domingo, 9 de junho de 2013

A DANADA DA TRANSPARÊNCIA VISTA POR ÂNGULOS DIFERENTES

O Pocilga tá de sacanagem comigo. Já são três prosas que desaparecem. O texto abaixo, postado no auge da polêmica sobre a Lei nº 12.527, simplesmente sumiu. Acho que alguém não gostou da lourinha Têmis. Vou postar de novo. Engraçado que só deletam os textos mais lidos. Eu, heim! Então! Se já conhece a Têmis, pule para o Bolo das Confederações. Do contrário, sinta-se por ela abraçado. Falar em futebol das Confederações, você pode jogar no BOLO até quinta-feira, 13 deste mês.
Um abraço,
Tião

A DANADA DA TRANSPARÊNCIA VISTA POR ÂNGULOS DIFERENTES

“Faça do jeito que tô mandando, minha filha, e não falamos mais nisso”, exigiu o irritado Bastinho.
- Não acho justo, pai.
- Você não tem que achar justo, Têmis. Só precisa abrir os olhos e fazer. Comece logo.
O entrevero entre pai e filha, Bastinho e a belíssima loura Têmis, ocorria na bodega da família. Bastinho vinha acompanhando o noticiário sobre a divulgação de salários do servidor público brasileiro, enunciado conhecido como transparência. Daí ele teve a ideia de aplicar a lei em seu estabelecimento, a Mercearia Andiroba. Mal Têmis acordou, Bastinho a chamou e pediu que ela elaborasse uma lista com os pinduras da freguesia.
Têmis passou a mão no cabelo assanhado, muniu-se duma folha de papel pautado, botou a mão no queixo, fez ar de queixosa, olhou pro pai:
- Boto o que primeiro, pai? O nome da pessoa ou o débito?
- O prego, minha filha. Inicie pelo mais velho, o da professora Martha. Depois bote o nome do trambiqueiro e o lugar onde trabalha.
Têmis pegou a caderneta do fiado
, olhou a dívida de Martha: 13 cruéis.
- Pai! 13 cruéis, pai. O senhor me desculpe, mas não vou me prestar à tamanha baixaria não. Escute só. A transparência diz respeito aos vencimentos recebidos pelo servidor público. Não tem nada a ver com o que deve o infeliz. Aí chega o senhor e inverte o princípio. Já pensou na vergonha que vai impor aos nossos amigos. Não farei isso. Tô fora, pai.
- O princípio é o mesmo, Têmis: criar uma onda. Ora se eu quero saber da vida dos outros! Cada um que viva a vida dele. Minha mãe, Têmis, nunca soube quanto papai ganhava. Seu avô, minha filha, ganhava bem, mas vivia cheio de dívida, porquanto tinha doze bocas para dar de comer. O dinheiro do fim de mês não esquentava o canto. Papai saía pagando a todo mundo, chegava bicado, batendo biela. O que interessa é a diferença entre o que a pessoa recebe e o que paga, entendeu? Então, se alguém está recebendo mais do que o certo, que o pagador não pague acima do combinado.
Bom, o princípio é o mesmo, dizia eu, minha filha. Os caras de lá dizem quanto a criatura ganha, mas não dizem quanto ela gasta. Aqui a gente vai dizer quanto a criatura gasta, mas não quanto ganha. Os caras de lá não querem fazer onda? Pois vamos fazer a nossa também.
Você achou pouco os 13 cruéis do calote da professora Marhta. Mas pra ela, Têmis, deve ser muita coisa. Porém, se quisesse me pagar, dava pra ir pagando aos pouquinhos, não dava? O seixo de Raimundo bico doce passa dos 500 cruéis. Faz mais de ano que o caloteiro não aparece. E, dizem, o molestado recebe uma fortuna para não dar um prego numa barra de sabão no tribunal onde dá expediente. Não temos nada a ver com isso, não é verdade? E temos sim, mas com os azoretas que fazem as leis e tornam a ilegalidade legal. Mas aí são quinhentos distintos dos que o enrolão nos deve. Ah, depois, minha filha, você olha aí na internet o salário de Bico Doce. Não, não! Não olhe não. Eu quero lá saber do ganho de ninguém!
Bem, continue o serviço. Quando terminar bote a relação no portal da venda.
- Que portal, pai? A bodega não tem nem computador, imagine portal.
- E quem diabo tá falando em computador, Têmis? Cole a relação no portal, lá em cima, na entrada, na porta de madeira. Entendeu agora? Pra falar nisso, você bem que podia botar a lista no computador do tal de Gugo ou então no de seu namoradinho sem futuro. Como é mesmo o nome do boga dele, minha filha? É Chiqueiro de Prata, é?
Aí não prestou não. Têmis caiu na risada:
- Boga, não, pai! Blogue. E o nome do blogue de meu namorado é Pocilga de Ouro. Pocilga de Ouro, compreendeu? Vou postar a lista nele, tá certo?
- Tá certo. Pois diga! Quem manda seu namorado botar um nome desses? Só quero ver quando a Globo chegar aqui. Vai ser o maior bufufu, não vai? Agora cuide, Têmis. Faça bem feita a coisa. Quero transparência total, viu, minha filha?
Têmis permaneceu rindo, pôs a caneta na boca e traçou um plano. Faria a listagem, mas alteraria o nome dos devedores. Martha, por exemplo, ela alterou para Mirtha, e Raimundo virou Edmundo.
Terminada a tarefa, a lourinha Têmis apanhou uma escadinha, subiu quatro degraus e começou a colar o papel.
Primeiro chegou Assis caolho, em seguida Pedrão meiota, depois Chico de D. Chiquinha, depois mais um, mais um, mais um... O amontoado masculina crescia, e crescia, e crescia, e inchava, e aumentava, e se agigantava. Todos queriam ver a tal listagem.  Ou melhor, queriam ver os dezessete aninhos da lourinha Têmis colando a listagem.
Têmis, pessoal, tinha esquecido que ainda estava com a roupa de dormir. Usava um chambrinho vermelhinho, de sedinha ralinha, curtinho. Uma ninfinha, enfim!

Transparência total!

P.S 1- Seu Bastinho viu aquele aglomerado de macho e foi ver do que se tratava:
“Cambada de pervertidos corruptos. Pra isso é que vocês querem transparência, é? Vazando! Circulando, circulando. Mas antes tratem de tirar do bolso as bananas que me roubaram. Vamos, seus vagabundos”. Têmis olhou pra baixo, viu os sorrisos de deleite, e só aí se lembrou de que costumava dormir sem calcinha.
P.S 2 – A professora Martha é minha amiga, para quem bato palmas, conquanto exercer a profissão origem de tudo e não merecer o reconhecimento dos aloprados não transparentes.