quinta-feira, 11 de julho de 2013

DIA INTERNACIONAL DO HOMEM A (DES)HOMENAGEM

DIA INTERNACIONAL DO HOMEM
A (DES)HOMENAGEM

              “E aí? Ele disse o quê?” É assim que o peste do Mião retoma uma conversa. Mião, vocês já devem conhecer, é meu primo e compadre. Além de colega das corriqueiras gandaias. É filho de meu tio Kião com D. Vião. Sou padrinho do filho mais novo, o Bufão.
Pois estava eu tirando uma madorna na encardida rede da área quando o Mião chegou. Nem o vi chegar, confesso. Minha mulher ralhava comigo, caneca de chá na mão. Eu, de olhos fechados, horizontalizado por causa da virose do momento:
- Levante dessa tipoia, homem de Deus, e vamos pro pronto-socorro. Derna cedinho da manhã que esse infeliz tá se queimando em febre, compadre Mião. Mas não quer ir pro médico. Nem sei pra que tem plano de saúde. Médico não morde não, homem! Tome pelo menos o chá.
- Meu compadre é uma mula teimosa, comadre. Fuma que só caipora e bebe feito gambá. Precisa se cuidar. Vivo pedindo que ele faça um checapue, mas o danado não tá nem aí. Se a senhora quiser, pego nos chifres dele, boto no carro e...
- Quê? Que conversa de chifre é uma, compadre Mião? Me respeite! E não venha não, viu? O senhor é pior do que ele. São farinhas da mesma fornada. Quantas vezes o senhor foi ao médico? Me diga!
Minha senhora deixou o chá sobre uma cadeira e foi à cozinha. Abri os olhos. Mião, no alto de seu metro e quarenta, socado num bermudão vermelho, camisa furta cor, chinelo de cabresto, cabeça raspada, balançava-se numa cadeira, copo de uísque na mão direita, na esquerda um cigarro, no rosto a desfaçatez. Autêntico papa-figo. Faltava-lhe somente a trouxa nas costas. Fiquei uns três minutos olhando o espantalho, doido pra rir. Ele também. Terminou falando, rindo:
- E aí? Ele disse o quê?
- Vai te lascar, Mião. Já tá tomando meu uísque, não é, seu safado?
- Calma, homem. O que a comadre acabou de falar tem tudo a ver com a indesejável visita de minha pessoa. Escuta esta. Dia quinze, segunda-feira,
é o dia Internacional do Homem brasileiro. Data propícia para fazer uma DR com a nossa saúde.Vou fazer um churrasco no domingo. Daqui pra domingo estarás nos trinques, bicho. Dr. Precavido Homem de Amoroso confirmou presença. Dará uma palestra sobre o fiofó, o exame do dedo. Vim te convidar. Levas a picanha, beleza? Jânio prometeu a bebida. Paulo garantiu o carvão. Sabrina fará a farofa. Precisamos comemorar o Dia do Homem. Merecemos todos os aplausos do mundo, meu. Combinado?
Sentei-me na preguiçosa. Meu gato, o Chane, começou a me mordiscar, no peculiar carinho dele. Mirei a cachola de pinico do Mião. Então... Em face dos pelos de Chane na canela, suponho, certo é que a cabeça começou a girar. Febre é o maior barato, amigos. Fiquei doidão.
O raspado quengo do Mião virou logo pista de pouso. Vi um bocado de gente desembarcando dum avião, em cuja lombada havia o desenho da bandeira brasileira. Todos vestiam camisa da seleção brasileira de futebol e riam a bandeiras despregadas.
Num piscar, a pista já era um grande salão. Sujo, fedorento, terrível. Choro. Sangue. Sofrimento. Gemidos a servir de remédios. Macas servindo de camas. Pessoas no papel de bichos. Um amontoado de desesperança. Reclamações, muitas. Muitas indignações.
Nisso, o salão transforma-se em suntuosa sala de aula. Parecia uma universidade. Um professor dava carão nos alunos. Dizia que eles não sabiam juntar palavras, mas tão somente soletrá-las. Tive pena dos estudantes. Por sorte...
Por sorte, ou por azar, a reluzente do Mião era agora comum residência. Comum, porém cheia de bandidos revirando tudo, pistola na cabeça dos donos da casa. Uma criança chorava nos braços da ajoelhada mãe. Chorava e pedia que a mãe não deixasse o bandido matá-lo. Levou um tiro na cabecinha.
“E aí? Ele disse o quê?”, repetiu o Mião, tirando-me do transe.
- Ele, não sei, Mião. Eu é que não irei a seu gracioso churrasco.
Comemorar o quê? Merecemos o quê, Mião?
Que homem - use cueca ou calcinha - merece festejo se, dono da ação, torna a Saúde completamente esquelética, a perambular aos tombos? Será que o desalmado, de calcinha ou cueca, desconhece que tudo termina quando a saúde vai para o brejo?
Comemorar o quê? Merecemos o quê, Mião?
Que homem - use suéter ou sutiã - merece aplausos se, possuidor de decisão, deixa a “menas” favorecida Educação completamente analfabeta? Será que o indiferente, de sutiã ou suéter, desconhece que tudo começa com a educação?
Comemorar o quê? Merecemos o quê, Mião?
Que homem – alivie-se em pé ou sentado - merece aclamação se, posseiro de mando, aceita a medrosa Segurança caminhar de mãos pra cima? Será que o insensível, de aliviamento sentado ou em pé, desconhece que o combate ao crime começa quando se aumenta o risco para o infrator?
Comemorar o quê? Merecemos o quê, Mião?
Que homem – de culhões ou ovários – merece ovação se, detentor do poder maior, acolhe tamanha humilhação de seus governantes?
Não irei à festa de covardes, seu prisiaca. No próximo ano, talvez. Vai depender da meninada primaveril. Irei se não amarelarem, feito você e outros.
Entendeu? Você entendeu, Mião? Entendeu...
Fiz uma pausa. Dei-me conta de que estava em pé. O olhar expressivo de Chane e o ual do miado pareceram-me de júbilo. O lenço úmido na testa e o sorriso esquivamente terno de minha consorte sinalizaram-me nervosismo. As boticas de olhos do Mião e o tremor das mãos exibiram-me acovardamento. Tão verdade que o amofinado se benzeu, botou o rabinho entre as pernas e se mandou.
“Precisava disso, homem. Começou falando normal e terminou gritando com nosso compadre. Eu, hein! Já pro chuveiro”, ordenou a minha esposa, rebocando-me para o banheiro, começando a me despir. Saí falando sozinho, numa ladainha só: entendeu... Entendeu... Entendeu? Ela simplesmente respondia: entendi... Entendi... Entendi. Despido, febre de outra origem, febres misturadas, contagiosas...
Você está entendendo, meu?
O homem é foda, gente. E, no mais das vezes, um fodido.
Entendeu bem?

Abraços fortes,

Tião