segunda-feira, 29 de abril de 2013

INGRATIDÃO


INGRATIDÃO

            É, D. Totinha, tudo chega ao fim. Estas mal traçadas linhas significam a melancólica rescisão da mais bela amizade de minha existência. Mas não se sinta culpada, Totinha. A culpa é da crônica matutice deste caipira. Os recheios da modernidade, Totinha, não serão capazes de diluir-me o brejo da naturalidade, de afastar-me das raízes da autenticidade, de fazer-me fugir do paul da simplicidade. Para você, contudo, são nos fermentos das novidades que uma relação sobrevive. Fazer o quê? Pontos de vistas distintos não devem condenar ninguém, não é certo?
Tem culpa você se minha teimosia em mudar-me fê-la abusar de mim? Dez mil vezes não, Totinha. Agora veja bem. Sentir-se enfarosa é uma coisa. É um direito seu. Ser desrespeitosa é outra coisa. É um defeito seu. Se não lhe dou mais prazer, por que então continuar a me acolher, a procurar-me no balcão dos velhos sentimentos? “O que não traz prazer não dá proveito”, dizia o dramaturgo inglês, o nosso amigo Shakes. Você pegou carona no aforismo do mestre e vem me tascando indiferença. Estou me sentindo o mais desprezível dos seres inanimados, Totinha.
Veja como se comportou hoje, na boquinha da noite. Estávamos sozinhos em casa. Você, lindíssima, destoalhada, pingando lascivos mormaços,

sábado, 27 de abril de 2013

TOMATE


Colaboração do colega Zé Alves


O TOMATE
                            Zé Alves

O brasileiro é um povo muito forte
Não se omite diante do perigo
Prá combater não escolhe inimigo
E não se queixa muito da sua sorte
Para vencer corre até risco de morte
Em qualquer jogo não gosta de empate
Mesmo que a luta seja contra um tomate
Ele enfrenta tudo com muito humor
Tem a sua alma repleta de amor
Mas sempre pronto para qualquer combate

Como pode uma planta natural
Prejudicar a nossa grande

domingo, 14 de abril de 2013

O BICHO HOMEM


O BICHO HOMEM

            Alguns leitores começam a me espinafrar. Dizem que sempre contextualizo meus textos com barzinhos. Normalmente, essa reclamação bafeja depois da quinta cerveja. Dou-lhes razão. Barzinho é um gradeado de boas histórias. Abstêmio de imaginação ficcional, não posso deixar de bebê-las nesses recintos.
Barzinho e jogo do bicho, pessoal, constituem as melhores faculdades de ciências humanas. Tive o privilégio de tê-las cursado. A primeira ainda estou cursando, evidentemente. Houve tempos em que estudava nas duas, pois vendia jogo de bicho num barzinho. Hoje o jogo está meio avacalhado (vaca?), mas naqueles dias a atividade era extremamente lúdica.
Ou não é divertido jogar um palito de fósforo aceso numa xícara de café e observar o bicho formado? Quer algo mais prazeroso que vincular um sonho a determinado bicho? E o que dizer de ajudar o jogador a montar a estratégia matemática a fim de adivinhar o número da sorte? Fui especialista nisso. Estudante de Economia, cansei de abandonar Samuelson ou Chapiro a fim de decifrar um sonho ou dizer que o prego de carneiro é porco.
Pois não é que abriu um barzinho defronte de minha casa?