segunda-feira, 12 de agosto de 2013

REFLEXÕES DE UM ENGASGATO

Antes de se engasgarem com o texto, preciso lhe dar uma informação. Corra e clique aqui em cima, na guia de meu e-book, “QUÊ!” O bicho está esgota não esgota, galera. Fato inédito no mundo editorial, mas é verdade. Pela primeira vez um e-book fica esgotado. Fazer o quê? Tá rindo de quê?

REFLEXÕES DE UM ENGASGATO

            Há séculos venho pensando nisso. Hoje, motivado por amoroso fato de ontem, julguei ter chegado o momento, após julgar-me competente para me expressar. A ignorância deve ser afogada, a história tem o dever de esganar o mito, a verdade precisa respirar. Meu mutismo tem limites, pensei.
É imperioso tirar esse entalo da garganta.
Entendam-me. Não sou a criatura mais importante do planeta. Essa aparente cabotinice é explicável, já que vou me expor, desfazer-me de absurdas éticas, pôr no lixo as máscaras da pseudoeducação. Chegou a hora de dizer o que penso, mas que, pela incapacidade de me comunicar, guardava na gaveta do inconsciente. Meu temor é não encontrar as palavras certas. Mas hei de encontrá-las, sim. Não temo o juízo de valor de Vossas Excelências. Até porque, Vossas Excelências são
um Amazonas de contradição, um Índico de egoísmo, um Atlântico de maledicência. Sou mais o meu diminuto pinguinho de autenticidade. Às favas as críticas.
Importa-me somente livrar-me de certos engasgos.
Conheçam-me. Desculpem a impropriedade verbal. É evidente que os senhores me conhecem, o que não é garantia de que gostem de mim. Taí Luís açougueiro e Chico da panificadora, conhecidíssimos, mas sempre dispostos a me espancarem. Conhecer-me também não significa que me tratem com respeito. Conhecidos há que se comportam como a indiferente Glória e a desrespeitosa Sônia. Prefiro o grupo dos inimigos à patota dos indiferentes, acredita D. Glória? Mesmo porque, ninguém é obrigado a gostar de mim, assim como não sou obrigado a gostar de todo o mundo. Mas a ninguém é dado o direito de ser indiferente com alguém ou com alguma coisa. As duas me desprezam, nem sequer um aceno me dão. Indiferença total. Não tomar partido por algo é irrigar a babugem da imbecilidade, é sentar-se no Everest da apatia. A indiferença... A indiferença, Dra. Sônia, é o mais mesquinho dos sentimentos.
Estava com isso atravessado, Dra. Sônia.
O ser humano é muito esquisito. Abestalhado, diria. Sou quase mudo, sabem vocês. Então o que acontece. Imbecis existem, bastantes, sim, que veem surdez na mudez: despejam idiotices e safadezas no meu focinho, como se mudo não ouvisse. Dia desses, num restaurante de beira de estrada, presenciei certa cena... Uma, não. Duas.
Preciso desfazer-me desse espinho, gente. Sucedeu o seguinte.
Restaurante de estrada, fazendo um parágrafo, é ideal para se conhecer os podres de muita gente. Pois bem, cheguei ao restaurante e farejei logo o jeitão amedrontado daquele casal. Botei a barba de molho. Namoravam às escondidas, dizia o olhar apaixonado. “Precisamos ter muito cuidado, amor. Se fulaninho nos pegar... Sabe, querida, nós...” Minha atenção voltou-se para a mesa atrás de mim. Levantei as orelhas, dei uma coçadinha na barbicha, fiquei de mutuca. “Não deem bobeira. Na dúvida, atirem na cabeça”, um barbudo meliante, cara de cachorro, orientava dessa forma os comparsas. De ouvidos nas duas mesas, descobri, abreviando: o casal ficou de se encontrar numa capital vizinha, certamente para um combate de libidos. Os facínoras planejavam um arrastão, seguramente para um enlace de crimes.
Espreguicei-me, olhei em volta e saí de fininho, atordoado. Não tivesse sido tão ágil e teria morrido atropelado na saída, por uma camionete. O Homem sabe o que faz, imaginei. Deu-me singular senso de observação, pluralíssima rapidez física e mental, inadjetividade poder de sedução. Mas me negou a força verbal. Se eu pudesse falar, faria de eloquência eficaz metralhadora. Na agulha, cápsulas de aconselhamento para o casal e balas de padecimento para os bandidos.
E esse povinho ainda se diz racional. Racional uma ova. O casal deseja o prazer supremo, mandamento divino, mas, em nome de anacrônica convenção social, deixa o sexo constrangido e se sujeita à escuridão emocional.
Amar nas trevas é racional, então. Grotesco!
Que se dialoguem, mudem-se as desastradas convenções e dispam-se da hipocrisia social. O erótico toque de sinos é prenúncio do sorridente picadeiro da vida, não de fastiento anfiteatro da frustração. Vivamos, pois. Às claras, por favor.
Racional uma ova. A bandidagem almeja a carnificina, ensinamento diabólico, mas, por extremo descaso estatal, deixa famílias desamparadas e se põe a chupar dedos.
Matar e roubar os semelhantes é racional, então. Ridículo!
Que se previnam, mudem-se as ineficientes normas legais e vistam-se dos rigores da lei. O harmonioso badalo de sinetas deve servir para espairecer, nunca para recolher. Vivamos, pois. Desassombrados, por favor.
Tinha urgência em remover esse negócio da goela, pessoal.
 Não removi antes porque, como já disse, não sabia me expressar. Mas de tanto ver o Bastinho mexer no computador, acabei aprendendo. Aprendi no momento certo, porquanto preciso agradecer a minha amiga Neneta.
Vejam. Fizeram uma festa aqui em casa. Vacilaram e deixaram uns ossos de galinha dando sopa. Fartei-me com alguns, mas me engasguei com um danado maior. Ô ossinho duro de roer. Morto de sede, tentava tomar água, mas cadê dar o goto? Passei um sufoco, gente. Vi a hora pegar o beco. Pense numa sensação ruim, véio. Nossa! Horas depois, a Neneta viu minhas patas sujas de baba e mostrou-me ao Bastinho. Ficaram preocupados, Bastinho já coçando a cabeça e pegando o celular a fim de ligar para o veterinário, o tal do Dr. Sérgio. Lá vêm espetadas na bunda, pensei. Ninguém merece!
Aí a santa da Neneta teve uma ideia. Vestiu a mão com um saco plástico, deitou-me, prendeu minhas patas, inspecionou-me a garganta, viu o infeliz do osso e puxou. “Tá vendo chaninho, tu vai comer essas porcarias, homem!”, disse ela, livrando-me do engasgo. E livrando-se do saco plástico.
Que alívio! Se eu pudesse, teria coberto a negona de beijos. Ufa!
Estava com esse entalo na garganta, pessoal.
Obrigado Neneta.

É isso.
Beijos, ainda que virtuais, e até outro dia,
Chaninho