sexta-feira, 26 de julho de 2013

O PAPA FRANCISCO E O PAPARICADO DAVI

O PAPA FRANCISCO E O PAPARICADO DAVI

            Não! Não se trata de trocadilho o paparicado desse título. Davi é tão paparicado quanto o papa. Davi mora pertinho de minha casa. Se passar duas noites sem dar as caras por aqui, surge logo a queixa: “Menino, Davi não apareceu mais. O que estará acontecendo?” Davi é extremamente carismático, daquelas pessoas que nem bem o avistamos e já nos sentimos cativados, a exemplo do Papa Francisco. Sem papas na língua, Davi é um autêntico papagaio na tagarelice. Tal o xará bíblico, é astucioso, inteligente, querido. Notadamente pela mulherada. Inquieto, bisbilhoteiro, perspicaz, certamente será um grande cientista. Na área da zoologia, suponho, tamanho o amor pelos animais. A propósito...
A propósito de animais, um detalhe desse amor tem nos deixados apreensivos. Davi passa longos minutos conversando com o gatinho daqui de casa. Acocora-se – sua posição preferida quando quer estudar algo – e tome papo com o bichano. Acho até que
eles ficam analisando quem apresenta o olhar mais sincero. De quando em quando Davi esboça um risinho, como a apontar empate na empírica empatia. Mas, aprendemos com o próprio Davi, não nos metemos nesse inusitado comportamento. Afinal, Davi não censura ninguém, grande acolhedor que é das diferenças.
Outro pormenor, esse recentíssimo, também nos causa apreensão. Trata-se de peculiar manifestação semântica. O homem deu pra se expressar assim: “X, é?” Xis, no caso, é qualquer evento objeto da atenção dele. Exemplo. Estava ele acocorado no jardim, a acompanhar algumas formigas transportando um fiapo de folha, então fiquei a observá-los. A ele e as formiguinhas, é claro.
Nossos pensamentos, excetos os das formigas, é evidente, convergiam para a lição de solidariedade que as formigas estavam dando. Formigas são solidárias e bem educadas: cumprimentam-se e se ajudam, de nada lhes importando o formigueiro de origem. Isso para não citar o padrão fifa de organização. Pois bem, postei-me às costas do Davi e me fiz de douto na matéria formiga:
“São himenópteros, da família dos formicídeos. Belas formigas, não é, Davi?” O cara nem se virou pra mim. Simplesmente devolveu:
- Formigas, é?
Temos discutido essa locução daviniana, digamos assim. No meu entender, tal expressão nada mais é do que tremenda ironia do mestre Davi. Como a nos dizer: “Seja simples, estou sabendo, chega de burrice, preste a atenção, deixe-me em paz”. Vejam se não estou na pista certa.
Estávamos na cozinha, num blá-blá-blá de alegre aconchego, quando alguém grita da sala. “O Papa Francisco já está falando, gente”. Corremos pro pé da tevê. Davi chegou por último, deitou-se no piso frio e soltou:
- Papa, é?
Ao menos pra mim, ficou claro que ele estava dizendo: “Quer dizer que o papa não falava não, é? Tinha perdido a voz? Estava na UTI, por acaso? Será que nunca falou? Eu, hein!”  Passamos a assistir ao discurso papal. Davi, concentradíssimo, ao menor de sinal de conversa, esticava o dedão para o aparelho e rezava. Ou criticava?
- Papa, é? Papa, é? Papa, é?
Interessante como o Davi e o papa têm sotaques idênticos. Até nisso são parecidos. Mas cada um na sua, naturalmente. O papa com aquele jeitão de quem está ensinando, cerimonioso, contrito. Davi, jeitão de quem está aprendendo, jocoso, divertido.
Bom, no finalzinho da homilia, a tevê apagou. Faltou energia. Comentários, decepções, obviedades. “Faltou luz? É bom acender uma vela, não?” No meio da algazarra, contudo, sobressai:
- Faltou luz, é?
Agora, o gesto definitivo da extrema comunicação do Davi ocorre quando a energia volta. Retorna, mas sem o papa. A televisão mostra a receita de uma iguaria. O homem usa então uma senhora metáfora para expor a contrariedade. Metáfora, sim, conquanto mal cheirosa. Mal cheirosa, ainda que perfumada de eloquência. Foi assim. Aplausos pelo retorno da luz, alguém, Suzana, acho, pede uma caneta a fim de anotar a receita. Davi se expressa:
- Receita, é?
A meu juízo, Davi quis dizer, simplesmente: “Que...”.
Aí, fechem as narinas, por favor. Aí, pessoal, as meninas, ligadas na saborosa orientação televisiva, começam a exclamar um sintomático “hum”. Exclamam, põem a mão no nariz, olham pro Davi. Davi, rosto avermelhado, espremia-se.
Coube à mãe, Fernanda, suspendê-lo pelos sovacos e levá-lo ao banheiro. Foi ou não foi uma estupenda metafora?
Davi Augusto tem um ano e sete meses. O sapeca é filho de Fernanda, sobrinha de minha mulher, Tânia. Davi é primo de Maria Alice - da mesma idade dele -, filha de Paulinho, também sobrinho de Tânia. Davi e Maria passam o dia juntos com a avó, Kátia. Tornaram-se inseparáveis. Os dois fazem a festa com o “Cadê Maria, cadê Davi”.
Neste momento, 18h45, o Papa Francisco na Canção Nova, Davi, já cheiroso, brincando, responde-me assim quando lhe digo que estou escrevendo uma prosa em alusão a ele:
- Prosa, é?
 E você? Tá rindo de quê? Estará com vontade de imitá-lo ou prefere:
- Besteira, não?

Até outro dia e sintam-se abraçados pelo Davi e Maria. E por mim. E pelo papa, por que não?
Tião Carneiro


(Neste dia coruja, meus parabéns a todos os avós, especialmente a Kátia e a Everaldo, avós da duplinha daqui de cima).