segunda-feira, 22 de julho de 2013

JORNAL DO PORCO E OS CACHORROS DE SANTA CRUZ DO ARARI

JORNAL DO PORCO E OS CACHORROS DE SANTA CRUZ DO ARARI

EDITORIAL, OU QUASE - LITERATURA (Escrito pelo aporcalhado editor, Tião)

Sempre gostei de redigir. Redigia alguns textos, julgava-os o sumo das tolices e, envergonhado, amassava o papel e punha no lixo. Escrevia à mão, diga-se. Certo dia, já no computador, engoli corda de uma amiga (Escreves bem, Tião, dizia ela) e tentei sair do redigir para o escrever. Ainda hoje desconheço se fui aprovado. Quiçá esteja tirando fino na redação e passando de raspão na escrita. Desconheço, mas antevejo o monossílabo de julgamento. “Não”, deverá dizer o inocente menino ao ler o papelzinho tirado da urna. Então você levanta o JÁ SABIA e dana-se a rir, não é, meu?
Certo é que passei a rediscrever e dei um chega pra lá na vergonha: comecei a enviar - por imeio - as prosas para alguns colegas. Mais ou menos dez, no fim de 2011. A turma lia, ria e me enaltecia. “Você é maluco, cara”. Adorava esse elogio. Tanto adorava que fiz o seguinte. Para facilitar o envio dos textos e conquistar leitores, cismei de criar um blogue. Os colegas aprovaram a ideia, falei com o professor e amigo Google. Em dez minutos o danadão criou este blogue, acreditam? Isso está fazendo vinte meses. Mas aí ocorreu
o inesperado. Perdi leitores. Daqueles “mais ou menos dez” restam-me três. Trezinhos só, contados nos dedos. Por quê? Cansaram de meu estilo, suponho. Se é que o tenho. Mas permaneço com os mais ou menos dez leitores. Graças a você, é verdade. Notadamente você do exterior. Engana-se, contudo, quem me imagina frustrado em razão do abandono. Frustro-me, decepciono-me e me irrito por causa de determinadas coisinhas.
 Vejam o que é literatura. (Literatura, sinhá danada, junho de 2012. O link não quer vir, desculpe). Não tenho carcaça teórica alguma a respeito do tema, mas vou dizer o que penso sobre o fazer literário. O escrevente é um ser frustrado por natureza. Mas nem sempre, sejamos justos, tal frustração é maléfica. Tomo-me como padrão. Escrevo (escrevo?) ficção pela necessidade de me comunicar, posicionar-me em relação a certos fatos. Acontece que, no mais das vezes, a mensagem não chega ao leitor da forma que a imaginei. Às vezes, acolhida numa variante melhor do que a imaginada, daí o sejamos justos, mas com o visível cumprimento de frustração pela incapacidade de me expressar adequadamente. A dubiedade interpretativa é inerente à escrita, seja a informativa, seja a ficcional. Mais aqui do que lá, por óbvio, mas mais perniciosa lá do que aqui. Abaixo, no Informativo do Porco, darei um exemplo disso.
Analiso assim. Ponho-me a teclar, na crença de estar jogando larvas de expectativas, cujos filhotes haverão de ser pescados pelo leitor. O tucunaré, porém, e constantemente, transforma-se em piaba. Ou vice-versa. Num extremo da vara semântica, no riacho do computador, fica o autor. Noutro, no aconchego de outro, ou no chiado das páginas, acomoda-se o leitor. No meio, senhor de si, diverte-se o texto. Ambos, eu e você, na expectativa de a expectativa ser alcançada. Expectativa de que, objetivamente? A minha, como dito, de ser compreendido. A sua, e minha quando em seu lugar, de ser surpreendido.
E a decepção? Minha decepção é com pseudoleitor. Como mente esse pessoal. Constatei, gente. Contaste você: pegue dez pessoas que dizem gostar de ler e verá que somente duas realmente gostam. Oito têm vergonha de falar a verdade. É fácil verificar. “Adoro ler, mas tenho lido pouco. Ando sem tempo” diz logo o mentiroso. Essa é a primeira pista. Aliás, essa história de sem tempo é de uma desfaçatez descomunal. Não existe falta de tempo pra nada, amigo. Há desinteresse, isso sim. Temos uma curva de interesse, um gráfico de prioridades em que a leitura ou atividade diferente situa-se na interseção dos eixos. Conduta perfeitamente normal. Desconheço o motivo de o falsário escondê-la.
Fenômeno relativamente criança é a careta feita à prosa longa. Para muita gente, ler um escrito de mais de meia página é tremendo martírio. Enraivece-me tal criancice. Vejo-o cordato, leitor, por isso não o enxergo estirando-me a língua.
Também me causa azucrinação a obsessão pelo texto conciso. Adjetivos e advérbios ardem na infernal fogueira do pecado, constantemente avivada pelos gravetos de alguns críticos literários. Advérbios e adjetivos ônibus devem ser condenados, é evidente, mas o purgatório já estaria de bom tamanho. Apoiados na boa intenção, busca-se a concisão, perde-se a precisão.
Raciocine comigo. Você, leitora, tem o rosto bonito (muito bonito), é charmosa e linda. Preciso então descrever seus atributos com todas as letras, não é isso? O autor temente aos críticos apaga o bonito e a charmosa e dirá apenas que você é linda. Mas alguém pode ter o rosto bonito, mas ser desprovida de charme e não mostrar um pingo de lindeza. Charme é conjunto, é atitude, é feminilidade. E beleza requer algo a mais que um rosto bem delineado. Linda é... Ah, linda é você.
Aliado dos críticos, abraça-lhes ainda o estado mental de desconforto. Ouso adverti-las, minhas nobres. Não leia se o momento mental não for de receptividade. Se assim proceder, perceberá gordura num simples “fantástico”, e os partidários do fogaréu soprarão logo um “eu não disse?” A decepção com o livro será tiro e queda. Você pode estar abandonando prazerosa leitura. Alguém já disse que acreditamos no que queremos. Atrevo-me a acrescentar: acreditamos no que o estado mental pedir. A fim de ilustrar meu ponto de vista, vou terminar esta prosa me mudando para outra linha.
Está exposto no livro “QUÊ?!”: Galego, na cama, acompanha o espetáculo maior. Sandrinha, a linda esposa, começa a se despir, pois tem o costume de dormir pelada. Galego pensa alto: “Mas nem o diabo aparece para me ajudar a dar a ela uma vida melhor”. Sandrinha o repreende, conversam sobre as dificuldades do dia a dia, acalentam a filha, que dorme ao lado, na rede. Cedinho, a mulher varre a área e encontra um pacote de cédulas. Dez mil cruéis, o dinheiro do lugar.
Galego vai trabalhar, e o estado mental começa a lhe exigir ciúme. Um encontro de Sandrinha com a prima Gorete, doida por dinheiro e sexo, o sorriso do acompanhante de Gorete, tudo lhe diz: minha mulher não achou coisíssima nenhuma. A grana é o adiantamento por uma noitada com aquele safado de sorriso sacana. Sandrinha inventou esse achado. À noite, teremos uma conversinha.
Sandrinha prepara o leite da filha, e o momento mental começa a lhe pedir desconfiança. Galego tem um passado nebuloso, a amizade com o peste do Pedrão, um assalto recentemente ocorrido na cidade, tudo lhe afirma: não achei coisíssima nenhuma. A grana é o pagamento pela participação de meu marido naquele arrastão. Foi Galego quem botou a mufufa lá. À noite, teremos uma conversinha.
Mais tarde, marido e mulher descobrem que a cidade amanhecera repleta de dinheiro. Não era nada do que haviam pensado. Agora o estado mental recomendava-lhes remorso.
Engraçado é que a Sandrinha... Que?! Quer conhecer o desfecho da história? Então vá aqui em cima, clique na guia e-book e compre o livro. Dez paus, apenas. Nem precisa dos dispositivos de leitura. Basta-lhe somente salvar o bicho no computador.
 É isso. Vejamos o Informativo do Porco.
O Pocilga está quebrado, galera. Dispensou os repórteres. Daí me valerei de fontes alheias para redigir este minúsculo noticiário. Dois tópicos, na verdade. Primeiro, a dubiedade interpretativa a que me referi há pouco. Em seguida, irei me reportar aos cachorros do título da postagem.

1. Vou contextualizar o primeiro assunto, a imprecisão linguística. Sexta-feira, a Câmara Municipal de Natal foi ocupada por manifestantes da Revolta do Bulsão, movimento reivindicatório na área de transporte coletivo. Segundo a imprensa, os manifestantes fizeram este acordo com a CMN. Encerrariam o protesto, desde que a CM suspendesse certo procedimento regimental.
Pois bem, a CM cumpriu o trato, mas os manifestantes não. Então o Jornal de Hoje, de 19 de julho, estampou na capa: CÂMARA ATENDE OS MANIFESTANTES, QUE NÃO RESPEITAM ACORDO.
O que está dito aí? Que tivemos dois tipos de manifestantes. Os respeitadores e os não respeitadores do acordo. E somente os manifestantes que não cumpriram o acordado foram atendidos. Bizarro, não? Para os protestantes leais, os respeitadores do trato, nadica de nada de atendimento. E se a chamada fosse esta? CÂMARA ATENDE OS MANIFESTANTES QUE NÃO RESPEITAM ACORDO. Continuaria a bizarrice, pois agora todos os manifestantes foram atendidos, embora ninguém tenha respeitado o acordo. Ou seja, quem descumpre é premiado. Se tirássemos o “que”, a informação talvez chegasse mais limpa. Algo assim, por exemplo. “Câmara atende os manifestantes, mas eles não respeitam acordo. Câmara atende, mas os manifestantes não respeitam acordo”.
Entenda. Entendemos a intenção do repórter, mas que a mensagem saiu truncada saiu. Isso num texto informativo, imagine numa ficção de enes páginas. Daí eu ter falado na frustração do escritor por não conseguir se expressar adequadamente.

2. E os cachorros do título da postagem? Bom, sou frequentador do Clube de Autores. O Clube é tremendo sítio de apoio aos insanos viciados em literatura, a exemplo de mim. Há poucos dias, passeando por lá, conheci duas viciadas. A Carmen Lobbo e a Juliana Telles. Carmen é dona do blogue http://carmenlobbo.blogspot.com.br/, e a Juliana, do http://juliana-editions.blogspot.com.br/. A Carmen é baita romancista natalense, autora de Vidinha Besta, sabichona e encantadora prosa. A Juliana é tremenda romancista (esqueci do lugar dela), autora de Memórias de Uma Revendedora de Cosméticos, texto colorido da mais pura fascinação.
Pois bem, encontrei os cachorros no blogue da Juliana. Ela me autorizou a expô-los aqui, mas prefiro que os contemple no blogue dela. O título do texto é Demônios no Poder. Acesse-o. Prepare-se, tá? Nossa!
Depois de visitar o blogue das meninas, visite o Clube de Autores. Fale com o amigo Google que ele ensina o caminho. Entre com o nosso crachá, dê um abraço na revendedora Luísa, da Juliana, beije a atendente Ângela, da Carmem, e apaixone-se pela dona de casa Sandrinha (ou o Galego), do Tião. Abrace, beije e apaixone-se, mas não saia de mãos abanando, viu, seu mão boba? Pra não esquecer onde encontrar as moças, você pode utilizar esta conexão. Que vidinha besta só é a dessa revendedora de cosméticos!


Té logo, pessoal!