!
Negócio? Que negócio, meu Deus! É fria! Caí numa cilada. Essa dona deve estar com alguém. Vão me assaltar. Estará ela me confundindo com algum traficante?
Felipe matutava, Júlia se aproximava. Indeciso, Felipe suspirou, deliciando-se com o rebolado da deusa loura.
Medroso, quis correr. Quis, mas... Enfim...
Beijaram-se, ainda que os básicos, e foram para a mesa. Sentaram-se de frente pro outro.
- Nossa! Você é a mulher mais bela que já vi. Você é a Júlia, não?
- Júlia? Ah, desculpe. Júlia foi o nome que lhe dei. É meu nome de guerra. Pra você, Felipe, posso me abrir. Com palavras e literalmente mais tarde, espero. Meu nome de batismo é Valdecy, com ípsilon.
- Quê?!
Você é...
- Calma, homem. Valdecy, mas sou mulher oficial. Vamos nos acomodar naquela mesa dos fundos que lhe mostro o selo original. Tô sem calcinha, Felipe.
- Quê?!
Júlia caiu na risada com o queixo caído de Felipe. Agora, apalermado mesmo Felipe ficou quando Júlia acenou para um apalitozado, com jeitão de gerente, pediu que ele fosse ao escritório e pegasse uma garrafa de vinho.
- Que foi, Felipe?
- Você é... Falou tão, tão autoritária. Você é a dona...
- Sou um bocado de coisas, Felipe. Mudo de acordo com as circunstâncias. Isso não significa que seja marionete. Sou tão somente realista, opositora da simulação, aliada da conjuntura. No momento, sou sua garota de programa. Mas sou a dona do Opinião, sim. Temos algo em comum, Felipe. Vamos nos dar bem na cama, pois somos bi...
- Que?!
Nessas alturas, Felipe estava doido para fugir da amalucada Júlia. Ou essa mulher é maluca ou isso é uma pegadinha da tevê, pensava o nervoso Felipe. E o negócio? Ela me perguntou se eu trouxe o negócio. Tiro essa história a limpo e me mando:
- E o negócio, Júlia? Você perguntou se eu trouxe o negócio. Que negócio que é? Outra coisinha. Sou macho todo, não tem essa de bissexual não Valdecy, digo, Júlia.
- O tal negócio foi só uma brincadeira a fim de deixá-lo alerta. Sossega, Felipe. Não percebe que estou a manipulá-lo, amor? Mas que é bissexual, ah isso você é meu amigo. Outra coisinha também. Só vou pra cama se você assumir a bissexualidade. Mostre que é plural. Você não é você. São seus comportamentos, cara. Algumas pessoas não mudam. Elas simplesmente nunca foram o que os indivíduos pensavam. Vai confirmar ou desmentir essa tese, Felipe?
Deixe de ser opinioso, homem!
Júlia falava e derramava mulher por todos os lugares. Principalmente quando se afastou um pouquinho, cruzou as pernas e escancarou a autenticidade do ISO 69. Haveria de nascer o cristão para não se render a argumentos tão bem detalhados.
Besteira. Bissexualidade é uma simples palavra, avaliou Felipe, prestes a ceder. De mais a mais, só não muda o papagaio, porque não tem língua, e o burro, porque burro é. Apesar da avaliação positiva, o cabreiro Felipe ainda titubeou ao ser beijado e ao ouvir a voz da apaixonada Júlia:
- Nada de motel. Iremos para o meu apartamento, aqui em cima. Vamos subir, Felipe.
- Mas... Sabe, Júlia... Eu... Enfim...
Mas subiram, enfim.
Lá pras tantas, porém, depois dos “nossa!, vai!, ui!...”
- Que??!!
- Oh, Felipe. Relaxe, amor.

Até outro dia,
Tião