sábado, 23 de março de 2013

QUÊ?!


QUÊ?!

            Gosto de tomar uma cervejinha, sou fumante, leio 34 minutos por dia, no mínimo. E diariamente escrevo, ou melhor, redijo, por também no mínimo, 38 minutos. Loucura, não?
Driblo a cerveja numa boa, de tempos em tempos dou um banho de cuia no cigarro, nos livros costumo aplicar umas canetadas, e na escrita... Bom, a escrita é caixão e vela preta.
A marcação é cerrada, gente. Não consigo me livrar. Já tenho dois livros de besteiradas.  O primeiro, A Senhora Dois, produção independente, tomei na tampa com mil reais. O segundo, o Intuitor Bião, edição semi-independente, empatei. O primeiro, embora tijolão, é bom. O segundo, simples tijolinho, é péssimo.
Esse nariz de cera (não sou jornalista não, pessoal) é para anunciar meu internamento. Masoquista todo, acabo de botar o ponto final na última idiotice. Começa pelo nome do bicho: “QUÊ?! Agora, esse só sai daqui se alguém se interessar. Mandei a sinopse para algumas editoras. Se quiserem publicar, beleza. Senão, azar delas, pois terão perdido uma história supimpa.
Vou fazer um copiar/colar da primeira página, mas deixe-me dar uma informação sobre o título, o “Quê?!” O romance foi escrito em 126 páginas do word, tamanho 12, com 66.301 palavras. Mas, a exemplo deste escrevinhado, não usei o que. Tampouco o porque. Há o que, sim, desculpem. Existem 66 “Quê?!”, assim escritos, formando parágrafos isolados. Eles transmitem estados mentais de variadas matizes, tais como contentamento, medo etc.
Tome-se como ilustração este fato. A delegada está no apartamento com Artur, fica excitada, quer logo transar. Algema Artur, algema-se e caem na cama. O “cego” Paulinho, desconfiado de quem a delegada desconfia, entra no apartamento, senta-se perto do frigobar, põe uma pistola em cada mão
e espera o casal sair debaixo do lençol. A delegada apoia a cabeça no espelho da cama:
- Quê?!
- Levantem os braços bem devagarzinho. Não hesitarei em atirar, delegada.
Os amantes obedecem:
- Quê?!
Minha nossa! Como conseguiram...

A patética cena termina em risadeira, embora de armas apontadas, e...


Quê?!
Você é editor e não quer os originais?
Pois diga!
Quer?
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Leiam a primeira lauda do Quê?!


1- DILEMAS
O café tá no fogo, Feitosa. Vai derramar, amor”, gemeu Sandrinha, num graveto de voz, afogueada toda, mas sem fazer a menor menção de apagar o fogo.


Sandrinha acariciou a barba do marido e perguntou:
— O morta-fome de Seu Zé não faz um vale não, Feitosa? Dá uma pena ver a nossa filha ressonando desse jeito e não fazer nada. Com cem cruéis eu resolvia o problema. Ia a Cristal, ficava no apartamento da tia Jacinta e consultava a menina no hospital infantil. Se tivermos sorte, a Luíza entra logo na fila da operação.
A adenoide de Luíza se agravara havia um mês, mas Sandrinha tinha vergonha de pedir ajuda ao irmão, Inácio. O espalhafatoso Inácio vivia bem e gostava de ajudar, especialmente uma pessoa da família. Mas de tanto Inácio socorrê-los, Sandrinha sentia-se encabulada de falar sobre a doença da filha. Torcia para ele tomar conhecimento por outros meios. Inácio faria uma zoada e mandaria Sandrinha providenciar o tratamento.
Certos indivíduos são engraçados. Esperam receber sem pedir, como se isso sempre fosse possível, e não enxergam no ato de dar a primeira forma de receber. Os envergonhados não pedem, daí não recebem. Os sovinas não se doam, por isso não se recebem. A espera ficava mais esquisita em relação a Sandrinha, pois a timidez era inimiga da naturalidade dela.
Na visão de Feitosa, o jeito alegre de Sandrinha era responsável pela situação financeira da família. Ciumento, fazia cara feia para as ofertas de trabalho dirigidas à mulher. Como se extroversão rimasse com traição. Inácio já se desentendera com o cunhado por causa disso. Inácio queria a irmã na gerência do bar/restaurante dele, o Panegírico Bar, porém Feitosa não concordava.
Se Inácio chamar a Sandrinha de novo, vou concordar na hora, pensou Feitosa, alisando o cabelo da esposa.
— Tá maluca? Cem cruéis? Só de passagem é noventa, Sandrinha. E os ônibus lá em Cristal? E os remédios? Precisa de pelo menos cento e cinquenta. Vou falar com Seu Zé Antônio. Ele é legal. Está sendo injusta chamando Seu Zé Antônio de morta-fome, Sandrinha.
Essa lamúria ocorria na cama. Sandrinha e Feitosa assistiam à televisão. Ou melhor, olhavam para a tevê, posto a conversa lhes tirar a concentração. Luíza, cinco anos, ressonava ao lado, na rede.
— Tu devia ter falado com a Gorete. Gorete é rica. Se quiser, ela paga a cirurgia da Luíza na hora.
Sandrinha ficou pensativa. Não podia falar da conversa com Gorete. Optou pela desconversa:
— Era, homem. Mas não deu tempo de conversar a respeito disso. Tão logo terminou o leilão a Gorete se mandou com o namorado. Ela me deu o número do celular. Quando criar coragem eu ligo.
Sandrinha não podia revelar a conversa pelo seguinte motivo: tinha de sobra o dinheiro do tratamento de Luíza: dez mil cruéis. E quem tinha lhe dado, fizera uma semana, fora justamente a rica Gorete. Sandrinha não podia falar do presente, senão as circunstâncias a tornariam desavergonhada, a um passo de pôr no lixo o diploma da fidelidade.
Demanhãzinha confesso tudo ao Feitosa e faremos a operação da Luíza. Chega de adiamento. “Gorete me deu a grana, mas eu pretendia fazer uma surpresa, Feitosa”. Direi assim. Devia aproveitar o momento e...
- E se tivermos outro filho, Feitosa! Em nove meses estaremos pegando o auxílio do Governo. Já dá pra sair do aperto.
— Está brincando, não é, Sandrinha? A gente sai, mas com pouquinho tempo o aperto volta. Tu vai ter outro menino, mais outro, mais outro. Essa não é a solução, Sandrinha. Tu vai...
Feitosa cortou a frase e começou a rir. Mesmo desconhecendo o motivo, Sandrinha imitou a risada do marido.
“Eu vou...”, conseguiu articular.
“Tu vai só empurrar o problema com a barriga, Sandrinha”, completou Feitosa. Falou e começou a enxugar as lágrimas de riso, filhotas do grávido trocadilho.
Sandrinha não deixou por menos e replicou:
— Vou dar e receber, Feitosa. Não só recebo se der?
“É, sim senhora”, respondeu Feitosa, fazendo cócegas na patroa. Controlado o riso, Feitosa comentou:
- Escuta, Sandrinha. Sabe o Pedrão?
— Sei.  O...