quinta-feira, 27 de junho de 2013

O SUSPENSE

O SUSPENSE

Há poucos dias, apresentei-lhes o Bastinho e a filha, a lourinha e bela Têmis. A postagem, A DANADA DA TRANSPARÊNCIA, está aqui embaixo. Bastinho, convém lembrar, é dono da Cantina Andiroba, localizada no Alecrim, simpático logradouro de Natal.
Pois bem, o Bastinho está num imprensado, gente. Começou assim, do nada. Insensível e monopolista (a mais próxima bodega fica a 200 quilômetros da dele), Bastinho aumentou em vinte centavos a dose de pinga. Pra quê! A galera pegou ar. Chiaram e foram pra rua protestar. Solidários, os que tinham o costume de beber vinho de jurubeba engrossaram o protesto, porquanto só queriam um pé para cair na gandaia cívica.  A coisa principiou mole, Bastinho endureceu o pescoço, contratou seguranças, mandou levantar o pau, pagou pra ver.
Aí o negócio endureceu. A revolta, pessoal, não é somente pelos vinte centavos. Vejam. Bastinho comprou moderníssimo telão a fim de que os clientes assistissem aos jogos da Copa do Mundo. Até aí tudo bem. Ocorre
que os vinte centavos de aumento no preço da pinga foi a forma engendrada pelo Bastinho para financiar o telão.
“Isso é um absurdo. Terminada a Copa, o telão vai ser morada das moscas. Estamos pagando para as muriçocas cagarem mais confortavelmente. Cadê que o peste manda ajeitar o imundo banheiro do lado de fora? A porta está cai não cai. Ele devia ter contratado esses capangas para dar segurança a gente. Quantos já não foram assaltados ali no banheiro? O tabuleirinho de remédios vive vazio. Não tem um engov. Cibalenas e melhoral pra dor de cabeça das ressacas que é bom, necas. Temos de nos mexer. Chega de humilhação”, discursavam os conscientes bebuns.
E se mexeram. Falaram com a Têmis, a filha do Bastinho. Fariam uma onda de reivindicações. Têmis endossou a ideia e encabeçou o movimento. Bastinho, ao sentir a coisa engrossando, tratou de se aconselhar com o amigo Lucas e o marqueteiro Dr. Santos. “Dê o dito pelo não dito, Bastinho, e cancele o aumento”, foi a recomendação. Bastinho subiu num tamborete e anunciou:
“A pinga, meus amigos, vai permanecer nos cinquenta centavos. Espero que a paz volte a reinar entre nós. Não se fala mais nisso. Morreu Maria Preá”.
Não morreu. Era tarde. A galera continuava viva.
Agora, o bicho pegou mesmo na tarde duma quinta-feira. Bastinho não conseguiu completar a tradicional soneca. Acordou com o berreiro na porta da mercearia. Levantou-se, caminhou e... Imobilizou-se. Não somente ele, como também a turma do protesto. O motivo? Esta frase, meus nobres, pronunciada alto e bom som, o eco sobrevivendo por bons cinco minutos:
“Cheguei, gente!”
Atônitos, perplexos - palavras da moda -, assim ficaram todos. Donde viera tão sensual voz? Do mar? Das nuvens? Do tabuleiro? Chico papudinho matou a charada:
“É a voz das ruas, colegas. Só não é rouca como vivem dizendo. Que voz gostosa. Caramba!”
Não houve comentários, pois os olhares grudavam-se na cabeça da rua. A mulher de longo verde caminhava na direção deles. Não era uma simples mulher. Era uma mulher canchuda. Mulher canchuda, os mais jovens talvez desconheçam... Bom, a mulher canchuda tem entre trinta e dois e quarenta e um anos, é linda, respinga mulher em todos os gestos, tem o andar firme, a voz é pura paixão. O que a distingue das simples mortais é o sutil gaguejado nos momentos do extremo prazer. Sem dúvida, aquele andar era de uma mulher canchuda.
Pois bem, os queixos-caídos, notadamente o do Chico papudinho, rastejavam perante o caminhar da formosura. É a Íris? É a Hebe? É a Atena? É a Afrodite? É a Nikê? Palpites não faltavam.
Quem primeiro reconheceu a canchuda deusa foi a Têmis:
“Quê?! Minha nossa! É a Pandorra, gente. E traz uma caixinha”.
Nisso, já pertinho dos manifestantes, Pandorra aperta um botão, o vestido transforma-se em trono, e ela fica suspensa, sentadinha, a caixinha entre as pernas. A caixinha motivo do choro da Têmis, entendam, por gentileza.  De quando em quando ela cruza as pernas e tome carícia na caixinha.
Ninguém entende nada. Ninguém, vírgula. A Têmis receia algo, senão não teria feito a cara de choro. Fiquei doze horas tentando compreender a situação. Desisti. Mas, pelo que estou sabendo, a Pandorra permanece lá, de caixinha no colo.
Ah, quando ia me retirando, escutei a sensualíssima voz:
 “Já vai, menino danado. Fique mais um pouquinho”.

Mulher canchuda é o cão, pensei, acenando-lhe.