domingo, 14 de abril de 2013

O BICHO HOMEM


O BICHO HOMEM

            Alguns leitores começam a me espinafrar. Dizem que sempre contextualizo meus textos com barzinhos. Normalmente, essa reclamação bafeja depois da quinta cerveja. Dou-lhes razão. Barzinho é um gradeado de boas histórias. Abstêmio de imaginação ficcional, não posso deixar de bebê-las nesses recintos.
Barzinho e jogo do bicho, pessoal, constituem as melhores faculdades de ciências humanas. Tive o privilégio de tê-las cursado. A primeira ainda estou cursando, evidentemente. Houve tempos em que estudava nas duas, pois vendia jogo de bicho num barzinho. Hoje o jogo está meio avacalhado (vaca?), mas naqueles dias a atividade era extremamente lúdica.
Ou não é divertido jogar um palito de fósforo aceso numa xícara de café e observar o bicho formado? Quer algo mais prazeroso que vincular um sonho a determinado bicho? E o que dizer de ajudar o jogador a montar a estratégia matemática a fim de adivinhar o número da sorte? Fui especialista nisso. Estudante de Economia, cansei de abandonar Samuelson ou Chapiro a fim de decifrar um sonho ou dizer que o prego de carneiro é porco.
Pois não é que abriu um barzinho defronte de minha casa?
E, vejam só, com uma banquinha de jogo do bicho? Quero ver às seis horas e quatro minutos das sextas-feiras eu não está lá curtindo a jogatina noturna. Sento-me vizinho a Seu Antônio, o cambista, peço uma gela e pegue a ouvir resenha. De candidatos a bêbados e de aspirantes à sorte. Também sou resenhista, é lógico.
Não sabia para onde me virar na última sexta-feira. Num lado, PEC, Feliciano, Daniela. Noutro, tabela de jogos, cambista sangue ruim, milhar invertido. Milhar, gente, não mulher. Por favor!
Sete horas, encerrado o jogo, volto-me definitivamente para os vizinhos de mesa: um, óculos de aros, cabeludo - o cara, é evidente -, sugeria-me o intelectual do grupo. Outro, agalegado, mostrava-se relativamente sóbrio. O terceiro, um negrão barbudo, parecia-me o mais exaltado. Falavam alto. O intelectual se posicionava acerca de certo assunto:
- Não entro nessa discussão. É uma questão de foro íntimo. Quem tem o que é seu dá a quem quer, quando quer e como quer.
“Seu, dela, né amigo?”, rebateu o agalegado. Mas concordo com você. É uma questão pessoal, por isso respeito. Só não me peçam aplausos, pois mulher se agarrando com outra é feio pra caramba.
O negrão quis se pronunciar, mas os óculos de aro não deixou:
- Isso é preconceito enrustido. Concorda, porém discorda. Qual é, meu!
- Preconceito uma porra, cara. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, entendeu? Acontece...
O Galego não terminou a frase. O Negrão barbudo levantou-se, brabo feito um siri na lata. O bicho parecia um armário. O bicho vai pegar, pensei:
- Posso falar, posso falar! Pra mim, isso é frescura. Vocês estão falando bobagens. Mulher ficou pra homem, e homem ficou pra mulher. Sou pai dum casal. Agora, digo um negócio a vocês. Se um dia eu souber que eles estão mudando de lado, vão sair de casa na base do chicote.
Nessas alturas, a atenção da galera estava grudada no barbudão. Alguém aplaudia, alguns apupavam. O de óculos também se levantou, abriu a boca, mas esperou o barbudo atender o celular. Vaias e ovações também cessaram:
“Oi”, disse o cavernoso, voz estranhamente suave. “Não, não. Estou em D. Lucinha. Aqui? Já estou de saída. Espere...”
O lado de lá, igualmente parrudo e alto, estava pertinho do bar, pois o “espere” do lado de cá foi infrutífero. O Tarzan nem pediu licença. Ainda de celular na mão, pegou o copo do companheiro de chicote, deu uma golada, sapecou-lhe suculento beijo na face, acomodou-se ao lado, acariciou a barba do colega, e...
“Mas olha só! Beleza! Pois diga! É isso aí! Caramba! Minha nossa! É o fim do mundo! Valeu!”
As exclamações foram abafadas pelo risadeira da clientela, visto Raimundo de Zeca, melado todo, ter decifrado assim o amoroso gesto dos dois amigos:
- O bicho de amanhã é viado, gente!

Até mais ver,
Tião